O Natal de Jesus é um "escândalo"!!!
E é Natal de novo! O papai Noel capitalista, as luzes, os presente$, contribuem para ofuscarem nossas vistas, impedindo muitos de verem o menino que brinca em um lugar pobre, em meio aos pobres que lhe ofertam as 'primícias' dos presentes: acolhida, solidariedade, carinho, companhia!
Ao mesmo tempo que termino a releitura (a primeira eu fiz em fins de 1980) do livro de Eduardo Galeno, na sua primeira edição de 1976 que foi publicada novamente em 1977 e que foi um achado gratificante que fiz na biblioteca de uma amiga (As veias abertas da América Latina: Tradução de Galeno de Freitas, Rio de Janeiro, Paz e Terra), escrevo este artigo no qual pretendo fazer provocações no sentido de explorarmos na forma reflexiva a força simbólica do Natal de Jesus, o nazareno.
"O amor de Deus e o amor pelo próximo", não é uma frase que encontra muito eco na cultura construída pelo Sistema Capitalista centrado no Ter e não no Ser. É deprimente constatar como na chegada ao fim de cada ano, o Papai Noel é sempre mais lembrado que o Deus pequenino encarnado entre os homens e pobres deste mundo, que tornou-se plenamente um deles.
A imagem do 'Papai Noel' nos remete a trocas de presentes, ao comércio, aos lucros dos donos do capital. A simbologia do velhinho é tão grande que faz com que adultos e crianças se regozijem de alegria ao avistá-lo em meio às luzes e canções de natal.
Esta constatação nos remete ainda a uma obrigatória reflexão sobre o Natal de Jesus, na perspectiva de suas implicações históricas e sociais e, espirituais também.
O nascimento de Jesus, em meio aos pobres, foi uma grande desolação para muitos daqueles que aguardavam a vinda do Messias. Imaginavam um "mito" que iria tirar a Palestina das mãos dos opressores romanos e lhes dariam vida boa - material e econômica - fazendo a Palestina passar da condição de oprimida à opressora, comandando o mundo contra seus inimigos. Logo, esperavam e, é natural que esperassem, que o Messias saísse de algum "palácio" e de uma "família de bem", naquela mesma concepção dos moralistas de nossos dias.
Mas não foi isto o que aconteceu. Ele não apenas nasceu de forma pobre e entre os pobres, ele permanece toda sua vida com os pobres, vive como pobre, entre pobres e morre como pobre.
Jesus não faz apologia à pobreza senão que coloca sua vida toda a libertar o homem da pobreza.
Sendo pobre por opção, ele conhece essa condição degradante na qual o homem foi jogado pela estupidez humana que concentra nas mãos de poucos as riquezas deste mundo. Jesus demonstra claramente que servir aos pobres é condenar a pobreza como uma condição que desumaniza o ser humano.
Ser de Deus, estar com Deus, é esvaziar-se de si mesmo em busca do irmão que sofre.
O critério para saber se alguém é de Deus é o seu comprometimento com a situação do próximo. Isto é o mesmo dizer que todo aquele que se preocupa com o que passa fome, sem moradia, sem terra, sem emprego, sem educação, torturado, prisioneiro... Estando solidário com todos esses corpos que sofrem, com certeza estará verdadeiramente perto de Deus, identificando-se com ele.
João, discípulo de Jesus, é muito feliz quando escreve que "Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor."
Ora, Deus está no meu irmão e se meu irmão sofre, Deus ali sofre, e se eu amo Deus, vou em socorro de meu irmão porque estou socorrendo Deus mesmo que nele sofre.
Pode até ser uma lógica cheia de redundâncias de linguagem, mas é assim mesmo! O amor de Deus não é um amor-paixão involuntário de namorados, mas não é preciso ter paixão pelo humano também? Sim, mas sobretudo amor e, o amor de Deus é um amor racional porque inclusive e, sobretudo, inclui entre os destinatários desse amor, nossos inimigos. João bem sintetiza isto ao dizer que "Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor."
Contraditório e escandaloso é o "cristão" que torna-se cúmplice de políticos que fazem apologia ao ódio, atacam minorias, defendem tortura e morte, e forjam projetos de governos para tornar os pobres mais ainda desassistidos voltando-se totalmente aos interesses dos ricos. João sintetizou muito bem isso ao escrever que "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?"
Portanto, o verdadeiro cristão é intolerante com o ódio, com a violência, em todas as suas formas. Deve na mesma medida ser contra a mentira, pois a mentira não pertence a Deus.
Para melhor compreender a opção preferencial de Jesus pelos pobres (o Deus Filho que assumiu a condição humana), o próprio João nos ajuda ao dizer que "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."
Jesus foi 100% humano e não serviu-se de sua condição Divina, esvaziou-se de suas possibilidades Divinas para realizar plenamente sua humanidade. Assumiu tudo o que é próprio de nossa condição humana e isto é muito consolador. Ele deve ser nosso Mestre nessa vida marcada por tantos sinais cotidianos de mortes.
É verdade que a religião cristã centrou-se historicamente no "pecado" condenado no sexto mandamento que faz uma deserotização da vida, e isso possibilita a dominação das pessoas pelo controle do poder dos instintos humanos. Levando as pessoas a culpabilizarem-se por algo que é natural ao ser humano. Não que não devamos controlar nossos instintos, devemos porque eles possuem algo de irracional. Porém, ao centrarmos nossas forças para controlá-los no mesmo nível do afeto, gastamos energia em algo que por fim acaba em moralismo barato e intolerância com aqueles que como nós não vencem nunca os instintos. Então o sujeito cai na depressão, cai no eterno conflito, cai na solidão e na tristeza.
O pecado maior fica de lado, o pecado das desigualdades sociais sempre ficou de lado, silenciado. As instituições cristãs constroem discursos subservientes diante dos poderosos e pregam uma caridade forjada com esmolas, buscando uma harmonização das condições humanas degradantes com a concentração de riquezas nas mãos de poucos.
Podemos interpretar essa "esmola" não apenas como parte de nossos bens materiais, mas também culturais.
"Nunca afastes de algum pobre a tua face e Deus não afastará de ti a sua face".
Temos que tomar o cuidado de extrair a essência dos livros da Bíblia. Não é uma tarefa fácil porque essa essência encontra-se em meio a muitos acidentes ali adicionados por aqueles que escreveram os textos. Essa essência porém é vivenciada por muitos membros anônimos ou um e outro que tornou-se conhecido do publico, de fato assumindo a cruz e seguindo Jesus na denúncia da pobreza e de suas causas.
Pena que as instituições religiosas não seguem nem o exemplo de Jesus profeta e muito menos desses seus filhos, verdadeiros santos (as).
Enfrentar a pobreza pressupõe um grande amor ao próximo, incluindo aí nossos inimigos.
Deus não tolera a pobreza porque esta representa a marginalização e a eliminação da identidade humana, e negar o humano é negar Jesus que plenamente foi homem.
A pobreza aniquila qualquer possibilidade de humanização.
Onde há pobreza é sinal de que Deus se faz ali. Está ali entre os pobres para com eles compartilhar da dor e iluminá-los a encontrar saídas. Está ali para junto com os pobres e suas lutas amolecer os corações petrificados daqueles que estão cegos pela ganância "capitalista".
A pobreza não é só econômica ou material, ela é complexa. Ela tem muitas manifestações nefastas, ela é política, ela é social, ela é cultural. Os pobres são percebidos por aqueles que acham-se fora dessa categoria classificatória como pessoas insignificantes por muitos motivos: os sem instrução, os habitantes das periferias, ou seja, razões culturais; os negros, os indígenas, as mulheres, os LGBT`s, os estrangeiros.
Ser pobre é o mesmo que ser nada.
E aí é que está a revolução proporcionada por Jesus, ele nasce como um pobre, um nada.
Há uma passagem no livro de Galeano, lá pela página 10, que diz o seguinte: "O sistema (excludente) é muito racional do ponto de vista de seus donos estrangeiros e de nossa burguesia comissionista, que vendeu a alma ao Diabo por um preço que deixaria Fausto envergonhado" (penso que ele está se referindo ao mito de Fausto que firmou-se como um mito moderno, nele o homem estaria disposto a perder-se para saber, para dominar a natureza e conhecer os segredos do universo. Ele representa o anseio humano pelo poder e pelo saber e também que saber é poder. Porém esta versão é fruto de uma longa jornada. Nos primeiros movimentos, quando do surgimento do mito, Fausto buscava só uma vida melhor, facilidades e riquezas, é a literatura que o vai espiritualizando, fazendo com que busque mais a ciência dos que os prazeres terrenos"). Continua Galeano "Mas o sistema é tão irracional para todos os outros que, quanto mais se desenvolve, mais aguça seus desequilíbrios e tensões, suas candentes contradições. Até a
industrialização, dependente e tardia, que comodamente coexiste com o latifúndio e as estruturas da desigualdade, contribui para semear o desemprego, em vez de ajudar a resolvê-lo; alastra-se a pobreza e se concentra a riqueza nesta região de imensas legiões de braços cruzados que se multiplicam sem parar".
E saber que Galeano está se referindo a observações que ele fazia ainda na década de 1970 e que pouca coisa mudou desde então até aqui.
Por isso, fiz uma rápida busca no Google e olha o que encontrei confirmando Galeano. A burguesia atrasada e gananciosa, desumanizada, continua a aprofundar a pobreza no Brasil e no mundo:
Os aumentos de casos de fome foram registrados principalmente na África e na América do Sul. No Brasil, os números apontam que mais de 5,2 milhões de pessoas (2,5% da população) passaram um dia ou mais sem consumir alimentos em 2017.(LEIA MAIS AQUI);
O número de brasileiros em situação de extrema pobreza cresceu em 2017, frente ao observado em 2016, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de famílias pobres também teve alta: entre aquelas que vivem com menos de R$ 406,00 por mês, o contingente subiu em 2 milhões de pessoas entre 2016 e 2017, chegando a um total de 54,8 milhões de brasileiros nessa situação. (LEIA MAIS AQUI);
Os 0,9% mais ricos do País detêm entre 59,90% e 68,49% da riqueza dos brasileiros, sendo as principais fontes de acumulação de riqueza os fluxos de renda e heranças recebidas. (LEIA MAIS AQUI).
Já lá pelas últimas das mais de 250 riquíssimas páginas do livro "Veias abertas da América Latina", Galeano faz menção a uma mulher que tornou-se mundialmente conhecida. Sobre a negra e favelada, descendente de ex-escravos, escreve o escritor uruguaio falecido aos 74 anos em 2015: "Cinderela do Brasil, produto de consumo mundial, Maria Carolina de Jesus saiu da favela,
correu o mundo, foi entrevistada e fotografada, premiada por críticos, homenageada por
cavalheiros e recebida por presidentes.
E passaram os anos. No início de 1977, numa madrugada de domingo, Maria Carolina de
Jesus morreu no meio do lixo e dos urubus. Já ninguém se lembrava da mulher que escrevera: “A
fome é a dinamite do corpo humano”.
A expressão "os pobres são um nada" encarna-se perfeitamente em Carolina de Jesus, que na vanguarda da arte literária fez aquilo que mais tarde faria a arte Hip Hop, ao denunciar as condições das populações periféricas na tentativa de construir uma consciência política e de resistência aos sinais de morte do capitalismo.
E Jesus continua com a vida ameaçada no Brasil e na América Latina.
Agora os donos do capital usam a política não apenas para atacar os pobres no âmbito do aspecto material e econômico. Os fenômenos da ascensão da extrema-direita, fascista, seja com Trump ou Bolsonaro, e o avanço da direita neoliberal no mundo é uma ameaça eminente às vidas dos mais pobres. Jesus sofre na humanidade reduzida à pobreza.
"Herodes" continua vivo e ameaça vidas.
O que Galeano escreveu na década de 1970 sobre essa problemática parece ter sido escrito hoje mesmo, pois nada mudou a não ser os mecanismos perversos, agora velados, que se impõe a um povo desprovido de cultura, de criticidade, ou seja, de autodefesa racional.
Escreve Galeano: "Nossas burguesias não foram capazes de um desenvolvimento econômico independente, e
suas tentativas de criação de uma indústria nacional não passaram de um voo de galinha, curto e
baixo. Ao longo de nosso processo histórico, os donos do poder deram também sobradas provas
de sua falta de imaginação política e de sua esterilidade cultural. Em troca, souberam montar um
gigantesco maquinário do medo e fizeram alguns acréscimos próprios à técnica do extermínio das
pessoas e das ideias."
Fazer a leitura do nascimento de Jesus em meio a essa realidade é o mesmo que constatar que, Jesus renasce a cada ano em meio à mesma situação na qual encarnou-se há mais de 2000 anos atrás.
Pouca coisa mudou! O Império continua subjugando os países mais pobres, os ricos continuam explorando os mais pobres, a pobreza cultural continua excluindo os mais "pobres" dentre os "pobres".
Mas se isso tudo não mudou, a utopia cristã também deveria não mudar. Mas já são pouco aqueles que por essa utopia se encantam alimentando-se dela na luta por justiça e igualdade.
Nosso compromisso cristão tem que ser fiel com a missão de Jesus, pois "Não há maior prova de amor que dar a vida pelo irmão".
Ora, mais como dar a vida pelo irmão?
Existem variadas possibilidades, mas elas devem ser vistas no todo. Quando possibilitamos ao outro a capacidade de pensar por si mesmo, por exemplo.
Quando falo de possibilitar ao outro uma educação que lhe refine a cultura, humanizando-o, lembro-me de Dom Helder Câmara (1909-1999), que foi um líder religioso, um homem que viveu na simplicidade entre os pobres, sem ostentar poder a não ser o poder de sua condição física e de humildade, sendo voz dos pobres frente aos poderosos deste mundo. Tinha um corpo diminuto, magérrimo, porém poucos o superavam em oratória.
Ele dizia que: "A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar."
Do profeta Câmara também é a frase: "O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus."
Ele está nos esclarecendo que a pobreza não é coisa de Deus, e a riqueza só é de Deus se todos dela participam.
Logo, a concentração de riquezas nas mãos de poucos e as desigualdades sociais que empobrecem muitos, é um escândalo vergonhoso dos cristãos no Ocidente, que nega Jesus Cristo. A pobreza é racional, é uma construção histórico social orientada pelos 'donos do capital'.
É de Dom Helder Câmara outra oportuna citação: ‘se falo dos famintos, todos me chamam de cristão; se falo das causas da fome, me chamam de comunista’.
Dom Helder demonstra que viver como Jesus viveu e ser cúmplice de sua missão não é fácil. Esta luta pressupõe riscos à própria vida.
Mas a morte só é vencida pela vida. É no enfrentamento orientado pelo amor desmedido pelo próximo na construção de uma sociedade cheia da presença de Deus: Justiça e Equidade!
Celebrar o nascimento de Jesus é ter consciência de que não trata-se de uma simples ação por afeto festivo. Celebrar o nascimento de Jesus é uma oportunidade para reconquistarmos a utopia de Jesus na realização de um projeto de vida para todos e todas, sem exclusões.
A luta política é uma das formas mais sublimes de caridade, alguém já disse. E é mesmo! Você aí que lê este texto pode até achar que o fato de milhares ou milhões de pessoas terem ficado sem o atendimentos dos médicos cubanos, não tem relevância. Mas tem sim e o fato concreto deles terem deixado o país foi consequência da opção que o brasileiros fizeram nas urnas.
Ao votar em um candidato contrário à presença dos médicos cubanos no Brasil, o eleitor, ainda que inconsciente, votou pela "expulsão"dos cubanos, deixando milhares e milhares de crianças sem atendimento médico, entregues à própria sorte.
Jesus sofre sem atendimento médico. Mas a quem isto pode provocar a mínima preocupação?
Jesus vai nascer simbolicamente de novo entre os homens no dia 25 de Dezembro. Com certeza ele nascerá entre os pobres porque Deus é fiel e seu amor é sem fim. A causa dos pobres pela vida é causa de Deus!