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domingo, 6 de março de 2011

PARA APROFUNDAR NOSSA COMPREENSÃO ACERCA DA RELAÇÃO ENTRE SABER MÍTICO E SABER FILOSÓFICO

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MITO e Filosofia

Artigo do Professor Lucio Lopes 04.03.2011
Correio eletrônico: luciolopes68@yahoo.fr
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Texto para fundamentar estudo.
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Relação Mito e Filosofia

RESUMO: O Mito Grego tinha as sementes da Filosofia. O politeísmo antropomórfico iria possibilitar um rompimento gradual entre Mito e a nova forma de lidar com o conhecimento, a Filosofia. Um fundado na Crença, o outro fundado na Razão. No Mito Grego havia uma busca pela Ordem, pela Harmonia integradora entre homem-natureza, em meio a um movimento relacional marcado pelo dualismo entre Bem e Mal; Seres Imortais e Mortais; Céu e Inferno; Santidade e Pecado; Certo e Errado. O antropomorfismo das divindades gregas imprime as marcas humanas: crimes, incestos, adultérios... Os deuses são também imperfeitos, se analisados perante os nossos atuais “padrões” de Bem e Mal, morais e éticos. Zeus era infiel; Hermes era ladrão; Dionísio vivia em orgias, Hera era extremamente má... O Mito Grego é produto da busca humana na compreensão totalizante de seu Ser. Que lições, podemos aprender a partir do Mito Grego e da Filosofia Antiga, para uma leitura de nossa atual existência em meio à cultura do Ter?


O Mito: A beleza estética da linguagem mitológica


Desde a antiguidade, os Homens acreditavam existir um elo entre CAOS e ORDEM, ao mesmo tempo que, estes se colocavam em posições totalmente antagônicas. Ordem exige por conseqüência organização e, foi assim que o Homem organizou símbolos que se tornaram linguagens articuladas, aptas a produzir qualquer tipo de narrativa: nascia o Mito.


[Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, e Eros: o mais belo entre Deuses imortais, solta-membros, dos Deukses todos e dos homens todos ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.] (HESÍODO. Teogonia, 116-122. SCHWAB, 1999).


Os Mitos dos quais temos conhecimento, em sua maioria, retratam esta tensão entre Caos e Ordem. Para os gregos e muitos dos povos antigos: Terra, Mar e Ar, eram símbolos de Caos - não tinham consistências, texturas e cores. A Ordem seria a separação e disposição destes três elementos de forma organizada. Destes símbolos, as narrativas mitológicas, gerarão uma infinidade de outros...

A mais fundamental das idéias do antropólogo estruturalista Lévi-Strauss (1984), quase que o ponto de partida, é que existe uma relação muito próxima entre o mito e a linguagem. Ou seja, a ordenação de uma vasta gama de símbolos díspares em seus significados ao tecer narrativas.

O historiador GRIMAL (1987) por sua vez, identifica – o Mito – organizado na estrutura de uma linguagem alegórica narrada oralmente, juntamente com o LOGOS, como uma das partes constituintes da linguagem humana: Grimal recorda que: "Para um Grego, o mito não conhece nenhuma fronteira. Insinua-se por toda parte. É tão essencial ao seu pensamento quanto o ar ou o sol à sua própria vida". O Mito vigente na Grécia Antiga é carregado de crença dogmática e salta aos olhos humanos. Aos visualizar o Céu identifica Urano; a terra – solo em que pisa – é sagrado uma vez que Gaia está ali; o Sol que ilumina é Apolo exercendo sua majestade, etc.

A lingüística moderna estruturalista nos ensina que o nível mais básico da linguagem é composto por elementos chamados fonemas. Eles são o puro som sem significado. Só ao combiná-los é que se obtém o diferencial do sentido, o sinal, a significação. Quando combinamos esses fonemas e significamos com nossa linguagem entramos, ao mesmo tempo, no nível das palavras. Nele saímos do puro som e aliamos a esta sonoridade o significado, ausente no nível anterior. A combinação das palavras produz um outro nível, também pleno de som e significado, que é o das frases. Assim, fonemas, sem significação, combinam-se formando palavras, com significação que, por sua vez, combinam-se formando frases.

A partir dessa constatação, segundo o complexo estudo do antropólogo e etnógrafo Lévi-Strauss, temos que um mito, para ser entendido, requer um procedimento de leitura diverso daquele que normalmente adotamos com outras literaturas que passam sob os nossos olhos.

Para Lévi-Strauss, o significado do mito está vinculado a grupos de acontecimentos que às vezes encontram-se até afastados na estória do mito. Temos que ler o mito percebendo-o como se percebe uma totalidade; só assim compreenderemos seu significado.

Destarte, falta então descartarmos qualquer conexão do Mito aqui abordado com aquela concepção atual de “mito” que poderia ir de Kaká – o melhor futebolista brasileiro, ao Michael Jakson – Rei da música pop, à qualquer outra coisa... Como, por exemplo, o Mito científico, criticado tanto por Rousseau que o identificava como uma moeda de duas faces – sendo uma boa e outra ruim; já Nietzsche (DELEUZE, 1970) o identificava como carregado de dogmatismos, donde sentenciava que tanto a Crença, quanto a Razão, são produtores de mitos camuflados para produzir dominação (cf. Mendes, 2008. pg. 22-24.).

Essa concepção de “mito”, pelo menos diretamente, construída de forma fragmentada e com finalidades intencionais não converge para a concepção de Mito enquanto forma de conhecimento e que dá conta de questões existenciais totalizadoras. É esta nossa concepção de Mito enquanto forma distinta de saber. A concepção do parágrafo anterior, é apenas a “extração” da característica central do conhecimento mítico, ou seja, a marca do dogma.

O Mito em nossa concepção aqui delineada também está muito longe de ser confundido com o conhecimento vigente em nossa atualidade em maior grau, o saber popular – o chamado Senso Comum. Senso Comum e Mito se diferem como pedra de água.

Esta concepção nos obriga a recorrer antes, de mais nada, ao filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937). Ele admitia que o "senso comum" possuía um caroço de "bom senso", a partir do qual, poderia desenvolver o espírito crítico. Gramsci acreditava na possibilidade de uma superação real desta forma de conhecimento, sem a qual, o Homem permaneceria com sua Razão seqüestrada nos estreitos limites do Senso Comum que, segundo ele, é marcado por uma profunda superficialidade e de uma imensurável incoerência interna, além de ser, em grande parte, produto da ideologia dos mais ricos.

Ora, em outras palavras, se entendermos que o Senso Crítico se constitui especialmente da articulação de conhecimentos filosóficos e científicos, Gramsci queria dizer que o Senso Comum é a matéria prima da Ciência e necessitava de uma transição que o levasse do bom-senso ao senso crítico. Noutra perspectiva, Aristóteles tinha a compreensão de que o Mito era a matéria prima da Filosofia, até mesmo porque em contraponto ao Mito, os primeiros filósofos, desde Tales, se aventuraram na busca de princípios e, era sobremaneira a especulação sobre os princípios e causas - a marca que fazia o verdadeiro filósofo, segundo Aristóteles. Apesar de criticar na sua obra “Metafísica” os filósofos cosmologistas por se ocuparem apenas do princípio e causa material (a busca por um Arché do Cosmo e da Physis), os reconhecia como sendo os primeiros filósofos:

[Dos primeiros filósofos, a maioria considerou os princípios de natureza material como sendo os únicos princípios de tudo que existe. (...) Tales, o fundador desse tipo de filosofia...] (Aristóteles, Metafísica já 983 b6)

A intenção aqui, é justamente contrapor a dinâmica relacional do homem grego antigo diante da problemática: Caos-Ordem, frente à constituição organizativa do conhecimento, Mítico e filosófico, para resolver esta dicotomia latente entre caos e ordem.

Podemos utilizar o axioma todos os povos, em algum momento de sua evolução, criaram mitos ao longo de suas histórias, para demonstrarmos, que o Mito é a forma, por excelência, antes do advento da espetacular criação grega que foi a Filosofia, para darem respostas ao seu modo, às questões existenciais colocadas ao seu tempo.

O barro com o qual Prometeu desenha o Homem no Mito Grego, o Barro com o qual o Homem é desenhado por Javé no Mito Judaico, ou ainda, se apossando de mais um exemplar analógico, o Barro com o qual o Homem é desenhado por Tupã no Mito Guarani, são apenas alguns exemplos.

Tanto o Grego quanto o Judaico e o Guarani, falam da existência simultaneamente de Caos, Trevas. O homem criado por Prometeu origina-se da argila enquanto é do chão que Javé monta seu boneco. A mulher é criada em segundo plano nos dois mitos e ainda, responsabilizada pela inserção do mal na humanidade: no judaico fora ludibriada pela simbólica serpente; no Grego como castigo ao Homem por ter recebido a faculdade da Razão (sob a simbologia do fogo), de Prometeu; na figura da graciosa Pandora e sua caixinha do Bem e do Mal recebida de presente do todo poderoso Zeus.

Como é que, povos que tiveram seu processo de evolução, apesar de engendrado em regiões geográficas tão díspares, puderam construir Mitos com tantas semelhanças em seu conteúdo?

No ano de 2009, por exemplo, todas as nações vivenciaram e compartilharam um problema em comum: a disseminação do vírus H1N1. Enquanto o vírus não era conhecido e nem dominado pelos cientistas, a saída foi tomar medidas preventivas. Mas imagine você se não tivéssemos nem Filosofia e nem Ciência. Pare e pense nas proporções que aquele pavor que tomou conta das pessoas no início da pandemia poderia tomar. Que saídas o homem iria encontrar para enfrentar a situação problema que se apresentava naquele dado momento?

Pois é, a humanidade sempre esteve envolta em situações problemas que se colocavam em seu cotidiano e, exigiam respostas que ao menos convencesse seus espectadores sedentos de explicações, sem as quais viveriam em uma eterna angústia. Aliás, esta é uma característica humana latente, a angústia frente ao desconhecido. O Homem é este ser eternamente angustiado desde o início de sua evolução e tomada de consciência em relação a sua condição enquanto possuidor da Faculdade Anímica da Razão, que é o diferencial, fundamental, entre ele e os demais seres da natureza.

Estas situações problemas sempre se convertiam em questões existenciais. Isto é, o Mito em conexão às modalidades de saberes, Artístico e Religioso, conseguiu dar conta de uma complexidade cada vez maior em decorrência da vida social mais organizada de seus povos. Sem o recurso da escrita, restrita apenas à algumas centenas de indivíduos, o Mito com seus conteúdos armazenados na memória e disseminados pela narrativa oral, tornou-se vigente e dominante, enquanto conhecimento organizador e regulador da vida social em todas as suas dimensões.

Considerando fato de que a Escrita e Leitura são restritas a uma parcela praticamente invisível da sociedade, enquanto a esmagadora maioria não tem acesso a estes recursos, logo, por exemplo, para regular as relações sociais não há leis escritas como as de hoje. O incesto, por exemplo, era um problema que se apresentava em algum momento. Como resolvê-lo? A estória de Jocasta e do Rei Édipo resolve o problema. Se Édipo e Jocasta tiveram tão triste fim sendo pertencentes ao topo da pirâmide social, o que não aconteceria a um pobre mortal que cometesse o mesmo erro? Pensava o homem comum da Grécia.

O Homem diante do Cosmo e tomado de espanto sempre levantava muitas questões: quem fez o sol? Por que ele brilha? Qual a finalidade dele?...Questões como essas e outras careciam de respostas. E o Mito as dava. Mais tarde, a Filosofia também produzirá as suas próprias respostas e, segundo Aristóteles, este mesmo “espanto” será o responsável pelo surgimento dela, a Filosofia:

(...) É absolutamente de um filósofo esse sentimento: espantar-se. A filosofia não tem outra origem... (Platão, Teeteto, 155 c8)

(...) Com efeito, foi pela admiração (thauma) que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, ante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores (...). E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante - por isso o amigo dos mitos [filómito] é de um certo modo filósofo... (Aristóteles, Metafísica, A 982b)

É verdade, que o mito era o conhecimento vigente por excelência e assim o foi por séculos, até mesmo no Ocidente, prevalecendo até a era cristã. Sem se esquecer que ainda hoje é vigente nas culturas nativas de nossos “índios” e de outros povos nativos habitantes noutros continentes. O mito para essas comunidades nativas seria uma espécie de legado, de elo, para manutenção e transmissão de suas culturas. Sem o qual a cultura perde força e o povo sua identidade.

Portanto, aqui, já fica evidente a exigência de um respeito excepcional de nossa parte, justamente por sermos hoje detentores de saberes filosóficos e científicos, frente ao Mito. O Mito tem sua importância e seu lugar, tem sua função educativa e aglutinadora. Filosofia e Ciência são apenas possibilidades outras ao alcance do Homem, mas uma não anula a outra. Se não seguirmos esta lógica o risco de nos tornarmos tiranos do conhecimento se torna eminente, assim como fizeram, analogicamente dizendo, os “imperialistas” do tempo das grandes navegações que impuseram preconceitos de seleções exclusivistas nas relações com outros povos: cultura européia superior às outras, branco superior ao negro, etc.

O filósofo moderno, Jean-Jacques Rousseau, tratou em sua famosa obra “Discurso sobre a desigualdade,” do antagonismo latente na humanidade entre perfectibilidade e tirania, que são para ele as fontes de todas as glórias e ao mesmo tempo de todas as desgraças humanas:

A natureza manda em todos os animais, e a besta obedece. O homem sofre a mesma influência, mas considera-se livre para concordar ou resistir, e é sobretudo na consciência dessa liberdade que se mostra a espiritualidade de sua alma (...). Mas, (...) sobre a diferença entre o homem e o animal, haveria uma outra qualidade muito específica que as distinguiria e a respeito da qual não pode haver contestação – é a faculdade de aperfeiçoar-se, faculdade que com o auxílio das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e se encontra, entre nós, tanto na espécie quanto no indivíduo; o animal, pelo contrário, ao fim de alguns meses, é o que será por toda a vida e sua espécie, no fim de milhares de anos, o que era no primeiro desses milhares. Porque só o homem é suscetível de tornar-se imbecil? (...) Seria triste, para nós, vermo-nos forçados a convir que seja essa faculdade, distintiva e quase ilimitada, a fonte de todos os males do homem; que seja ela, que, com o tempo, o tira dessa condição original na qual passaria dias tranqüilos e inocentes; que seja ela que, fazendo com que através dos séculos desabrochem suas luzes e erros, seus vícios e virtudes, o torna com o tempo o tirano de si mesmo e da natureza. (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a desigualdade.1978).

No passado havia uma harmonia entre Homem e Cosmo quase que natural. O Homem desconhecia a Natureza devido à sua pluralidade, porém, ao mesmo tempo, existia uma relação vital de respeito, pois que dela retirava diretamente seu sustento. O Homem a via como fonte de sua própria vida. Este respeito era desencadeador de valores, crenças, rituais, etc.

O Cosmo hoje não é mais o mesmo. Aliás, processo de transformação que vem desde a construção da nova antroposfera, a partir do conhecimento disseminado no período pós-Revolução Científica da modernidade. “Tirano de si mesmo”, como retratava Rousseau, o Homem foi se isolando, foi se tornando estranho ao Cosmo e a si mesmo. Dominação e Violência, progresso e destruição... O Homem foi mergulhado em uma profunda crise existencial. Os desafios atuais exigem novas respostas... Haverá resposta para eles?

O mito se caracteriza por confundir-se com aspectos religiosos e, no caso Grego, é marcado pela crença antropomórfica e politeísta. Toda possibilidade de Ordem e Harmonia só poderão brotar desde estes aspectos de crença. Aqui reside a autoridade dos conteúdos míticos, ou seja, na crença politeísta. Também, o Mito Grego tem a função de manter o “status quo” vigente naquela época.

Na Grécia Antiga, do tempo mitológico (especialmente, XVI ao V a.C), a relação com o a possibilidade de acesso ao Conhecimento é muito nítida: os ricos – pela autoridade dos deuses podem pensar – aos pobres (povão), apenas resta a atitude de obedecer sem contestar. Assim, os ricos mantinham o povão sob controle para manterem seus interesses e a pseudo harmonia entre as diferentes “classes sociais”.

O desafio não está apenas em compreender o Mito em seu contexto histórico, mas justamente em buscar o que há de “fundo de verdade” nestas estórias míticas e o que elas representam para a formação do homem livre e completo nos dias de hoje. Compreender a linguagem mítica é uma questão essencial para a compreensão da construção do conhecimento humano em todas as suas dimensões. Uma vez que na vida humana nada existe em desconexão, mas sim em uma conexão existencial “sine qua non”. Esta compreensão pode ainda nos possibilitar uma compreensão mais ampla até mesmo do senso comum tão dominante na vida cotidiana em nossa atualidade.

O homem atual está mergulhado em uma profunda crise existencial. Existe um empobrecimento em relação aos valores vitais da vida: respeito, amor, generosidade, gratuidade, etc. O Homem atual vive uma dinâmica de violência conseqüencial: uma violência que é interior – apesar de ser o Homem da Era da Informação, este parece ser incapaz de produzir Conhecimento, quando não é incapaz também de colocar algum conhecimento em benefício de sua humanização (O Sistema Capitalista tornou-se como que um ente ditador em que apenas o consumismo e a dominação devem ser venerados); esta crise no âmbito individual (vida interior) reflete diretamente na sociedade que, também em crise, reproduz um ciclo de violência interminável e que se manifesta em variadas formas; por fim, o Planeta também atingido por essa violência, como que em efeito dominó, responde naturalmente ao “estado doentio” ao qual o Homem o relegou.

O que poderia um olhar cuidadoso para os contextos do Mito Grego e da Filosofia, iniciada por Tales, nos ajudar em uma reflexão na busca por respostas aos desafios irrompidos de nossa realidade crucial?

O Mito não pode desaparecer de nosso “DNA cultural” do dia para a noite. Os conhecimentos filosóficos e científicos ainda não foram capazes de varrer do ocidente, por exemplo, a Cultura do machismo, que deste lado do mundo encontra suas fontes nos mitos, Judaico e Grego. É dispensável retratar aqui todas as conseqüências daí advindas. No Brasil, atualmente, uma média de 16 mulheres são espancadas por minuto, são cerca de 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano no país;10 mulheres são assassinadas por dia (cf.Pesquisa da Fundação Perseu Abramo. Outubro de 2008 – informação acessada no site www.fpabramo.org.br/ em 19.08.2010)

O Machismo – enquanto cultura - que impõe à mulher uma série de violências discriminatórias, identificando-a como este Ser em segundo plano quanto à valoração, encontra sustentação ma moral sexista adotada pelo Cristianismo - com sua moral fundada (de forma fundamentalista e dogmatizada) em textos judaicos do Velho Testamento - apenas reforça, ainda que de forma subliminar, estas formas de violências. A mulher ainda é vista como objeto de propriedade do homem.

A mulher cooptada pelo sistema de produção capitalista como mão de obra barata (dado recentes de pesquisas indicam que elas ganham em média metade do salário do homem e fazem jornadas duplas, triplas, ou mais – uma vez que estendem este tempo de labor aos serviços domésticos em outros períodos; uma mulher assassinada a cada duas horas no Brasil, 250 por hora no mundo; são apenas facetas de uma cultura machista ainda latente e perniciosa presente em nossa sociedade atual. Não são, estas, questões urgentes para uma reflexão fundada na conexão direta da História da Filosofia aos nossos problemas sociais atuais? O Mito não está na História da Filosofia Ocidental? Existe compreensão autentica da Filosofia sem um revisitar os fundamentos do Mito Grego?

Se nossa atividade analítica nos levasse ainda a considerar, só para questão de comparação, fazer um paralelo com o mito da criação Tupi-Guarani, por exemplo, se depararia com elementos parecidos, apesar das diferentes matizes. Estive pessoalmente por mais de uma vez em contato (visitas) com povos nativos Guaranis, Terenas e Kaiowás, portanto o que descrevo é aquilo que lá aprendi com eles próprios em suas narrativas orais.

Para um aprofundamento sobre o Mito Guarani, sugiro uma leitura do trabalho acadêmico disponível em: http://busca.unisul.br/pdf/82059_Mara.pdf - último acesso em 19.08.2010. Ali há uma ampla análise do Mito Guarani estudado a partir do fenômeno da dança como ritual aos deuses.

Nas culturas nativas guaranis, constatei uma sociedade menos machista ou com praticamente a ausência do machismo e, sem a relação “doentia” (neurótica) com a sexualidade – própria da moral cristã, nas chamadas civilizações Ocidentais. Com isso não estou querendo fazer aqui juízo de valor. Penso que todas as culturas possuem elementos bons e que podem ser compartilhados para o bem coletivo intercultural.

No Mito Guarani homem e mulher são moldados a partir da argila ao mesmo tempo e, a mulher, diferente dos mitos grego e judaico, não é responsabilizada pela inserção do mal na humanidade. Pude inclusive participar de um ritual incentivado e praticado em uma aldeia Guarani – por estudiosos destes povos que buscam re-valorizar, reconstruir, estes ritos originários em meio a estes povos vilipendiados da cultura de seus ancestrais, para fortalecer os vínculos culturais enfraquecidos pela dominação européia-brasileira.

Os dois, homem e mulher, recebem de Tupã os espíritos do mal e do bem ao terem a vida insuflada pelo Criador. Aqui, então, um dado interessante a ser considerado: em suma, Homem e Mulher estão em pé de igualdade.

As narrativas mitológicas são transmitidas pela tradição oral, seja no Mito Grego ou qualquer outro, passadas de pais para filhos e, mais tarde, reunidas em escritos como por exemplo, os poemas de Homero e Hesíodo e os Livros Bíblicos Judaicos. É natural que o Homem seguindo esta tradição seja levado a fantasiar de forma exagerada as estórias brotadas de seu imaginário para resolver questões existenciais do cotidiano. Isto impede que os contos míticos percam sua força educativa. As muitas variadas versões para uma mesma narrativa decorre deste fato. O importante, não é a roupagem nova que a narrativa ganha, de tempos em tempos, mas sim a centralidade de seu objetivo exclusivamente educativo.

São, portanto, narrativas alegóricas, ou seja, narrativas agradáveis ou não, pelas quais se apresentam simbolicamente importantes verdades, os fins são sempre educativos e este processo educativo muitas vezes pode fugir de nossa percepção pois apenas o homem destinatário destes conteúdos, inserido naquele contexto, pode medir o poder da simbologia apresentada naquelas narrativas míticas, como já nos lembrava no início do texto o antropólogo Lévy-Strauss. A linguagem alegórica foge do formato de uma linguagem abstrata como é a nossa hoje.

Mito é, por isso mesmo, imensamente rico por apresentar em seu núcleo a arte de construir personificações ao lado de tramas, com o fim anteriormente citado. Estas estórias muitas vezes se desdobram em várias versões e não seguem uma lógica, sendo na maioria das vezes contraditórias, sem mesmo reunir um mínimo de lógica, fabulosas, enfim, nada reais – pois que, fruto do imaginário do coletivo que as criou ( muitas vezes do imaginário de um pequeno grupo (celular) e por fim, de todo um povo). Advém daí as várias versões que podemos encontrar para uma mesma estória. Isto depende de uma gama de fatores históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos. É típico de contos míticos o acréscimo de novos elementos à narrativa original para torná-la atualizada a fim de prender a atenção ou enfrentar novas questões existenciais impostas pelo cotidiano.

A tentativa de explicar, por exemplo, “Quem fez o mundo?” é infantilizada na constatação do óbvio: a mesa existe, logo, alguém a fez. Isto implica na mesma constatação: O mundo existe, logo, alguém o fez. Então se busca o desvendar de tal mistério a partir daquilo que eles têm e o mito, é o recurso ao alcance de nossos antepassados. O mítico mesclado ao religioso conduz a razão humana ao sobrenatural e daí advém, diante do desconhecido, todas as fábulas espetaculares construídas pelo imaginário humano.

Vamos analisar ainda, mais uma vez, as passagens referentes à Criação Judaica no Velho Testamento da Bíblia. Há duas narrativas míticas criacionistas na Bíblia e ambas, com objetivos educativos. No capítulo 2, ainda no Éden, Deus pensa numa forma de tirar Adão, seu jardineiro, do tédio da solidão. Essa passagem da criação se casa com os mitos sumerianos e deles, parece que foi emprestada. Nos mitos sumerianos os deuses queriam alguém para cuidar de seu jardim, cultivar seus alimentos, por isso criaram o homem.

Com esta leitura de pano de fundo fica fácil perceber o efeito alegórico dos capítulos 2 e 3 no Gênesis. Diferente do capítulo 1 onde Deus os cria, homem e mulher à sua imagem e semelhança; no 2 e 3 extrai Eva de Adão. O que intriga é que justamente o 2 é mais antigo e data do Séc. VIII a.C. enquanto o 1 é do IV a.C. e de uma fonte literária chamada Sacerdotal – sendo que o objetivo educacional é de exaltar o sábado como dia de guarda reverencial sagrada ao Criador que teria descansado ao final de sua obra. As descrições ali presentes além de encontrarem semelhanças nos contos sumerianos também encontram ressonâncias nos contos babilônicos e mais provavelmente da babilônia, durante o período que lá ficaram cativos, é que os Hebreus emprestaram a base para a sua descrição da Criação do Cosmo e de tudo o que o compõe. Na história mítica hindu da identidade encontramos mais um paralelo para compreender a criação do homem e da mulher no Mito judaico, apesar de que lá foi Deus que se partiu em dois enquanto no judaico foi o homem.

O objetivo aqui não é de rigor bíblico exegético e sim, é só de demonstrar a riqueza mítica nas inúmeras culturas, nos inúmeros povos. Estudar o mito é uma tarefa fascinante para podermos compreender a evolução do pensamento, do conhecimento humano.

É necessário para isso, liberar nossa fé (nossa crença intersubjetiva) das prisões culturais impostas pelas sentenças dogmáticas religiosas e, não ter medo de usarmos a Faculdade Anímica da Razão, a faculdade, não menos sublime que a dos sentimentos, da qual o Homem que é criatura torna-se ao mesmo tempo criador. Essa liberação não é um de nossos desafios em sala de aula?

Abrir-se ao conhecimento, reconhecer-se ignorante diante do conhecimento, como nos ensinava Sócrates, com seu método irônico/maiêutico e, de semelhante ensinamento o verso chinês que aparece no Tao Te Ching : “ Aquele que pensa que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, sabe. Pois, neste caso, saber é não saber. E não saber é saber.” Isto pode nos possibilitar uma lançar-se na aventura, sem limites, de ir ao encontro do conhecimento sempre novo e libertador, diminuindo a distância entre o abismo que separa o desconhecido do conhecido.

Isto é dizer ainda, em outras palavras, somente com a fuga desta prisão poderemos, segundo Sócrates com o seu “Conhece-te a ti mesmo”, estarmos aptos para nos aventurarmos no mundo do conhecimento. Para tanto, esta liberação só ocorrerá se antes de tudo conhecermos as nossas limitações internas impostas pela nossa fé dogmatizada em pseudo-verdades fechadas em si mesmas ao novo, que em vez de enriquecerem nossa humanidade conduz nosso espírito justamente à estagnação lamentável dos “alienados” de Karl Marx, ou à situação dos limitados à “menoridade Kantiana”.

Conhecer o Mito e o poder de sua linguagem é uma dessas tarefas primordiais na longa aventura de busca pelo conhecimento. O Mito não está isolado e perdido no passado, seus conteúdos interagem com os conteúdos de todos os conjuntos de conhecimentos, ora com o artístico, ora com o religioso, ora com o senso comum, ora com a filosofia, ora com a ciência...

O Mito em conexão com a Filosofia e os demais saberes pode e muito, nos oferecer pistas para elaborarmos respostas às questões existenciais da atualidade, sobretudo respostas que possam levar o homem ao reencontro de seu poder re-humanizador.

Para concluir, parafraseando GRIMAL, já citado no texto, assim como o mito e o logos, ambos são duas partes fundamentais constituintes da linguagem humana, também não poderíamos cometer o erro de colocar uma em detrimento da outra, haja visto que, elas se identificariam com os aspectos da afetividade e da razão humana e, que, quando uma se sobressai em detrimento da outra, o homem fica mais pobre. Seria como a comida sem tempero e sem sal. E seria, por exemplo, como a ética aristotélica sem a mediania e/ou excelência moral, enquanto condição para atingir o equilíbrio vital entre as duas faculdades anímicas constituintes do Ser Homem – dos sentimentos e da Razão – equilíbrio este cuja finalidade é levar o Homem ao Supremo Bem, à Felicidade. Mito e Logos são, portanto, duas partes fundamentais da linguagem humana que merecem toda nossa atenção.

Referências

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ROCHA, Everardo. O que é Mito. (coleção primeiros passos). São Paulo: Brasiliense, 1996.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril Cultural, 1978.




SOBRE O PAPEL E A IDENTIDADE DA FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO: QUE FILOSOFIA DEVE SER ENSINADA?
Adaptado de REFLEXÕES ACERCA DA FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO: O PAPEL DA DISCIPLINA E DE SEUS CONTEÚDOS EM SALA DE AULA. Por Marcia Reami PECHULA


Fazer perguntas é fácil; tarefa difícil é respondê-las. Historicamente, a filosofia sempre teve essa dupla função: fazer as perguntas de fundamento (quem sou eu? o que é o mundo? como tudo começou?) e buscar respostas que, por sua vez, sempre geraram novas perguntas e respostas ainda mais profundas. Também suas bases fundamentais sofreram alterações. No início, com os gregos, sua preocupação era basicamente encontrar a resposta verdadeira e universal acerca dos problemas desconhecidos pelo homem. No medievo, sua base de sustentação assenta-se na fé, presa a uma doutrina determinada pela igreja católica. Na modernidade, dá-se a recuperação do caráter racional da filosofia só que sustentado no sujeito pensante (cogito ergo sun cartesiano), único capaz de conhecer e definir a verdade absoluta sobre todas as coisas. A certeza cartesiana abre as portas para o conhecimento sustentado pela ciência, que se torna a partir do século XIX, a única fonte de conhecimento verdadeiro. O desenvolvimento da ciência acabou por designar ao conhecimento um caráter empírico, voltado para o avanço tecnológico. No entanto, por mais que a tecnicidade e a praticidade abreviem a necessidade do homem em compreender-se a si mesmo e ao mundo ao qual pertence, a busca de respostas sobre suas indagações ainda constitui o centro da preocupação humana. Ante a esta realidade a tarefa da filosofia é desafiante: suscitar o desejo de conhecimento capaz de integrar o homem, o mundo e a natureza num projeto de compreensão existencial e transformação consciente. Neste sentido, é necessário identificar o papel da filosofia no processo educacional o que significa não tratá-la apenas como mais uma disciplina, pura e tão somente, mas como uma prática reflexiva (práxis), que auxilie na descoberta da identidade do homem diante da natureza, na construção da liberdade e na transformação consciente da realidade. É evidente que tarefas tão árduas e complexas não são privilégios da filosofia isoladamente. Tal empreitada exige uma relação minimamente interdisciplinar, cabendo à filosofia uma tarefa definida entre as demais, igualmente definidas, porém unidas quanto aos objetivos centrais. a experiência filosófica emprega-se de três características básicas: “o pensamento conceitual, o caráter dialógico e a crítica radical”.

Para o professor Severino (2003, p.1-2) a “incumbência da filosofia é mostrar aos jovens o sentido de sua existência concreta. E é assim que a filosofia se torna formativa, na medida em que ela permite ao jovem dar-se conta do lugar que ocupa na realidade histórica de seu mundo”. Dessa forma o papel da filosofia é o de auxiliar o jovem a “compreender o sentido de sua própria experiência existencial, situando-a em relação ao sentido da existência humana em geral”.

Aprofundando a discussão acerca do papel da filosofia no ensino médio, Severino (2003, p. 2-3) afirma que a formação de ensino médio deve oferecer ao aluno uma “sensibilidade fina”. Porém a estrutura pedagógica brasileira está organizada em disciplinas fundadas em conteúdos voltados para o desenvolvimento de habilidades técnicas e pragmáticas (como as ciências). Por isso tais disciplinas não têm condições de oferecer esse tipo de sensibilidade aos alunos. Esses conteúdos podem tornar os alunos competentes para uma atuação técnico-profissional, mas não são capazes de conduzir ao raciocínio crítico e reflexivo. Isso não significa que a formação técnico-profissional seja dispensável, entretanto ela não contempla as necessidades básicas que capacitam os alunos a compreenderem o seu mundo e atribuir sentido à sua existência.

Nessa perspectiva, o compromisso da filosofia não pode ser aceito no âmbito da transversalidade, mas deve relacionar-se profundamente com a “transposição didática”, ou seja, a filosofia não pode permanecer numa condição disciplinar isolada das demais disciplinas. Afirma ainda: Ciências e filosofia têm uma tarefa comum ao visarem a formação dos adolescentes no ensino médio: levá-los a uma compreensão mais conceitual do significado de sua existência concreta no contexto da existência mais abrangente do mundo natural, do mundo social e do mundo cultural. (SEVERINO, 2003, p. 4). Nesse sentido, o currículo do ensino médio deve ser todo ele voltado para essa relação abrangente, que envolve a teoria e prática numa relação intrinsecamente mútua, pois “não é só a filosofia que forma, são todas as disciplinas assim como todas as demais práticas curriculares, tanto quanto o próprio contexto da convivência escolar” (SEVERINO, 2003, p. 4).

O papel da filosofia, enfim, na proposta do professor Severino, é o de trabalharem conjunto com as demais disciplinas, “articulando suas linguagens e explicitando aquelas dimensões abordadas de modo especializado pelas ciências. A interdisciplinaridade, para ser fecunda, pressupõe que também a filosofia tenha, no currículo, o status de disciplina autônoma”. Por isso defende a proposta de um “trabalho didático articulado entre a filosofia e as demais disciplinas”, sem desconsiderar as dimensões específicas de cada uma. Consideramos a exposição ACIMA fundamental, uma vez que elas não fazem uma defesa incondicional da disciplina (“vender o peixe”, no vulgo popular), mas propõem uma perspectiva ampla e integrada da sociedade na qual filosofia, ciências e artes são indissociáveis.

Ora, é interessante observar que há no processo pedagógico brasileiro uma certa unilateralidade; explicando, do lado da visão científica pragmática a reflexão filosófica é considerada sem importância, mas do lado dos representantes das ciências das humanidades, a ciência não é desprezível mas sim conhecimento necessário e complementar à formação do homem inteligente e integrado com o seu mundo. Importante ainda observar que a carência oriunda do desenvolvimento puramente técnico tem gerado o surgimento de movimentos que retomam a integração entre homem e natureza, tais como os movimentos ambientalistas e a educação ambiental, esta igualmente muito encampada pelo Ministério da Educação e pelas Universidades públicas. Estes movimentos exigem uma profunda reflexão do homem acerca do seu mundo.

Fontes Consultadas:
ARANHA, Maria Lúcia A. e MARTINS, Maria Helena P. Filosofando: Introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993.

LAO-TSÉ. Tao Te ching. Tradutor: Mário Bruno Sproviero. disponível para leitura online leitura e impressão PDF : ( http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&ct=res&cd=1&ved=0CAYQFjAA&url=http%3A%2F%2Fgropius.awardspace.com%2Febooks%2Ftaoteking.pdf&rct=j&q=Tao+te+king++traduzida+por+M%C3%A1rio+Bruno+Sproviero&ei=lXmOS-rBDMy5uAfDxpmxAw&usg=AFQjCNFgCUYDg8A9d2tvppj-RM2OordeYw ) Último Acesso: 05.01.10.

LOPES, Jobim. Édipo e seus mitos: mais de um século. Disponível em arquivo PDF: (
http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&ct=res&cd=7&ved=0CCEQFjAG&url=http%3A%2F%2Fwww.cbp-rj.org.br%2Fartcongress02doc.doc&rct=j&q=mito+Jocasta+e+Edipo&ei=FHyOS-rzBY-QuAeW0PSwAw&usg=AFQjCNEoTAb6uPRVS1UBeyi8paDlZxY5Tg acessado dia 03032010 ). Último Acesso: 05.02.10.

GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere. Edição crítica do Instituto Gramsci, org. Valentino Gerratana. Tradução de Eva Volpini. Turim: Einaudi, 1977

GRIMAL, Pierre. A mitologia grega. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
PECHULA, M. A. A Filosofia no Ensino Médio: da importância anunciada à descaracterização praticada. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação, Campinas, UNICAMP, 2001.

PECHULA. M. AP. A Retirada da Disciplina de Filosofia dos Currículos do Ensino Médio: uma mera questão de legislação ou de conjuntura? In: Seminário A Filosofia no Ensino Médio: legislação e conteúdo programático – parte II. Depto de Educação. UNESP/Rio Claro.15/05/2003. Texto digitado.

REZENDE, Antonio e outros. Curso de Filosofia. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
SEVERINO. A. J. Educação, Ideologia e Contra-ideologia. São Paulo, E.P.U., 1986.
SEVERINO, A. J. Filosofia e ciências humanas no ensino de 2o grau: uma abordagem antropológica da formação dos adolescentes. In: QUEIRÓZ, José J. (Org.). Educação hoje: tensões e polaridades. São Paulo: FECS/USF, 1997.
SEVERINO, A. J. Do Ensino da Filosofia: estratégias interdisciplinares, texto apresentado no Seminário: A Filosofia no Ensino Médio: legislação e conteúdo programático – parte I. Depto de Educação. UNESP/ Rio Claro. 15/04/2003. Texto digitado.


FILOPARANAVAI © ²º11

Preparando o terreno para a compreensão de como surgiu a Filosofia...

MITO e Filosofia





Filosofia

Grega???


Antes do surgimento da filosofia, tudo era explicado através de mitos, assim, a natureza era simplesmente considerada como algo divino. Partindo sempre do pressuposto de que “sempre existiu uma coisa”, os primeiros filósofos, insatisfeitos com as explicações mitológicas, começaram a questionar os valores comumente aceitos pela sociedade da época.

As primeiras ideias filosóficas nasceram nas colônias gregas da Ásia Menor (particularmente as que formavam uma região denominada Jônia), no final do século VII e início do século VI a.C. Entre os primeiros filósofos, podemos citar: Tales de Mileto (624 - 546 a.C.), Anaximandro (610 - 546 a.C.), Anaxímenes (585 - 528 a.C.) e Pitágoras (571 - 496 a.C.).

Os primeiros questionamentos feitos pelos filósofos se concentraram na real constituição do universo que os cercava. Essa busca pelo conhecimento racional da ordem do mundo e da natureza ficou conhecida como cosmologia, sendo, portanto, a primeira face da filosofia.

Existem duas teorias que explicam o porquê da filosofia ter nascido na Grécia. A primeira delas afirma que o aparecimento da filosofia se deu através de influências da sabedoria oriental, com a qual os gregos tiveram contato em suas viagens. A outra teoria diz que o povo grego foi tão excepcional, que foram capazes de criar a filosofia de forma espontânea e única. Na verdade, a filosofia possui grande influência da sabedoria oriental (egípcios, assírios, persas, etc.), no entanto, os gregos imprimiram mudanças de qualidade tão profundas nessas culturas, que foram apontados para alguns, como os criadores únicos da filosofia.

Filosofia

Noções gerais


A palavra filosofia é de origem grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem à palavra sophos, sábio.

Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber. Assim a filosofia indica um estado de espírito da pessoa que ama, isto é, daquela que deseja o conhecimento, o estima, o procura e o respeita.

Pitágoras de Samos teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos. “Quem quiser ser filósofo necessitara infantilizar-se, transformar-se em menino”. (M. Garcia Morente).

Filosofia é a arte que busca conhecer racionalmente a natureza, o ser humano, o universo e as transformações que neles ocorrem. Entende-se por filosofia grega os períodos que existiram antes e depois de Sócrates, sendo eles: Período pré-socrático, Período socrático, Período sistemático e Período helenístico.

O período pré-socrático ou cosmológico foi caracterizado pela physis (natureza) que buscava entender racionalmente a origem e as transformações ocorridas na natureza ao longo do tempo para também dessa forma entender o que de fato ocorreu com o ser humano. Nesse período se destacou Tales de Mileto.

O período socrático ou antropológico foi marcado pela democracia que dava igualdade a todos nas polis (cidades) dando direito à participação no governo e ainda pela mudança na educação grega já que as pessoas precisavam saber falar e induzir as demais.

O período sistemático marcado pela atuação de Aristóteles que introduziu todo o saber inespecífico para que se conhecesse todas as coisas que abrangesse vários princípios e várias formas do pensamento, o que recebeu o nome de lógica.

O período helenístico foi marcado por seu aparecimento após a decadência política das polis e pelo aparecimento de doutrinas que além de trabalhar com a natureza e a lógica, buscavam enfatizar a felicidade e a ensinar formas de dirigir a vida.

Em tais períodos houve filósofos de atos destacados como: Sócrates que fundou a filosofia humanista, Platão como seguidor de Sócrates fundou a Academia de Atenas e Aristóteles que considerado o maior filósofo sistematizou a lógica e vários outros conhecimentos como metafísica, moral e política.

Mito e Filosofia

A filosofia nasceu realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou nasceu por uma ruptura radical com os mitos?

O que é um mito?


Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.).

A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar, contar, anunciar, nomear, designar). Para os gregos, mito é um discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira a narrativa, por que confiam naquele que narra: é uma narrativa feita em publico, na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador.

Quem narra o Mito


O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra – o mito – é sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável.

Diferenças

Mito e Filosofia


1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para que era antes que tudo existisse tal como existe no presente. A filosofia, ao contrario, se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidade do tempo), as coisas são como são.

2. O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas, enquanto a filosofia, ao contrario, explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais e impessoais. O mito fala em Urano, Ponto e Gaia; a filosofia fala em céu, mar e terra. O mito narra à origem dos seres celestes (os astros), terrestres (plantas, animais, homens) e marinhos pelos casamentos de Gaia com Urano e Ponto.A filosofia explica o surgimento desses seres por composição, combinação e separação dos quatro elementos – úmido, seco, quente e frio, ou água, terra, fogo e ar.

3. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridade religiosa do narrador. A filosofia, ao contrario, não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional; alem disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filosofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos.

Que perguntavam

os primeiros filósofos

Por que os seres nascem e morrem? Por que semelhantes dão origem a outros semelhantes, de uma árvore nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, de uma mulher nasce uma criança? Por que os diferentes também parecem fazer surgir os diferentes: o dia parece fazer nascer à noite, o inverno parece fazer surgir à primavera, um objeto escuro clareia com o passar do tempo, um objeto claro escurece com o passar do tempo?

Por que tudo muda? A criança se torna adulta, amadurece, envelhece e desaparece. A paisagem, cheia de flores na primavera, vai perdendo o verde e as cores no outono, até ressecar-se e retorcer-se no inverno.

Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimento que antes me agradava, agora, que estou doente, me causa repugnância? Por que o som da música que antes me embalava, agora que estou doente, parece um ruído insuportável?

Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A água do copo, tão transparente e de boa temperatura, torna-se uma barra dura e gelada, deixa de ser líquida e transparente para tornar-se sólida e acinzentada.

Mas, também, por que tudo parece repetir-se? Depois do dia, à noite; depois da noite, o dia. Depois do inverno, a primavera, depois da primavera, o verão, depois deste, o outono e depois, novamente o inverno. De dia, o sol; à noite, a lua e as estrelas. Na primavera, o mar é tranqüilo e propício à navegação; no inverno, tempestuoso e inimigo dos homens. O calor leva as águas para o céu e as traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou velho, mas sempre criança, que se torna adulto e velho.

Sem dúvida, a religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas coisas, mas suas explicações já não satisfaziam aos que interrogavam sobre as causas da mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento de todos os seres. Haviam perdido força explicativa, não convenciam nem satisfaziam a quem desejava conhecer a verdade sobre o mundo.

filoparanavai 2011

2 comentários:

Anônimo disse...

Professor, eu gostaria que o senhor me explicasse como conviver com a ideia de que, no fim, não sabemos na nada. Sou uma aluna sua, com a mente mais nublada que nunca, e fico pensando no mundo: Como ele surgiu? Do nada? O que é o nada? Eu acho muito dificil acreditar que um deus o criou. Simplesmente não me desce.
E se nossa humanidade se acabar? Nosso mundo irá apenas existir? Existir, por um tempo enorme, sem nada acontecer?

Lucio disse...

O Homem é um mistério. Deus é uma certeza. Deus não pode ser uma ideia apenas, tem que ser relação EU-TU. Não confunda Deus com Religião. Não confunda Deus com doutrinas, com normas morais. Deus está acima de tudo isso. É uma experiência "tête-à-tête" que só você pode fazer por você mesmo.

Quanto ao fato que "nada" sabemos é um pouco exagero de sua parte.Sabemos um pouquinho sim. Ninguém tem a verdade absoluta e muito menos todo o conhecimento disponível. Podemos, se quisermos é claro, obter um pouco de conhecimento; porém, mais que isso devemos saber aplicar este conhecimento em nossas vidas.Em relação a origem de tudo deixa isso pra perguntar ao próprio Criador um dia se você tiver a graça de trombar com Ele. Na vida há coisas mais urgente com as quais se ocupar. Que tal ocupar-se da leitura de filósofos clássicos e/ou de bons romances brasileiros. Um abraço

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