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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Demarcando as diferenças entre Mito e Filosofia

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Vamos falar de FILOSOFIA


ensaio / resenha de Filosofia_ Prof. Lucio 2010


Demarcando as diferenças entre Mito e Filosofia


Introdução


O conhecimento nasce das experiências que acumulamos em nossa vida cotidiana. Conhecer é incorporar um novo conceito, ou original, sobre um fato ou fenômeno qualquer. Os seres humanos são capazes de criar e transformar o conhecimento, de fazer aplicação do que é aprendido.

Existem diferentes tipos de conhecimentos: o conhecimento empírico, o filosófico, o teológico e o científico.


Senso Comum

É o conhecimento obtido ao acaso em nosso cotidiano, após inúmeras tentativas, ou seja, o conhecimento adquirido através de ações não planejadas, através de experiências cotidianas.

Exemplo: A chave está emperrando na fechadura e, de tanto experimentarmos abrir a porta, acabamos por descobrir (conhecer) um jeitinho de girar a chave sem emperrar.


Filosófico

É fruto do raciocínio e da reflexão humana. É o conhecimento especulativo sobre fenômenos, gerando conceitos subjetivos. Busca dar sentido aos fenômenos gerais do universo, ultrapassando os limites formais da ciência. Segundo Lakatos e Marconi (1992: p. 16) “o conhecimento filosófico é caracterizado pelo esforço racional de questionar os problemas dos homens e assim discernir entre o certo e o errado, recorrendo apenas à lógica da razão humana”.

Exemplo: "O homem é a ponte entre o animal e o além-homem" (Friedrich Nietzsche)


Religioso

Conhecimento revelado pela fé divina ou crença religiosa. Não pode, por sua origem, ser confirmado ou negado. Depende da formação moral e das crenças de cada indivíduo.

Exemplo: Acreditar que alguém foi curado por um milagre; ou acreditar em duende; acreditar em reencarnação; acreditar em espírito etc.


Científico

É o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável da realidade. Sua origem está nos procedimentos de verificação baseados na metodologia científica. Portanto, o conhecimento científico: é racional e objetivo; atém-se aos fatos; transcende aos fatos; é analítico; requer exatidão e clareza, é comunicável; é verificável; depende de investigação metódica; busca e aplica leis; é explicativo; pode fazer predições; é aberto e é útil (GALLIANO, 1986).

Exemplo: Descobrir uma vacina que evite uma doença.

Textos introdutórios da professora
Dayse Grassi

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Vamos entender o Mito: Quando falo de Mito preciso me reportar a uma questão que não pode deixar de ser feita: de que mito queremos falar? No nosso caso, é do Mito Grego que tratamos. Existem no Planeta dois grandes sistemas de conhecimentos: o Ocidental e o Oriental. Nosso sistema de conhecimentos Ocidental é formado a partir de alguns conjuntos ou modalidades de conhecimentos e de alguns outros conhecimentos existentes em formas fragmentadas. O conjunto de conhecimentos mais primitivo que existe, podemos dizer, é o artistico. Desde que o homem começou a evoluir e ter a necessidade de se comunicar com seus semelhantes, utilizou-se de figuras, desenhos... como primeira forma de exprerssar suas idéias, desejos, sentimentos. Mas, em parte, este conhecimento, como os conhecimentos religiosos, de algumas ciências, etc... na antiguidade,, estavam todos reunidos ou podiam encontrar-se de alguma forma nos conhecimentos mitológicos. O mito Grego, em seu conteúdo é ilógico, fantasioso, poético... não necessita de lógica, nem prova, nem mesmo coerência, aliás as narrativas possuem às vezes várias versões... Vou dar um exemplo pra ilustrar um pouco como funcionava o mito grego: diante de qualquer questão existencial o grego antigo recorria a uma narrativa envolvendo os seres do Cosmo - podia ser entre deuses-deuses ou um deus-um mortal. Vamos ver o caso do INCESTO: a proibição do incesto é consequência da passagem do registro puramente biológico e instintivista do ser humano ao registro da cultura, estando na base da organização social humana. Em função dela se desenvolveu toda uma legislação que regia os casamentos o que determinação uma forma de ineteração entre os diferentes grupos familiares. É portanto a partir da proibição do Incesto que se inicia uma nova organização social, que marca o homem como ser da cultura, da civilização. A interdição do incesto tem por objetivo anular o caos e estabelecer a ordem, a possibilidade intermediária entre o impulso e a satisfação - se interponha o pensamento. Ora, o paralelo que quero fazer é o de que o Incesto hoje tem uma sistema de Leis para enquadrá-lo juridicamente e que estas Leis foram feitas por nossos Legisladores-homens como qualquer outro. No caso do Grego antigo como através do mito o Incesto recebia interdição? A narrativa é conhecida: Édipo casa-se com a mãe e mata o pai. Como punição final Édipo arranca seus próprios olhos e errante se perde mundo afora, Jocasta sua mãe suicida-se. O grego vendo o final destas personagens e não querendo o mesmo fim, evita o Incesto. Entenda que um conjunto de conhecimentos tem em comum aos demais o seguinte: todos eles buscam responder a questões existenciais e por isso mesmo, buscam dar conta do TODO da realidade. O Mito orientava o povo grego em todos os campos da prática humana: moral, religiosa, condutas sociais, etc... Outro paralelo comum é que todos os povos antigos possuíam seus mitos - então não existe mito e sim mitos, conjuntos mitológicos. O que difere eles em essência é o conteúdo sempre orientado pelas peculiaridades da cultura respectiva. No Mito Grego é importante ressaltar que seus conteúdos encontram sua autoridade no mundo sobrenatural-deuses e que característicamente o Mito Grego é Politeísta-Panteísta, vários deuses identificados, representados nos elementos físicos da natureza. Este aspecto é importante porque será a partir dos elementos físicos do Cosmo (conceito de COSMO = Universo enquanto ORDEM) que os primeiros filósofos cosmologistas-físicos irão desenvolver a primeira abordagem filosófica, que irá praticamente até os sofistas e Sócrates. O mito hoje está longe de ser identificado com o Mito Grego, por exemplo, o Mito hoje é uma mentira que de tanto repetida se torna aparentemente uma verdade: poderíamos aqui teclar sobre o Mito Norte-Americano divulgado através de seus filmes enlatados e reproduzidos no Brasil; Mito do Milagre que faz com que lideranças religiosas abusem da boa fé do povo, ganhem muito dinheiro, aproveitando de uma situação caótica na saúde: prefeitos inescrupulosos que desviam verbas da saúde e médicos cada vez mais incopetentes no mercado de trabalho; podemos eleger mitos para o esporte, para a beleza, para a música, etc... O mito hoje é urbano e seus maior divulgador é a mídia. A diferença é a seguinte: se eu negar e não vivenciar o Mito Hoje isso no máximo me tornará mais aberto a um acesso mais amplo a todas as modalidades de conhecimentos Ocidentais. No caso do Mito Grego, se negado por um grego antigo era o mesmo que negar a si mesmo. Porém, veja bem, o mito enquanto conjunto de conhecimentos ainda hoje convive lado a lado com o sistema de conhecimentos Ocidental. Tribos ameríndias nas américas, tribos africanas, asiáticas, ainda basicamente vivem e têm seu cotidiano orientado por seus conjuntos de conhecimentos mitológicos - não se esqueça os conteúdos de cada conjunto mitológico se identifica com a cultura que o produziu. Para concluir esta introdução a este ensaio, ressalto então que o sistema de conhecimentos Ocidental é formado por conjuntos específicos de conhecimentos: destaco o Mito, o Religioso, o Filosófico, o Científico, o Artístico e por fim não podemos esquecer a forte presença do senso comum e do mito hoje/urbano. São as modalidades mais importantes.

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φιλοσοφία

O conhecimento Ocidental foi gestado a partir do Mito Grego. Enquanto conjunto homogêneo de conhecimentos, o Mito Grego tinha em potencial os elementos necessários para o surgimento de um outro conjunto de conhecimentos, que marcaria em definitivo as características peculiares ao nosso conhecimento Ocidental até os dias de hoje. Hoje, o Mito não tem a força que o Mito Grego possuia para os gregos antigos; o Mito hoje é fragmentado, basicamente veiculado pela mídia, sendo que outros já estão profundamente enraizados na cultura Ocidental. Por exemplo, "homem não chora": o Mito hoje é uma mentira que de tanto repetida recebe roupagem de verdade. O Mito, como já me referi em outros ensaios não é próprio dos Gregos, todos os povos antigos possuem os seus - o Mito de cada povo é estabelecido conforme a cultura de cada um. Repito um paralelo para exemplificar - Os judeus ( antigos ) assim como os gregos vivem do Mito; a diferença está nas características culturais imprimidas nos conteúdos mitológicos: enquanto os gregos possuem uma cultura fortemente marcada, no aspecto religioso, pelo politeísmo; os Judeus são monoteístas. Porém, resguardada esta diferença - poderemos fazer uma listagem paralela entre os dois conjuntos de Mitos com inúmeras características semelhantes. Ora, esta tarefa pode ser ampliada se fizermos as mesmas considerações relacionando o Mito Grego a outros Mitos de povos antigos. Hoje ainda, conforme já afirmei em outro ensaio - muitos povos ainda vivem de conhecimentos mitológicos para darem explicações a questões existênciais e orientarem a vida cotidiana em suas comunidades: indigênas, tribais africanas, asiáticas...
A estrutura do Conhecimento Ocidental
A importância do Mito Grego reside no fato de que foi em uma lenta e progressiva substituição da autoridade dos deuses para a autoridade da razão ( que é comum em a todos os homens ) que filósofos desde Tales - construiram sistemas filosóficos que imprimiriam características universais ao conhecimento Ocidental. Ora, o conhecimento humano se constrói com a tomada de consciência, pelo homem das primeiras idades históricas ( como no Paleolítico ) - de sua capacidade de perguntar a si mesmo e ao mesmo tempo poder responder: parece razoável dizermos que uma primeira pergunta que o homem faz a si mesmo é aquela: Que eu sou??? e desta também parece ser razoável dizer que ele consequentemente fará inúmeras outras questões existênciais até chegar àquela que se tornará primordial entre todas: Quem gerou o Cosmo? ou como o Cosmo foi gerado??? Interessante perceber que desta questão existêncial todos os conjuntos de conhecimentos partem em sua elaboração estrutural: foi dela que partiram Tales e os Filósofos da Cosmologia ou física. Nas ciências o Big Bang; no conhecimento biblico-teológico da religião com maior número de adeptos no Brasil - foi Deus mesmo. No mito Grego teria sido a divindade mais antiga - o CAOS - o princípio gerador do Cosmo e dos deuses primordiais: donde surgiriam outros deuses e demais seres... As perguntas ( questões existênciais ) praticamente são as mesmas, o que muda é a forma de respondê-las e onde se fundamenta a autoridade de tais respostas. Enquanto no Mito a autoridade está nos deuses; nas ciências é na razão e empirismo, na Filosofia é na Razão, na Religião é na fé...
Philo = Amizade; Sophia= Sabedoria
Pitágoras de Samos se referindo à Filosofia disse: " (...) a sabedoria pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la, tornando-se filósofos".
O Mito é um conjunto de conhecimentos homogênos com características marcadamente políteísta; é fantasioso, irreal, poético, assistemático, difundido basicamente na forma oral, sempre VERDADEIRO sob a autoridade das forças divinas e por isso mesmo Incontestável, irrefutável. O Mito Grego não apenas narra as origens do Cosmo e sua organização, mas orienta o cotidiano da vida grega principalmente nas questões ligadas à moralidade. As relações sexuais entre os deuses ( que assumem formas humanas ) e dos deuses com os demais seres - inclusive os mortais, como no caso dos homens - é que constroem as narrativas miticas com objetivos pedagógicos ou seja, de solucionar alguma questão existencial. Mas também podem decorrer de rivalidades ou ainda, alianças; também pode ser por recompensa ou castigo a quem obedece ou desobedece. A narrativa mitológica fica aprisionada sempre no passado sendo apenas reproduzida no presente pela oralidade. O mito não se preocupa com a coerência, pois é sempre verdadeiro.
A Filosofia por sua vez, conforme Marilena Chauí em seu livro " Convite à Filosofia": "(...) percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi reformulando e racionalizando as narrativas míticas, transformando-as numa outra coisa, numa explicação nova e diferente". A Filosofia para existir precisa além de explicitar sua diferença existêncial em relação ao Mito; manter essa diferença para seguir adiante na aventura de fazer com que o conhecimento Ocidental avance rumo ao infinito em busca da verdade... Um abraço e até o próximo ensaio.








Sugestões

Referências Bibliográficas:

ARANHA Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. 2.ed. São Paulo: Moderna, s.d.


CARDOSO, Osvaldo e outros. Filosofia: Ensino Médio (Livro Didático da S.E.ED./PR). Curitiba: 2006.


CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 6.ed. São Paulo, Ática,1997.


CHAUI, Marilena e OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Filosofia e Sociologia. Volume Único. NOVO ENSINO MÉDIO. São Paulo: Editora Ática, 2007.


COSTA, José Silveira da. Averróis: O aristotelismo radical. São Paulo, Moderna, 1997.


DELEUZE, Gille e GUATARI, Felix. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.


DURANT, Will. A história da Filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.


FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com arte. São Paulo: Ediouro, 2007.


Filosofia: caminhos do pensamento. Apostilas I, II, III e IV. Ensino Médio. Curitiba, Editora Dom Bosco, 2000.


FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: Leitura e Redação. São Paulo: Ática, 2001


GALLO, Sílvio e KOHAN, Walter. Filosofia no Ensino Médio. Petrópolis: Vozes, 2005.


GROOME, Thomas H. Educação Religiosa Cristã: compartilhando nosso caso e visão. (parte referente a histórico da epistemologia). São Paulo: Paulinas, 1995.


MATOS, Olgária C. J. A escola de Frankfurt: Luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Moderna, 1995


MELO, Luiz Roberto Dias de, e PAGNAN, Celso Leopoldo. Prática de texto: leitura e redação. São Paulo: W3, 2000.


SOUZA, Luiz Marques de; CARVALHO, Sérgio Waldeck de. Compreensão e Produção de Texto. Petrópolis: Vozes, 1999


VIANA, Antonio Carlos (coord). Roteiro de Redação. Lendo e argumentando. Scipione, 2000.



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