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domingo, 2 de maio de 2010

TEETETO DE PLATÃO: Partes de XI a XX


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TEETETO





Parte XI

Sócrates — Eu também. Mas, nesse caso, já que temos tempo de sobra, por que não recomeçarmos nossa análise com toda a calma, sem nenhuma irritação, examinando-nos de verdade, para vermos o que, de fato, sejam essas visões que se formam dentro de nós?Passando a considerá-las, diremos, logo de início, segundo penso, que jamais alguma coisa ficou maior, seja em volume seja em quantidade, enquanto se manteve igual a Si mesma.Não é verdade?

Teeteto — Exato.

Sócrates — Em segundo lugar, uma coisa a que nada se acrescente e de que nada se tire, não aumentará nem desaparecerá, porém continuará sempre igual.

Teeteto — Incontestavelmente.

Sócrates — E não poderemos apresentar mais um postulado, seria o terceiro, nos seguintes termos: que não existia antes, não poderia ter existido sem formar-se ou ter sido formado?

Teeteto — É também o que eu penso.

Sócrates — Eis-aí, por conseguinte, três proposições aceitas por nós, que contendem em nossa alma, seja quando falamos de ossinhos de jogar seja quando imaginamos um caso como o seguinte: com a idade que tenho, sem crescer coisa alguma nem sofrer modificação contrária, no decurso de um ano, em relação a ti que és mais moço, presentemente sou maior, porém depois virei a ficar menor, e isso sem que minha altura diminua, mas pelo fato de aumentar a tua. Sou, portanto, posteriormente, sem me ter modificado, o que antes não era. Sem o devir, nada vem a ser, e nada havendo eu perdido do meu volume, não poderia ter ficado menor, O mesmo se passa em milhares de casos como esse, se aceitarmos os presentes argumentos. Sei que me acompanhas, Teeteto. Pelo menos tenho a impressão de que não és neófito nessas questões.

Teeteto — Pelos deuses, Sócrates, causa-me grande admiração o que tudo isso possa ser, e só de considerá-lo, chego a ter vertigens.

Sócrates — Estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia. Ao que parece, não foi mau genealogista quem disse que Íris era filha de Taumante. Porém já começaste a perceber a relação entre tudo isso e a proposição que atribuímos a Protágoras?Ou não?

Teeteto — Acho que não.

Sócrates — E não me ficarás agradecido, se te ajudar a patentear o sentido oculto do pensamento e de um homem famoso, ou melhor, de vários homens famosos?

Teeteto — Como não ficar? Muitíssimo, até.

Parte XII

Sócrates — Então, revista os arredores; não seja o caso de escutar-nos alguém não iniciado. Refiro-me aos que só acreditam na existência daquilo que eles são capazes de segurar com as duas mãos, porém não admitem que participem da realidade nem as ações nem as gerações e tudo o mais que não se vê.

Teeteto — São gente de cabeça dura, Sócrates, esses de que falas, e por demais teimosos.

Sócrates — É muito certo, menino; e também estranhos às Musas. Outros há engenhosíssimos, cujos segredos pretendo revelar-te. Para esses, o principio de que pende tudo o que acabamos de expor é que só há movimento e que, fora disso, nada existe, havendo duas espécies de movimento, ambas de número infinito: uma de força ativa e outra de força passiva. Da união de ambas e da fricção recíproca nasce prole de número infinito porém sempre aos pares: um dos termos é objeto da sensação; o outro, a própria sensação.Damos as sensações vários nomes, tais como: visões, audições, olfações, frio e quente, e também prazeres, dores, desejos, temor e muitos outros. Infinitas são as anônimas; numerosíssimas as que têm nome. Por sua vez, o gênero dos sensíveis tem cognatos correspondentes a cada uma dessas sensações: para as inúmeras visões, cores de perder a conta; para as audições, os sons em igual variedade, e para as outras sensações, outros tantos objetos sensíveis, que lhes são aparentados. E agora, Teeteto, que sentido terá para nós semelhante mito, com relação ao que dissemos há pouco?

Teeteto — Nenhum, Sócrates.

Sócrates — Então, vê se o acompanhamos até o fim. O que ele pretende explicar é que tudo isso, conforme dissemos, se movimenta, havendo lentidão ou rapidez nessa movimentação. Quando o movimento é lento, faz-se sentir no mesmo lugar e nos objetos próximos, sendo essa a sua maneira de gerar. Os produtos assim gerados são mais rápidos, por se deslocarem, vindo a ser seu movimento natural essa mudança de posição. Depois que o olho e qualquer objeto que lhe seja apropriado geram pela aproximação recíproca a brancura e a sensação correspondente, que jamais teriam sido produzidas se um ou outro daqueles elementos tivesse tomado direção diferente, então, enquanto se movem no espaço intermediário a visão proveniente do olho e a brancura do objeto que, de combinação com aqueles, deu nascimento à cor, o olho se enche de visão e passa a ver, sem, com isso,tornar-se visão, porém olho que vê. Por outro lado, seu associado na produção da cor enche-se de brancura, sem, com isso, ficar brancura, porém branco, ou se trate de madeira branca, ou de pedra ou do que for, cuja superfície venha a adquirir essa coloração. E assim com tudo o mais. O duro e o quente e as demais qualidades devem ser concebidas de igual maneira; em si e por si mesmas, conforme dissemos há pouco, nada são; de sua aproximação recíproca é que as coisas nascem de toda espécie de movimento, pois nem o elemento ativo nem o passivo, como dissemos, podem ser concebidos como unidades fixa se independentes; porque não pode existir algo ativo sem a prévia união com o elemento passivo, e o inverso: nada passivo sem o encontro com o elemento ativo. E mais: o que e determinado caso se revelou ativo, mais adiante, noutras conexões, se tornará paciente. De tudo isso, como dissemos no começo, se conclui que nada existe em si e por si mesmo, e que cada coisa só devém por causa de outra, sendo preciso, pois, eliminar de toda a parte a expressão Ser, conquanto agora, como sempre, tenhamos sido forçados, por hábito e ignorância, a nos valermos dela. A ouvirmos os sábios, a rigor nunca deveríamos empregar expressões como: Alguma coisa, ou Pertence a alguém ou a mim, nem Isto, nem Aquilo,nem qualquer outra designação que fixe determinada coisa. Segundo a natureza, teremos de dizer que as coisas devêm, formam-se, destroem-se ou se alteram. Expõe-se a ser facilmente refutado quem quer que, no seu modo de expressar-se, assevere a estabilidade seja do que for. É assim que será preciso falar, tanto com relação aos objetos particulares como com os agregados de muitas unidades, conjuntos esses que designamos pelos nomes:Homem, Pedra, Animal, ou Espécie. Agrada-te semelhante doutrina, Teeteto, e achas prazer em degustá-la?

Teeteto — Não sei ao certo, Sócrates, pois tenho dúvidas se expões, de fato, tua maneira de pensar ou se pretendes apenas experimentar-me.

Sócrates — Já te esqueceste, amigo, que eu não só não conheço nada disso como não presumo conhecer? Nesses assuntos sou estéril a conta inteira. O que faço é ajudar-te no trabalho do parto; daí, recorrer a encantamentos e oferecer ao teu paladar as opiniões dos sábios, até que, com o meu auxílio, venha à luz tua própria opinião. Uma vez isso conseguido, decidirei se se trata de um ovo sem gema ou de algum produto legítimo.Anima-te, pois; não desistas e declara com independência e decisão o que pensas a respeito do que te perguntei.

Teeteto — Podes falar.

Parte XIII

Sócrates — Então, dize-me, uma vez mais, se aceitas que nada existe e que tudo se acha num perpétuo devir: o bem, o belo e tudo o mais que enumeramos há pouco.

Teeteto — Depois de atentar em tua exposição, digo que esta se me afigura muito bem fundamentada e que deve ser aceita nos termos em que a apresentaste.

Sócrates — Nesse caso, será preciso completar o estudo do que ficou por explicar. Ainda não falamos dos sonhos, das doenças em geral e, particularmente, da loucura nem das alterações da vista, as do ouvido e das demais sensações. Como bem sabes, a opinião unânime é que todos esses casos concorrem para refutar a doutrina exposta agora mesmo.visto se revelarem de todo o ponto falsas em tais casos nossas sensações, e muito longe de serem as coisas como se nos afiguram, nada, pelo contrário, existe tal como nos aparece.

Teeteto — Só dizes a verdade, Sócrates.

Sócrates — Se é assim, meu filho, que novo argumento poderá aduzir quem diz que a sensação é conhecimento e que o que parece a cada um de nós é para todos precisamente como parece ser?

Teeteto — Sinto-me acanhado, Sócrates, de declarar que não sei como responder, pois há pouco me repreendeste por eu ter dito isso mesmo. Mas, para dizer a verdade, não poderei contestar que os loucos e os sonhadores não formam, de fato, opiniões falsas, como no caso de se imaginarem deuses os primeiros, ou de pensarem os outros, durante o sonho, que têm asas e que podem voar .

Sócrates — E não te ocorre, também, outra objeção no que respeita ao sono e à vigília?

Teeteto — Qual?

Sócrates — A que, a meu ver, já deves ter ouvido com freqüência, sobre o argumento decisivo que poderias apresentar a quem perguntasse de improviso se neste momento não estamos dormindo e se não é sonho tudo o que pensamos, ou se estamos realmente acordados e entretidos a conversar?

Teeteto — Em verdade, Sócrates, sinto-me indeciso na escolha do argumento, pois em ambos os estados tudo se passa exatamente do mesmo modo. Nada impede de admitir que o que acabamos de conversar tivesse sido dito em sonhos; e quando imaginamos em sonhos contar que sonhamos, é admirável a semelhança com o que se passa no estado de vigília.

Sócrates — Como vês, não é difícil suscitar controvérsia nesse terreno, pois é possível duvidar até mesmo se estamos acordados ou dormindo. Além do mais, como é igual o tempo que dedicamos ao sono e o que passamos acordados, em ambos os estados sustenta nossa alma que são absolutamente verdadeiras as noções do momento presente, de sorte que numa metade do tempo batemo-nos pela veracidade de determinadas noções, e na outra metade pela de noções em todo o ponto diferentes, mas em ambos os casos com igual convicção.

Teeteto — Perfeitamente.

Sócrates — E outro tanto não se dá com as doenças e a loucura, se excluirmos a duração, que não é a mesma?

Teeteto — Certo.

Sócrates — E então? A verdade será definida pela maior ou menor duração do tempo?

Teeteto — Em todos os sentidos fora ridículo.

Sócrates — E porventura dispões de algum argumento sólido para provar qual dessas duas crenças é verdadeira?

Teeteto — Não creio.

Parte XIV

Sócrates — Então vou contar-te o que a esse respeito poderiam dizer os que defendem o princípio de que todas as coisas são verdadeiras para quem as representa como tal. Recorrem, segundo penso, a uma pergunta mais ou menos nos seguintes termos: Teeteto, o que é de todo diferente de outra coisa pode apresentar virtude igual à dessa coisa? Porém não se trata de diferença parcial, com alguma semelhança sob determinados aspectos, mas diferença em toda a linha.

Teeteto — Sendo assim, não é possível haver a identidade nem de virtude nem do que quer que seja, porque diferem totalmente.

Sócrates — E não será preciso, também, admitir que essa coisa é dissemelhante?

Teeteto — Acho que sim.

Sócrates — Ora, se acontece ficar alguma coisa semelhante ou dissemelhante, seja de si mesma seja de outra coisa, não diremos, no caso de semelhança, que ficou igual, e no de dissemelhança, diferente?

Teeteto — Sem a menor dúvida.

Sócrates — E antes, não afirmamos ser grande, e até mesmo infinito, tanto o número dos agentes como dos pacientes?

Teeteto — Afirmamos.

Sócrates — E que qualquer deles, unindo-se a este e depois àquele não dará nascimento ao
mesmo produto, mas a produto diferente?

Teeteto— Também.

Sócrates — Então, afirmemos isso mesmo de mim, de ti e de tudo, como, por exemplo, de Sócrates são e de Sócrates doente. Diremos que este é igual ao outro, ou dissemelhante?

Teeteto — Referes-te a Sócrates doente, como um todo, em oposição a outro todo: Sócrates com saúde?

Sócrates — Apanhaste muito bem a questão; isso mesmo é o que eu quis dizer.

Teeteto — Então, é dissemelhante.

Sócrates — Sendo assim, serão diferentes, pelo simples fato de serem dissemelhantes.

Teeteto — Forçosamente.

Sócrates — E dirás a mesma coisa com relação a Sócrates dormindo e em todos os estados que há pouco enumeramos?

Teeteto — Sem dúvida.

Sócrates — E quando, por sua própria natureza, algum agente entra em relação com Sócrates são, atuará sobre ele de maneira diferente por que o faria sobre Sócrates doente?

Teeteto — Como não?

Sócrates — E em ambos os casos, não serão diferentes os produtos gerados entre mim, como paciente, e o agente referido?

Teeteto — Sem dúvida.

Sócrates — Sendo assim, quando eu bebo vinho, estando com saúde, este me parece agradável e doce?

Teeteto — Exato.

Sócrates — É que, de acordo com o que admitimos, o agente e o paciente geraram a doçura e a sensação, ambas em estado de movimento; a sensação, que vem do paciente, deixa a língua percipiente, e a doçura, que vem do vinho e se movimenta em torno dele, faz que o vinho seja e pareça doce para a língua sã.

Teeteto — A respeito de tudo isso já nos declaramos inteiramente de acordo.

Sócrates — Porém quando esse mesmo agente me encontra doente, de início, para falarmos certo, o paciente não será o mesmo, pois aquele veio dar numa pessoa diferente.

Teeteto — Sem dúvida.

Sócrates — Logo, foram gerados outros produtos entre esse Sócrates e a absorção do vinho: ao redor da língua, sensação de amargo para o lado do vinho, amargor que se gera e movimenta, mas que não transforma o vinho em amargor, porém o deixa amargo, tal como se dá comigo, que não viro sensação, porém sentiente.

Teeteto — Isso mesmo.

Sócrates — Do meu lado, nunca poderei tornar-me diferente enquanto tiver a mesma sensação, porque a novo agente corresponde nova sensação, que modifica e deixa diferente o percipiente, como aquele agente, de igual modo, atuando sobre outro paciente, nunca dará nascimento ao mesmo produto nem continuará sendo o mesmo: se engendra novo produto, em conexões diferentes, torna-se também diferente.

Teeteto — Exato.

Sócrates — Nem eu me torno tal por mim mesmo, nem ele, tampouco, sozinho, ficará sendo o que é.
Teeteto — Não, evidentemente.

Sócrates — Porém é forçoso que eu tenha a sensação de alguma coisa, quando me torno percipiente; o que não é possível é ser percipiente de nada. O mesmo se passa com o agente, quando fica doce ou amargo ou coisa semelhante; ficar doce sem ser doce para ninguém é que não é possível.

Teeteto — Perfeitamente.

Sócrates — Ainda há a possibilidade, me parece, de sermos um para o outro alguma coisa, ele e eu, ou que venhamos a ser algo em virtude dessa correlação, ligados reciprocamente, não a qualquer outra existência nem mesmo a nós próprios. Só resta essa relação de reciprocidade. Por isso mesmo, se se disser que alguma coisa existe ou devém, será preciso acrescentar que existe ou se forma de alguém ou para alguém ou com relação a alguma coisa. Porém que alguma coisa seja ou se torne por si mesmo, é o que se não deve dizer nem permitir que outros afirmem, como o demonstrou a presente exposição.

Teeteto — É exatamente como dizes, Sócrates.

Sócrates — Donde se colhe, que o que atua sobre mim só se relaciona comigo; só eu o percebo, mais ninguém.

Teeteto — Como não?

Sócrates — Minha sensação, portanto, é verdadeira para mim, pois sempre faz parte do meu ser, sendo eu, por isso mesmo o único juiz, de acordo com o dito de Protágoras, em condições de dizer que as coisas que são para mim existem mesmo, e também que as que não são para mim não existem.

Teeteto — Parece.

Parte XV

Sócrates — Então, se eu nunca erro, e se meu pensamento não tropeça no ajuizar o que é ou devém, como se explica que eu não tenha o conhecimento daquilo de que tenho a sensação?

Teeteto — É o que não se pode admitir.

Sócrates — Por isso mesmo, tinhas carradas de razão, quando disseste que o conhecimento não passa de sensação, o que vem a dar, precisamente, nisto de Homero e de Heráclito e de toda a tribo de seus acompanhantes: Tudo se movimenta como um rio; ou, segundo a fórmula do sapientíssimo Protágoras: O homem é a medida de todas as coisas, que é também a de Teeteto, o qual concluiu disso que há perfeita identidade entre conhecimento e sensação. Não é assim mesmo, Teeteto? Não estamos autorizados a dizer que nisso tudo temos um feto dado por ti à luz agora mesmo, com a ajuda dos meus conhecimentos de parteiro? Ou como te parece?

Teeteto — Necessariamente, Sócrates, terá de ser como disseste.

Sócrates — Seja ele o que for, o fato é que nos deu trabalho para nascer. Mas, uma vez terminado o parto, precisamos celebrar a anfidromia, circulando com o recém-nascido à volta da lareira, o que faremos com envolvê-lo em nosso raciocínio, para ver se merece ser alimentado ou se é um ovo gorado e não passa de um grande embuste. Ou és de parecer que devemos criar teu filho, sem abandoná-lo em nenhuma hipótese? Suportarás vê-lo rejeitado pela critica e não ficarás aborrecido se te privarem de teu primogênito?

Teodoro — Evidentemente, Sócrates, Teeteto o suportará, por ser de muito boa índole. Mas, em nome dos deuses, dize logo se nisso tudo há algum erro.

Sócrates — Vê-se que aprecias essas questões, Teodoro; mas és muito bondoso, por meteres na conta de um saco de argumentos, de onde será fácil tirar uma resposta prontinha,para declarar: Está errado! Não compreendes o que realmente se passa; os argumentos não saem de mim, porém sempre da pessoa com que eu converso, e que eu nada sei, tirante este pouquinho, isto é, apanhar o argumento de algum sábio e tratá-lo como convém. Isso mesmo pretendo fazer com este moço, sem nada acrescentar de próprio.

Teodoro — É muito certo o que dizes, Sócrates; continua.

Parte XVI

Sócrates — Queres saber, Teodoro, o que me admira em teu amigo Protágoras?

Teodoro — Que será?

Sócrates — De modo geral, agrada-me sua doutrina, de que tudo o que aparece para alguém, existe para essa pessoa. Só o começo de sua proposição é que me surpreende, por ele não dizer logo no início de sua obra, A Verdade, que a medida de todas as coisas é o porco ou o cinocéfalo ou qualquer outro animal mais esquisito ainda, porém capaz de sensações. Seria o melhor exórdio para um discurso a um tempo brilhante e desdenhoso,com mostrar-nos que, se o admiramos como a uma divindade por causa de sua sabedoria,em matéria de discernimento ele não bate nem os girinos, quanto mais um ser humano.Como diremos, Teodoro? Se a verdade para cada indivíduo é o que ele alcança pela sensação; se as impressões de alguém não encontram melhor juiz senão ele mesmo, e se ninguém tem autoridade para dizer se as opiniões de outra pessoa são verdadeiras ou falsas,formando, ao revés disso, cada um de nós, sozinho, suas opiniões, que em todos os casos serão justas e verdadeiras: de que jeito, amigo, Protágoras terá sido sábio, a ponto de passar por digno de ensinar os outros e de receber salários astronômicos, e por que razão teremos nós de ser ignorantes e de freqüentar suas aulas, se cada um for a medida de sua própria sabedoria? Não nos assiste o direito de afirmar que tudo isso na boca de Protágoras não passava de frase para armar o efeito? No que me diz respeito e à minha arte de parteiro,nem me refiro ao ridículo que provocamos, o que, aliás, se poderia tornar extensivo a toda a arte da conversação. Pois analisar e procurar refutar as fantasias e opiniões de outras pessoas, dado que todas sejam certas para cada um de nós, não será o cúmulo da sensaboria e da tolice, se A Verdade de Protágoras for realmente verdadeira e se ele não estava pilheriando, quando doutrinava dos penetrais sagrados do seu livro?

Teodoro — O homem, Sócrates, foi meu amigo, conforme tu mesmo acabaste de dizer. Por isso não posso aceitar que Protágoras seja refutado com minha anuência, como também não desejo contradizer-te contra minha própria maneira de pensar. Volta, pois, a pegar-te com Teeteto, tanto mais que ele parece acompanhar teu raciocínio com o mais vivo interesse.

Sócrates — Se fosses à Lacedemônia, Teodoro, e assistisses às competições na palestra, acharias direito contemplar os lutadores quando despidos —alguns, aliás, de físico bem franzino — sem também te despires para mostrar tuas formas?

Teodoro — Por que não, se eles o permitissem e se se dobrassem aos meus argumentos? O mesmo se dá agora, pois espero convencer-vos a deixar-me no meu papel de espectador, e em vez de me arrastardes para a arena, as juntas duras como já tenho, medir-vos com um adversário mais jovem e de mais rica seiva.

Parte XVII

Sócrates — Se isso for do teu agrado, Teodoro, a mim não desagrada, como dizem os que amam citar provérbios. Forçoso, pois, é voltar para o sábio Teeteto. Então dize-me, Teeteto, para começar, pelo que acabamos de expor, se não te admiras de pareceres, assim tão de repente, nada inferior em matéria de sabedoria a qualquer homem ou divindade? Ou serás de opinião que a medida de Protágoras se aplica menos aos deuses do que aos homens?

Teeteto — Por Zeus, de forma alguma! E sobre o que me perguntas, digo que isso se me afigura muito estranho. Ao estudarmos há pouco a assertiva de que tudo o que aparece a cada um é tal como lhe aparece, eu achava a proposição muito bem formulada; porém agora essa impressão se transformou precisamente no seu contrário.

Sócrates — Ainda és moço, meu filho, e, por isso mesmo, fácil de prestar ouvidos a discursos capciosos e de deixar-te convencer. A esse respeito, Protágoras ou alguém por ele poderia objetar-nos: Vós, aí, menino e velho generosos, juntastes-vos para conversar e chegastes a envolver os próprios deuses em vossa discussão, suposto que eu tenha excluído inteiramente de minhas aulas e de meus escritos a questão de sabermos se os deuses existem ou não existem, sendo que só repetis o que as multidões gostam de ouvir, como se fosse de espantar não distinguir-se nenhum homem, em matéria de sabedoria, de qualquer animal. Porém quanto a argumentos e à conclusão forçosa é o que não apresentais, pois só recorreis a verossimilhança, o que, nas mãos de Teodoro ou de qualquer outro geômetra,seria suficiente para desclassificá-lo. Considerai, tu e Teodoro, se em assunto de tamanha transcendência acolheríeis argumentos baseados apenas em verossimilhança e probabilidade.

Teeteto — Que isso fora justo, Sócrates, nem tu nem nós afirmaremos.

Sócrates — Logo, ao que parece, sois de opinião, tu e Teodoro, que precisamos considerar o assunto por outro prisma.

Teeteto — Sim, por maneira diferente.

Sócrates — Então, vejamos se com esse novo critério diferem entre si conhecimento e sensação, ou se se eqüivalem. Toda nossa argumentação tendia para esse ponto, e foi só para isso que recorremos a tantos argumentos absurdos, não é verdade?

Teeteto — Perfeitamente.

Sócrates — Admitiremos que tudo o que percebemos por meio da vista ou do ouvido, só por esse fato se nos torne conhecido? Por exemplo, antes de aprendermos a língua dos bárbaros, sempre que estes nos falem, diremos que não ouvimos, ou que não apenas ouvimos como entendemos o que eles querem dizer? Outro exemplo: se não soubermos ler e olharmos para alguns caracteres escritos, diremos que não os vemos, ou que, pelo simples fato de vê-los, compreendemos o que significam?

Teeteto — O que neles, Sócrates, vemos e ouvimos, de fato, é o que afirmamos saber. Com relação às letras, diremos que as vemos e que reconhecemos sua cor e a forma, e no que entende com a fala, ouvimos e, no mesmo passo, conhecemos os sons agudos e os graves;porém a Lição dos gramáticos e de seus intérpretes, nem percebemos pela vista e pelo ouvido nem chegamos a compreender.

Sócrates — Ótimo, Teeteto! Não vale a pena levantar objeções, pois o que importa é aumentares a confiança em ti mesmo.

Parte XVIII

Porém atenta na dificuldade que se aproxima de mansinho e vê de que modo
poderemos repeli-la.

Teeteto — Que dificuldade?

Sócrates — É a seguinte: No caso de nos perguntarem se é possível a alguém que conheceu determinada coisa cuja lembrança ainda não se lhe apagou da memória, no momento em que se recorda dela não conhecer aquilo de que se lembra? Parece que fiz um rodeio muito grande só para perguntar se quem aprendeu alguma coisa não sabe do que se trata, quando se lembra dessa coisa?

Teeteto — Como não há de saber, Sócrates? Isso é um verdadeiro disparate.

Sócrates — Será que eu falei alguma tolice? Presta atenção ao seguinte: Não disseste que ver é sentir e que visão é sensação?

Teeteto — Disse.

Sócrates — Ora, de acordo com o que acabamos e de expor, quem viu alguma coisa, adquiriu o conhecimento dessa coisa.

Teeteto — Certo.

Sócrates — E depois? Não admites que há o que denominas memória?

Teeteto — Admito.

Sócrates — Memória de nada ou de alguma coisa?

Teeteto — De alguma coisa, evidentemente.

Sócrates — De coisas aprendidas e sentidas, não será isso?

Teeteto — Sem dúvida.

Sócrates — Por vezes, a gente se lembra do que já viu.

Teeteto — É fato.

Sócrates — Até mesmo com os olhos fechados? Ou só com baixar as pálpebras se esquecerá de tudo?

Teeteto — Seria absurdo, Sócrates, afirmar semelhante proposição.

Sócrates — Porém é o que teremos de fazer, para salvar o argumento anterior; a não ser assim, estará perdido.

Teeteto — Por Zeus, eu também tenho minhas dúvidas, porém não compreendo bem o que queres dizer. Explica-te melhor.

Sócrates — E o seguinte: Quem vê, foi o que disseste, adquire o conhecimento do que viu, pois visão, sensação e conhecimento, conforme admitimos, tudo é uma só coisa.

Teeteto — Perfeitamente.

Sócrates — Porém quem viu e adquiriu conhecimento do que viu, logo que fecha os olhos deixa de ver, não e verdade?

Teeteto — Certo.

Sócrates — Mas, desde que ver eqüivale a saber, não ver será o mesmo que não saber.

Teeteto — É verdade.

Sócrates — De onde vem que, ao lembrar-se alguém de alguma coisa de que já teve conhecimento, não a conhece por não a ter diante dos olhos, o que dissemos ser positivamente monstruoso.

Teeteto — É muito certo o que declaras.

Sócrates — Ao que parece, pois, trata-se de manifesta impossibilidade afirmar que sensação e conhecimento são idênticos.

Teeteto — É possível.

Sócrates — Que virá a ser, então, conhecimento? Pelo jeito, precisamos reconsiderar tudo do começo. Mas, Teeteto, que coisa estávamos na iminência de fazer!

Teeteto — A respeito de quê?

Sócrates — Tenho a impressão de que procedemos como galos ordinários; abandonamos a luta antes da vitória e pusemo-nos a cantar.

Teeteto — Como assim?

Sócrates — À maneira dos disputadores profissionais, chegamos a um acordo a respeito das palavras e nos declaramos satisfeitos por nosso argumento haver vencido graças a esse estratagema, e conquanto afirmemos que não somos anti-lógicos, porém filósofos, sem o perceber procedemos exatamente como aqueles terríveis cidadãos.

Teeteto — Não chego a apanhar todo o sentido de tuas palavras.

Sócrates — Pois vou ver se consigo explicar melhor meu pensamento. O que perguntamos foi se um indivíduo que aprendeu alguma coisa e dela ainda se recorda, pode deixar de conhecê-la; e depois de demonstrar que quem vê determinado objeto e, logo a seguir, fecha os olhos, deixando, assim, de vê-lo sem deixar de lembrar-se dele, concluímos que ele juntamente se recorda e não conhece, o que é impossível. A este modo, liquidamos o mito de Protágoras e também o teu, visto considerares idênticos conhecimento e sensação.

Teeteto — É verdade.

Sócrates — Mas o que eu acho, amigo, é que tal não se daria se ainda vivesse o pai do primeiro mito, que de todo o jeito saberia defendê-lo. Tudo o que fizemos foi maltratar este, por ser órfão, visto se terem recusado a sair em sua defesa os próprios tutores instituídos por Protágoras, entre os quais se inclui o nosso Teodoro. Por uma questão de justiça, nós mesmos é que teremos de socorrê-lo.

Teodoro — Não fui eu, Sócrates, que fiquei como tutor de seus filhos, mas, de preferência, Cálias, filho de Hipônico. Foi muito rápida nossa passagem dos argumentos sem provas para a geometria. Ficar-te-emos agradecido se saíres em sua defesa.

Sócrates — Muito bem dito, Teodoro. Então, vê como me disponho a defendê-lo. Absurdos muito maiores do que esse a gente se vê forçado a admitir quando não presta suficiente atenção ao sentido dos vocábulos de que comumente nos servimos para afirmar ou negar. A ti é que devo dirigir meu discurso ou a Teeteto? Teodoro — A ambos, juntamente; porém as respostas serão dadas pelo mais moço. Um
revés, no caso dele, será menos encabulante.

Parte XIX

Sócrates — Então, vou apresentar uma pergunta bem difícil, que será formulada nos seguintes termos: Poderá alguém conhecer alguma coisa e, ao mesmo tempo, não conhecer o que conhece?

Teodoro — Que responderemos a isso, Teeteto?

Teeteto — Eu, pelo menos, acho que não pode.

Sócrates — Isso não, visto afirmares que ver é conhecer. Como responderias à pergunta inextricável se viesses a cair no poço, como se diz, e com uma das mãos o teu implacável adversário te tapasse um dos olhos e perguntasse se com esse olho tapado enxergavas o seu manto?

Teeteto — Penso que lhe diria: Com esse, não; vejo com o outro.

Sócrates — Sendo assim, a um só tempo vês e não vês o mesmo objeto?

Teeteto — Sim, de certa maneira.

Sócrates — Porém não foi isso o que te perguntei, voltaria ele a discutir; não me referi à maneira, mas apenas se podes, no mesmo passo, não saber o que sabes? Agora ficou patente que vês o que não vês, pois já admitiste que ver é conhecer, e não ver é não conhecer. Conclui tu mesmo o que pode sair de tal embrulho.

Teeteto — Concluo que saiu o contrário do que eu havia afirmado.

Sócrates — É muito provável, meu admirável amigo, que tivesses de passar por outros maus bocados como esse, no caso de perguntarem se pode haver conhecimento agudo e conhecimento obtuso, ou conhecimento de perto porem não de longe, ou conhecimento intenso e conhecimento frouxo e mil outras questões do mesmo gênero com que te poderia surpreender algum adversário de armas leves e mercenário desses combates de palavras.Quando houvesses proposto a identidade do conhecimento e da sensação, ele se lançaria sobre as sensações do ouvido, do olfato e dos demais sentidos, refutar-te-ia sem misericórdia e não te daria tréguas enquanto não te deixasse boquiaberto diante de sua invejável sabedoria e colhido na sua rede. Depois de dominado e de ficares inteiramente preso, só te soltaria quando lhe houvesses entregue a dinheirama estipulada. Mas talvez desejes saber o que poderia aduzir Protágoras em defesa de sua doutrina? Valerá a pena falarmos em seu nome?

Teeteto — Acho que vale.

Parte XX

Sócrates — Diria tudo isso que acabamos de falar em sua defesa e se voltaria, quero crer, para o nosso lado com mostras do mais soberano desprezo, nos seguintes termos: Este mui digno Sócrates, depois de haver perguntado a um menino atemorizado se uma mesma pessoa podia lembrar-se de determinada coisa e não conhecê-la, o que o outro negou, depuro medo, por não poder calcular o que viria depois disso, resolveu cobrir-me de ridículo com sua demonstração. Mas a verdade, levianíssimo Sócrates, é a seguinte: Quando analisas por meio de perguntas algum ponto de minha doutrina e o interrogado, dando a mesma resposta que eu daria, comete alguma cincada, eu sou o que tu confundiste; porém se responde coisa diferente, o erro é apenas dele. Para exemplificar, acreditas, mesmo, que alguém poderia conceder-te que a memória atual de uma impressão passada, seja, como
impressão, igual à que passou e não mais existe? Nem por sombra! Por que teria, então,escrúpulos em admitir que a mesma pessoa pode juntamente saber e não saber a mesma coisa? Ou, se tiver medo de fazer tal confissão, poderá conceder que o indivíduo que se tornou diferente continua sendo o mesmo que era antes de modificar-se, ou melhor: que esse indivíduo seja uno, não muitos, e que estes muitos se multipliquem ao infinito,enquanto vier a transformar-se, se precisarmos precaver-nos para não caçar as palavras um do outro? Não, meu afortunado amigo, continuaria Protágoras a falar, cria coragem e ataca apenas minha tese, se puderes, para demonstrar que as sensações de cada um de nós não são individuais, ou, no caso de o serem, prova também que não se nos impõe a conclusão deque o que aparece a cada pessoa só devém, ou melhor, só existe para essa pessoa. Quando te referes a porcos e a cinocéfalos, não só te comportas como porco, como concitas teus ouvintes a fazerem o mesmo com relação aos meus escritos, o que não é decente. Insisto em que a Verdade é tal como a escrevi, a saber: Cada um de nós é a medida do que é e do que não é, e que um dado indivíduo difere de outro ao infinito, precisamente nisto de serem e de aparecerem de certa forma as coisas para determinada pessoa, e de forma diferente para outra. Quanto à sabedoria e ao sábio,eu dou o nome de sábio ao indivíduo capaz de mudar o aspecto das coisas, fazendo ser e parecer bom para esta ou aquela pessoa o que era ou lhe parecia mau. Não me venhas, agora, caçar as palavras de minha definição, porém desce até o fundo do pensamento. Recorda-te do que ficou dito antes: que para o doente o alimento é e parece amargoso, enquanto para o indivíduo são parece ser e é precisamente o contrário disso. Não devemos deixar um deles mais sábio do que o outro — o que fora impossível — nem sustentar que o doente é ignorante por pensar dessa maneira ou que é sábio o indivíduo com saúde por ser de opinião contrária. O que importa é modificar a condição do primeiro, pois a outra lhe é superior em tudo. Assim, também no domínio da educação cumpre passar os homens do estado pior para o melhor. O médico consegue essa modificação por meio de drogas; o sofista, com discursos. Nunca ninguém pôde levar quem pensa erradamente a ter representações verdadeiras, pois nem é possível ter representação do que não existe nem receber outras impressões além das do momento, que são sempre verdadeiras. O que afirmo é que se um indivíduo de má constituição de alma tem opiniões de acordo com essa disposição, com a mudança apropriada passará a ter opiniões diferentes, opiniões essas que os inexperientes denominam verdadeiras. No meu modo de pensar, estas serão melhores do que as primeiras; mais verdadeiras, nunca. Quanto aos sábios, meu caro Sócrates, longe de mim compará-los aos batráquios; se se ocupam com o corpo, considero-os médicos; em relação com as plantas, agricultores. O que afirmo é que estes últimos trocam nas plantas,quando estas adoecem, as sensações perniciosas por sensações benéficas e sadias, que é justamente como procedem os oradores sábios e prudentes, fazendo parecer justas às cidades as coisas boas em substituição às más. De fato, tudo o que parece belo e justo para cada cidade, continua sendo para ela isso mesmo enquanto assim pensar: porém o sábio faz ser e parecer benéfico o que até então lhes era pernicioso. Pela mesma razão, o sofista capaz de educar seus discípulos desse modo é sábio e merece ser muito bem pago por eles,depois de terminado o curso.. Nesse sentido, apenas, é que uma pessoa será mais sábia do que outra, sem que ninguém possa formar opiniões falsas. Colhe daí por fruto, quer o queiras quer não, que terás de resignar-te a ser medida das coisas. Foi o que nosso argumento demonstrou à saciedade. Se quiseres retomar a questão para contestá-la, podes fazê-lo, opondo argumento a argumento; caso prefiras o método de perguntas, formula tuas questões; é um processo que não admite evasivas e merece a preferência das pessoas inteligentes. Adota, porém, como norma não apresentar perguntas capciosas. Seria o cúmulo da inconseqüência declarar-se alguém zeloso da virtude e só valer-se de subterfúgios em suas discussões. Aqui a falta de lealdade consiste em entabular o diálogo sem fazer a necessária distinção entre o que é discussão propriamente dita e investigação mais possível; no outro, o dialético procede com seriedade e esforça-se por levantar o adversário, com mostrar-lhe apenas os erros em que ele incorrera, ou fosse por conta própria ou por má orientação de outros diretores. Se assim procederes, teus interlocutores só poderão queixar-se deles mesmos em suas incertezas e perplexidades, não de ti; seguir-te-ão por toda a parte e se mostrarão amigos, detestando-se e fugindo deles mesmos, para se acolherem à filosofia e se mudarem noutros, sem mais continuarem a ser o que eram antes. Porém se fizeres o contrário disso, a exemplo da maioria, o contrário, precisamente, se passará contigo, e em vez de filósofos ou amigos da sabedoria farás de teus acompanhantes inimigos do saber, quando se tornarem mais idosos. Se me aceitares o conselho, não será com esse gênio azedo e briguento, como disse há pouco, mas com espírito amigável e compreensivo que analisarás nossas proposições, quando declaramos que tudo se move e que as coisas são como, de fato, aparecem a cada um, tanto para os indivíduos como para as cidades. Partindo disso, investigarás se a sensação e o conhecimento são idênticos ou diferentes, não, porém, como fizeste há pouco, recorrendo apenas ao sentido usual das expressões e dos vocábulos, que a maioria violenta ao sabor do acaso, com o que só conseguem aprestar para si próprios toda a sorte de aborrecimentos. — Eis aí, Teodoro, o socorro que me foi possível trazer para teu companheiro, na medida de minha capacidade. É pequeno, por eu ser pequeno. Se ele ainda vivesse, com muito mais brilho se defenderia, por fazê-lo em causa própria.


fonte: Versão eletrônica do diálogo platônico “Teeteto”
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/

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