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FILOPARANAVAÍ

domingo, 24 de maio de 2020

MUJICA: 'E o mundo já não será mais o mesmo de antes. Teremos que aprender a funcionar de uma forma diferente'


Em sua videocoluna para a DW (Deutsche Welle é uma empresa pública de radiodifusão da Alemanha, com sedes em Bonn e Berlim, que transmite para o exterior programas de rádio, além de oferecer uma programação televisiva e um amplo portal de conteúdo online em 30 línguas.), José Alberto Mujica Cordano, ex-presidente do Uruguai, fala sobre o problema da falta de liderança mundial durante a pandemia. "Passamos bombardeando o Estado em vez de lutar, para começar a entender que as sociedades modernas são cada vez mais complexas e que renunciar ao Estado é impossível", reflete Pepe Mujica. 

Mujica também demonstra, em sua fala, as contradições dos ultraliberais pela falta de fidelidade ideológica e por pregarem o Estado mínimo. Porém, quando a crise chega são capazes de abraçarem ditaduras e recorrer ao estado para salvar a economia. Sabemos muito bem que o Estado mínimo pregado pelos neoliberais é o Estado mínimo para povo e máximo para os donos do capital. Sempre foi assim! O que vemos hoje é apenas a sucessão de uma velha história. Com o capitalismo essencialmente diminuindo a importância do Humano e da Natureza, que são colocados em estado inferior quando comparados à mercadoria e ao lucro, não é de estranhar que os capitalistas sejam insensíveis ao ponto de escolherem salvar a economia ao invés de salvar vidas humanas. Figuras políticas monstruosas como Donald Trump e Jair Bolsonaro demonstram essa tragédia ao desprezarem o valor da vida de milhões de norte-americanos e brasileiros, desde que não sejam responsabilizados pela derrocada da economia em seus países. Mujica afirma que após a pandemia do Novo Coronavírus o mundo já não voltará a ser o que era antes e que os homens podem aprender a valorizar o papel do Estado, com verdadeiras lideranças políticas que o coloquem ao serviço do povo (que o Estado possa dar o seu melhor) e ainda, afirma que o homem poderia aprender a valorizar e respeitar a Natureza, ou seja, desenvolver uma nova relação com a mesma.


Descrição da fala de Mujica em tradução livre
"(...) há mais de vinte dias sem sair de casa, porque sou velho, porque tenho problemas imunológicos, porque estou perto da cova e porque amo a vida... Eu não quero tornar fácil o serviço para a foice da morte me levar. Por tudo isso, tive tempo de ler o que os analistas andam dizendo por aí. E isso me surpreende. Há pessoas que estão vendo que há uma falta de liderança, particularmente no mundo rico. É que estamos numa era globalizada. Esse vírus é a coisa mais globalizada que já foi vista. Não deixa um fantoche com cabeça: países ricos e pobres, o que for. Que não temos ferramentas e que não podemos coordenar políticas comuns do ponto de vista mundial. Mas a falta de liderança não é porque homens e mulheres sejam incapazes. É porque o poder, há muito tempo, a essência do poder, já não está mais na representação necessária dos governos. Os governos correm atrasados. A essência do poder está na concentração fenomenal da riqueza e aparentemente, isto não está em questão. Aqueles que parecem ter poder político num determinado momento, tem cada vez menos. Então, esse é o primeiro assunto. Segundo assunto: passaram muitos anos criticando o Estado, porque, por um lado, havia um modelo estatista do tipo soviético, que acreditava ter resolvido tudo com o Estado. E, por outro lado, surgiram os ultraliberais, que no fundo não são liberais porque abraçam qualquer ditadura; eles acreditam que o Estado tem que ser reduzido ao mínimo. E quando as 'batatas queimaram', como agora, todos se voltam para ao Estado; que me deem (dinheiro), que o Estado garanta a disciplina, (...). Mas, passamos bombardeando o Estado em vez de lutar, para começar a entender, uns e outros, que as sociedades modernas são cada vez mais complexas e que renunciar ao Estado é impossível. Então, a verdadeira luta é aquela na qual precisamos lutar para o melhor dentro do Estado. Porque, na realidade, é desse valor coletivo que temos necessidade. E por que procurar o Estado? Porque o mercado não pode consertar isso. Porque precisamos de políticas globais. Porque alguém tem que tomar decisões, certas ou erradas. Porque temos que respeitar essas decisões. Porque temos que nos mover como coletividade, e não que cada louco faça o que está de acordo com  seus interesses (...). Acho que alguma coisa de sabedoria temos que aprender com essa crise. Mas não pensemos que após esta crise virar a esquina, que depois de amanhã, voltaremos a um mundo perfeito, onde nos reuniremos, nos abraçaremos, nos beijaremos (...) reuniremos multidões num campo de futebol ou algo assim, mas provavelmente por muito tempo, estaremos expostos a esse perigo. E o mundo já não será mais o mesmo de antes. Teremos que aprender a funcionar de uma forma diferente. Mas quanto isso vai nos custar? E o preço que vamos pagar? Essas questões vão nos martelar até o dia em que a ciência nos der um conjunto de respostas que hoje está longe de estar ao alcance da mão. Essa crise também pode servir para que o Homem Sapiens seja um pouco mais humilde e que aprenda que a Natureza deve ser vivenciada e respeitada."





FILOPARANAVAÍ © ²º20 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A HOMOFOBIA NA CULTURA BRASILEIRA

PAZ, RESPEITO E AMOR 
AO PRÓXIMO EM SUA SINGULARIDADE 
#HomofobiaNão 
#LesbofobiaNão 
#TransfobiaNão 

No Brasil 
homolesbotransfobia é crime!




Sempre fui militante. Quando eu subo num palco e emociono uma plateia, estou mostrando com isso o quanto de humanidade existe em mim, na minha arte. [...] As pessoas têm sempre essa reação quando estão diante de um homossexual e notam nele um ser humano. Os homossexuais formam uma minoria oprimida, mas há uma diferença fundamental: é possível destruir as outras minorias, as raciais, por exemplo. A minoria homo é indestrutível; seria preciso simplesmente que não nascessem homens e mulheres para que deixassem de existir homossexuais. (Rogéria em entrevista ao “O Pasquin”, em 1971, apud GREEN;POLITO, 2006, p.148)
A HOMOFOBIA NA CULTURA BRASILEIRA

Para compreender o fenômeno da homofobia no Brasil é necessário revisitar a história da homossexualidade brasileira. De acordo com Green e Polito (2006), estudiosos da homossexualidade em terras “tupiniquins”, apenas após o ano de 1980 é que a homossexualidade passou a ter no Brasil uma maior problematização em torno da homofobia com a consolidação dos movimentos políticos e das publicações dos homossexuais.

No decorrer do século XX os homossexuais masculinos, especialmente os mais pobres, sofriam por um lado em função da moralidade disseminada na sociedade por meio da cultura e por outro lado sofriam pela ação do Estado. Eram controlados pelas instituições policiais e científicas, portanto, tratados como criminosos e/ou doentes.

Antes dos movimentos políticos gays que vão colocar em cena os militantes LGBT, as fontes para descrever essa trajetória histórica encontram-se nos registros médicos e policiais. Green e Polito (2006) apresentam esse contexto histórico de forma esclarecedora ao revelarem que:

Os médicos tinham conceitos sobre o que era normal ou anormal, que os orientavam para caracterizar o homossexualismo como doença ou não. Tentavam discriminar os homossexuais como passivos, ativos ou mistos e procuravam também causas para explicar a existência de homens assim, fossem hereditárias, psicanalíticas, biotipológicas ou endocrinológicas. [...] cabendo à polícia capturar homossexuais considerados delinquentes e entregá-los a pesquisadores do campo da medicina para “estudos”. [...] Se o conhecimento médico atestasse sua “doença”, poderiam ser encaminhados para tratamento clínico específico; se não, poderiam ser tratados como criminosos comuns. (GREEN; POLITO, 2006, p.21).

Para compreendermos essa fase da história da homossexualidade masculina no Brasil, é necessário revisitarmos o problema do lugar dos homossexuais na sociedade desde os primórdios de nossa história, e isso nos remete ao final do Brasil imperial, que segundo Green e Polito (2006), é quando encontramos um primeiro texto intitulado “Da prostituição em geral e em particular em relação à cidade do Rio de Janeiro, profilaxia da sífilis”, de 1872, redigido pelo médico Francisco Ferraz de Macedo, ligado à faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em que há uma abordagem específica sobre a “sodomia ou prostituição masculina”:

Na descrição minuciosa do sujeito “sodomita” aparece a normatização exterior cultural pela qual era possível identificar um sujeito homossexual: [...]. Assim, se virmos um rapazito com andar sereno, grave, com os passos curtos acompanhados de movimentos do tronco e dos membros dos superiores; com as pernas um pouco abertas e o bico do pé muito voltado para fora; enfim, se virmos um rapaz arremedar no andar uma dama [...] podemos suspeitar que é um rapaz infame que passa. Se juntarmos a estes caracteres o de uma fala verdadeiramente efeminada, doce, agradável, e um trajar nos extremos [...] podemos ter mais do que suspeitas [...]. (MACEDO apud GREEN; POLITO, 2006, p.28).

A descrição empreendida pelo médico no texto demonstra o estado de prostituição que ocorria nas ruas centrais do Rio de Janeiro, identificando inclusive as idades aproximadas entre 12 e 20 anos daqueles que se prostituíam. A prostituição parece ser, desde sempre, a única porta de saída que os homossexuais tiveram, por muito tempo, para sobreviverem em meio a uma sociedade que os excluía e pela perseguição descomunal que sofriam por parte da polícia, da justiça e da medicina.

A prostituição por extensão histórica para além daquele contexto do período imperial, revelava a condição natural dos homossexuais pobres que se diferenciava em relação aos homossexuais de posses econômicas que recebiam tratamento mais tolerante por parte da sociedade.  

Os documentos da época imperial já atestam a percepção geral de que os homossexuais estavam em todas as instituições, desde a Igreja até o exército. Os colégios e internatos eram tidos como espaços de promoção das práticas homossexuais tanto masculinas como femininas e, portanto, sofriam forte crítica por parte dos estudiosos do problema.

Ao analisar as atividades profissionais dos homossexuais, Aldo Sinisgalli, segundo Green e Polito (2006), em “Observações sobre os hábitos, costumes e condições de vida dos homossexuais de São Paulo”, no início da década de 1940, retrata a ideia do homossexual feminizado, modelo esse que ainda se encontra estereotipado na cultura contemporânea: “Se bem que os pederastas exerçam as profissões as mais variadas, manifestam eles uma acentuada predileção pelas ocupações que acarretem menores esforços.[...]”. Na mesma lógica de análise Sinisgalli descreve ainda o quarto de um homossexual: “[...] E quem chegar a ver um quarto de pederasta, dirá: “mas isto é um quarto de moça!” (SINISGALLI apud GREEN; POLITO, 2006, p. 42 e 44).

É importante ressalvar que o trabalho de Sinisgalli não retrata as características gerais dos sujeitos homossexuais como feminizados por má intenção, senão que retrata as características que lhe eram possíveis de ser apreendidas desde o contato que tivera com os sujeitos homossexuais de sua época os quais se ofereciam para a visibilidade pública. Ora, certamente aqueles ligados, de uma forma ou outra, às práticas da prostituição.

Green e Polito (2006) demarcam o século XIX como referência histórica para o surgimento dos primeiros defensores ardorosos do casamento legal entre homossexuais masculinos. Possivelmente, o primeiro a defender essa ideia foi um respeitado funcionário público de nome Karl Henrisch Ulrichs, do Reinado de Hanôver. Essa informação encontra-se no trabalho de Jorge Jaime “Homossexualismo masculino” de 1953: 

“O ideal dos invertidos seria obter a licença legal para o casamento entre homens.” Nesse sentido lutou Carlos Henrique Ulrichs “[...] Foi o criador das palavras uranismo e dionismo [...] a primeira usou-a para referir-se ao amor homossexual, a segunda quando se referia ao amor normal ou heterossexual. [...] considerava o uranismo tão normal quanto o amor natural ou dionista”. [...] pediu que o casamento “entre homens fosse autorizado por lei”. (JAIME apud GREEN; POLITO, 2006, p.48).

Ainda de acordo com Green e Polito (2006), Jorge Jaime é quem nos oferece essa informação, assumindo também uma posição frente ao casamento homossexual. Defende a união, mas não a partir de uma perspectiva positiva. Para ele o casamento seria uma forma de evitar males maiores, apesar de acreditar que esse tipo de casamento jamais traria felicidade aos homossexuais:

Creio mesmo que se fosse permitido o matrimônio entre representantes de um mesmo sexo, desapareceria a exploração, a chantagem, a prostituição masculina, enfim todas essas formas de degradação que se desenvolvem por uma insuficiência de leis que regulem o assunto. O casamento, que é um ato público, comunicaria à sociedade a anormalidade dos cônjuges [...] (JAIME apud GREEN; POLITO, 2006, p.49).

Em relação ao engajamento político dos homossexuais no Brasil, Green e Polito (2006) nos oferecem uma crítica contida no artigo “L’homophilie au Brésil”. O texto éde 1960 e de autoria de Max Jurth, que analisa por analogia os sujeitos homossexuais inseridos nos contextos culturais do Brasil e da Europa, reclamando a ausência de um engajamento intelectual nos meios políticos por parte dos brasileiros:

Mas o que diferencia profundamente o ambiente homófilo do Brasil do da Europa é a ausência mais ou menos total de interesse e de atividade intelectual. [...] Não lhe ocorre a idéia de defender abertamente sua própria causa. Quando pensamos em tudo o que poderia ser modificado na opinião pública, no espírito dos jovens que se descobrem homossexuais [...] criando uma revista, estimulando a literatura homófila contemporânea etc., e que se vê, em lugar disto, o gasto de fortunas em asneiras [...]. (JURTH apud GREEN; POLITO, 2006, p.59).

Outra informação relevante para a compreensão do processo histórico da visibilidade pública dos homossexuais, oferecida por Green e Polito (2006), é a descrição do primeiro casamento de homossexuais ocorrido no Brasil. Realizado no dia 22 de dezembro de 1962 e foi registrado em matéria nas páginas da revista Fatos & Fotos sob o título “As bodas do diabo”. A “solenidade mais espantosa do século” teria ocorrido em Copacabana no Rio de Janeiro. Assim foi narrado:

[...] O que ocorreu na madrugada de 10 de dezembro, em Copacabana, foi apenas o casamento de um homem com outro homem. O que há de mais lamentável em tudo isso é que, no bairro mais famoso da cidade, tenha a degenerescência atingido um tal ponto que um fato dessa ordem não tenha espantado os que, como as autoridades souberam com tanta antecedência [...]. À saída para a lua-de-mel com latas amarradas atrás do carro, o casal despediu-se dos amigos. [...] A menos de 2 Km o Distrito Policial. Em Copacabana, alheios aos princípios morais e ao Código Penal, dois homens decidiram afrontar as leis do país e o conseguiram. (REVISTA FATOS E FOTOS apud GREEN; POLITO, 2006, p.61).

Segundo os autores, a boate onde se realizou o casamento chamava-se “Alfredo” e possivelmente foi o primeiro clube noturno para os homossexuais cariocas. Era administrada por um empresário de ideias avançadas para a época. Foi dele a ideia de realizar em sua boate o casamento que mais tarde provocou a interdição policial e nunca mais foi aberta.

Já o livro “L’homophilie au Brésil” de Max Jurth, analisado por Green e Polito (2006), trata de considerações importantes acerca dos sujeitos homossexuais em relação às suas localizações geográficas e/ou seu extrato social. Jurth constatou quese na cidade grande a vida de um homossexual não era fácil nos anos 1960, oscilando geralmente entre prostituição, criminalização e medicação, a vida de um homossexual no interior seria muito pior. Em relação à homossexualidade no interior Jurth revela que:

Se, no Rio, os verdadeiros homófilos têm uma existência penosa, apesar da existência de uma depravação pseudo-homófila geral, e oscilam mais frequentemente entre a degradação e as tentativas de correção moral, no interior, onde os preconceitos anti-homossexual são também difundidos, mas onde uma maior liberdade nas relações heterossexuais favorece menos a pseudo-homossexualidade, as vidas dos nascidos homófilos deve ser atroz. [...]. O viajante habituado às grandes cidades tem a impressão de que, nessas regiões, a homossexualidade não existe. De fato, é o que afirmam a maior parte dos autores brasileiros, que não se dão conta de que esta “integridade moral” só pode ser preservada ao preço de numerosos sacrifícios individuais. [....]. No que diz respeito aos comportamentos que se é tentado a atribuir às diversas classes sociais, a verdade é que os seus aspectos são tão complexos como na Europa. Há homossexuais em todos os meios, e em todos os meios eles são tão malvistos que se finge acreditar que eles só existem na classe oposta. Os menos criticados são talvez aqueles de cuja situação ninguém tem inveja, ou seja, os mais pobres. (JURTH apud GREEN; POLITO, 2006. p.63).

Pelo exposto até aqui, podemos identificar vários estereótipos  que foram construídos, ao longo do tempo, determinando por padrão quem eram os homossexuais: sujeitos sodomitas (pecadores), doentes, criminosos, pervertidos, pobres, prostitutos, efeminados, passivos, habitantes das grandes cidades.
Em Green e Polito (2006) encontramos um fragmento bastante revelador das consequências concretas resultantes dessa construção de estereótipos. O excerto é de Aldo Sinisgalli, intitulado “Considerações gerais sobre o homossexualismo”, editado em 1938/1940, sobre as relações entre homossexualismo e sociedade:

O homossexualismo é anti-social. O homossexualismo é a destruição da sociedade; é o enfraquecimento dos países. Compreende-se facilmente o prejuízo que traz à sociedade e às nações o desenvolvimento do homossexualismo, sabendo-se que os invertidos encontram a satisfação genésica com indivíduos do mesmo sexo, desprezando as mulheres. A maioria dos pederastas não se casa, não constitui família. A grande maioria deles é constituída por moços solteiros. Portanto o pederasta não contribui para o engrandecimento, para o desenvolvimento da sociedade e do país. Se o homossexualismo fosse regra, o mundo acabaria em pouco tempo. (SINISGALLI apud GREEN; POLITO, 2006. p. 101).

É claro que a Igreja Católica sendo uma força política e capaz de influenciar a cultura e a interpretação dos comportamentos morais, reforçava esses estereótipos. Mas Green e Polito (2006) nos informam que havia um padre chamado Jaime Snock, holandês e vivendo no Brasil desde 1953, que publicou um artigo na Revista Vozes, ligada à Igreja, em 1967, com o título: “Eles também são de nossa estirpe: considerações sobre a homofilia”. Green e Polito informam ainda que o padre considerava que 4 a 5% da população masculina e 2 a 3% da feminina eram homossexuais. Um excerto reproduzido por Green e Polito do artigo de Snock informa que:

É uma minoria, sem dúvida, mas uma minoria significativa, que é obrigada a viver no ostracismo e na clandestinidade, sofrendo amargamente sua rejeição por parte dos homens e, muitas vezes, sua suposta reprovação por Deus. O suicídio é cinco vezes mais freqüente entre os homossexuais do que entre os heterossexuais, conforme a afirmação recente de um criminologista da Universidade de Lovaina. (SNOCK apud GREEN; POLITO,  2006, p. 107).

O artigo do padre Snock é bastante dissonante em relação aos posicionamentos da Igreja na década de 1960, sem qualquer mudança significativa nos dias de hoje  e traz duas importantes informações, uma sobre a organização dos LGBT em alguns países e outra de que a homossexualidade não é em si uma doença, que ela se tornaria uma anomalia quando não assumida, não integrada, pelo indivíduo.

Em linhas gerais, Snock discordava daqueles que diziam ser o casamento e o celibato os “remédios” certos para os homossexuais. Em seu artigo ele pontuava que:

1. Em hipótese alguma pode-se romper uma amizade existente; 2. O matrimônio não pode ser solução e deve ser desaconselhado; 3. Não se deve esquecer que a continência, a chamada “via régia”, não é uma exigência tão evidente; na realidade ela é observada só esporadicamente; 4. Parece recomendável ajudar o homossexual a construir uma amizade firme; 5. No acompanhamento de amizades homossexuais parece importante insistir sobretudo na fidelidade. (SNOCK apud GREEN; POLITO, 2006, p. 108).

É de se observar que o padre Snock tinha uma visão de mundo bastante avançada comparada à visão da instituição religiosa à qual pertencia. No mundo laico, porém, a profecia de Snock se realizaria na década de 1990 quando a homossexualidade deixaria de ser reconhecida como doença.

Buscamos explicitar aqui a construção sócio-cultural dos mais variados estereótipos atribuídos aos sujeitos homossexuais ao longo da história. Os estereótipos continuam no imaginário das pessoas e são referenciais para identificar e discriminar que não se enquadra nos padrões culturais e morais de comportamentos.

A homossexualidade é um fenômeno universal e observamos que ela recebe tratamento desigual entre os países. Por exemplo, de acordo com informações da associação internacional ILGA , que luta por direitos LGBT em todo o mundo, a partir das informações contidas no relatório “Homofobia de Estado”, atualizado em junho de 2016, as relações entre pessoas do mesmo sexo continuam sendo consideradas crime em mais de 70 países. A associação ILGA denomina essa criminalização como “homofobia de estado” e pontua avanços de proteção em outros países:

En el año 2016, en la presente 11ª edición, ese número es de 73 estados que en ese momento criminalizaban la actividad sexual entre dos personas del mismo sexo, y la variedad de legislación relevante a la orientación sexual se ha expandido ampliamente: leyes que criminalizan nuestra práctica sexual o nuestra expresión [criminalización], leyes específicas que nos protegen de lesiones y odio [protección] y leyes que nos reconocen como seres que necesitan relación [reconocimiento]. (ILGA, 2016b, p. 7).

De acordo com o relatório, o Egito não penaliza tecnicamente as relações homossexuais em si, mas utiliza-se da interpretação de algumas leis (como a lei contra a libertinagem) para manter no momento cerca de 250 pessoas LGBT cumprindo penas nas prisões egípcias. O relatório ainda pontua que 13 países preveem a pena de morte para homoafetivos adultos. Em quatro deles – Sudão, Arábia Saudita, Irã e Iêmen –, a pena é efetivamente aplicada pela Justiça no país todo. Em dois – Nigéria e Somália –, é aplicada em algumas províncias.

Em cinco desses países – Mauritânia, Afeganistão, Paquistão, Qatar e Emirados Árabes Unidos – não há registro de aplicação específica recente e em dois deles (no Iraque e nos territórios controlados pelo Estado Islâmico nesse país e na Síria), os responsáveis por matar sistematicamente e com brutalidade os gays são milícias e grupos não estatais.

Como podemos observar, a homofobia é um fenômeno social e cultural presente em todos os países do Globo. Os estereótipos culturais incidem sobre os posicionamentos que os Estados e as sociedades apresentam diante dos sujeitos LGBT.

Desses estereótipos há um que certamente mais pesou na construção da imagem do homossexual masculino: a de efeminado .Tal estereótipo remete à violência homofóbica e a cultura machista, misóginica. Como as mulheres continuam sendo vítimas de negações de direitos igualitários, de agressões físicas e morais, esses estereótipos ainda continuam muito vivos na memória coletiva moldando práticas comportamentais discriminatórias.

De acordo com o que abordamos desse processo histórico da homossexualidade no Brasil, pelos estudos de Green e Polito (2006), o homossexual estava enquadrado dentro de uma visão cultural que o identificava como tendo características do feminino: os homossexuais são transgressores da natureza e da ordem vigente por serem efeminados, e as lésbicas por se recusarem ao papel destinado naturalmente às mulheres.

A ordem (chamada ‘natural’) dos sexos determina uma hierarquia social em que o feminino deve se complementar do masculino pelo viés de sua subordinação psicológica e cultural. Em consonância a esse raciocínio, no Relatório “Assassinato de homossexuais (LGBT) no Brasil de 2014”, Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia ressalta que:

[...] Ser travesti já é um agravante de periculosidade face à intolerância machista dominante em nossa sociedade, e mesmo quando um gay é morto devido à violência doméstica ou latrocínio, é vítima do mesmo machismo cultural que leva as mulheres a serem espancadas e perder a vida pelas mãos de seus companheiros, como diz o ditado: ‘viado é mulher tem mais é que morrer!’ (CERQUEIRA apud Relatório GGB, 2014).

Ora, a gênese histórica do ódio contra os sujeitos homossexuais está profundamente arraigada em fundamentos moralistas ensinados e aprendidos. Borrillo (2010) nos ajuda em uma compreensão mais ampla sobre esse fenômeno da construção social e cultural de estereótipos em relação aos LGBT. A homofobia é, em grande parte, alimentada pelo fato de que a pertença à heterossexualidade é normal e, portanto, esse pertencimento se dá pela adesão imediata, irrefletida, pois é entendida como natural, servindo assim para identificar os “normais” de todos os espaços da sociedade.

Ora, essa construção social da normalidade nada tem de natural; centenas de tratados teológicos, enciclopédias médicas, recomendações morais, códigos e regulamentos, assim como conto de fadas, filmes e romances, foram necessários para enraizar esse sentimento no mais recôndito das consciências. (BORRILLO, 2010, p.106).

Ainda de acordo com Borrillo (2009) o que está posto atualmente não é mais a problemática das origens e causas da homossexualidade, o que precisamos problematizar hoje é o porquê da perpetuação de práticas sociais que visam hostilizar os sujeitos LGBT:

De fato, em vez de se dedicar ao estudo do comportamento homossexual, a atenção se volta agora para as razões que levaram essa forma de sexualidade a ser considerada, no passado, desviante. Esse deslocamento do objeto de análise sobre a homofobia produz uma mudança tanto epistemológica quanto política. Epistemológica porque não se trata exatamente de conhecer ou compreender a origem e o funcionamento da homossexualidade, mas sim de analisar a hostilidade provocada por essa forma específica de orientação sexual. Política porque não é mais a questão homossexual, mas a homofobia que merece, a partir de agora, uma problematização particular. Quer se trate de uma escolha de vida sexual, quer se trate de uma característica estrutural do desejo erótico por pessoas do mesmo sexo, a homossexualidade deve ser considerada tão legítima quanto a heterossexualidade. (BORRILLO, 2009, p.16).

Podemos afirmar que a história da homossexualidade no Brasil passou por quatro fases que servem de marcos referenciais para compreendermos essa passagem de uma preocupação exacerbada em relação às origens da homossexualidade,  para a problematização do preconceito e discriminação contra sujeitos LGBT: na primeira,  a homossexualidade era tratada como pecado pela Igreja; mais tarde, em uma segunda fase, era tratada como doença pela medicina; depois, foi considerada como fonte de crimes, como atestam Green e Polito (p.77) ao lembrarem que “O Código Penal republicano, promulgado pelo decreto nº 847 de 11 de outubro de 1890, punia implicitamente as práticas homossexuais entre homens.” Por último, a fase da luta por direitos civis e visibilidade (Gay Power).

Em relação ao quesito criminalização exposto por Green e Polito (2006) fica evidente que as leis podem ser interpretadas de acordo com a cultura do agente de Estado que irá aplicá-las. Já vimos aqui anteriormente, segundo o relatório da ILGA, que no Egito há essa prática e os autores Green e Polito confirmam que no Brasil sempre houve essa prática.

A necessidade de uma lei clara que puna atos homofóbicos é necessária para evitar essas interpretações de acordo com a cultura do agente público. Na realidade de hoje, o LGBT vítima de homofobia entra na delegacia para fazer o boletim de ocorrência como vítima e sai de lá como culpado, quando não humilhado. Assim como o Estado brasileiro foi capaz de legislar contra a discriminação racial, as violências de gênero, da infância e adolescência, dos idosos, dos indígenas, precisa urgentemente legislar em prol dos LGBT.

Porém, apesar de ter chegado às comissões da Câmara Federal dos Deputados, a criminalização da homofobia continua emperrada, já que as bancadas extremamente conservadoras e defensoras de estereótipos e comportamentos padrões convencionados, culturalmente e socialmente, impedem até mesmo a discussão de tal possibilidade há quase duas décadas.

Exemplo disso é que a cultura homofóbica esteve muito manifesta durante o ano de 2015 com o imenso esforço empreendido por grupos sociais religiosos conservadores, nos níveis federal, estaduais e municipais. Visavam retirar dos planos de educação, em construção país afora, quaisquer referências às questões de “gênero e sexualidades”  identificadas como “ideologia de gênero” . O debate foi realizado por meio de uma tática irracional de “demonização” desses conceitos em defesa da preservação da moralidade em torno da família nuclear.

Acreditamos que é preciso resgatar os elementos culturais heterossexistas construídos historicamente, para uma compreensão dos avanços e dificuldades, ainda latentes, visando a construção de uma sociedade que mitigue o preconceito e elimine a violência contra sujeitos homossexuais, intersexuais e transgêneros. Tal perspectiva exige uma investigação sobre as configurações sócio-históricas, quanto à construção da negação da diversidade de sexualidades em privilégio exclusivo às relações afetivas heterossexuais.

Para finalizar essa reflexão sobre a constituição da história da homossexualidade no Brasil descrita, faremos uma rápida referência às mudanças ocorridas no país e no mundo quanto à forma de tratarem os sujeitos LGBT.

No Brasil, uma clara reação dos sujeitos LGBT à violência sofrida cotidianamente, de acordo com Green e Polito (2006), ocorreu na década de 1960. Os autores lembram que Agildo Guimarães, em 1963, foi o responsável pela edição de uma das primeiras publicações voltadas para o público gay masculino brasileiro: O Snob. O jornal teve vida longa: 99 números regulares e uma edição “retrospectiva”, chegando a ter entre 30 e 40 páginas. O jornal foi um importante instrumento de discussões politizadas sobre problemas relativos à realidade dos homossexuais no Brasil:

O jornal (O Snob) era distribuído na Cinelândia e em Copacabana, gratuitamente ou mediante alguma contribuição. Seu surgimento motivou a publicação de pelo menos outros 30 jornais semelhantes no Rio e pelo Brasil afora, como O Centro, Darling, Gay Society, Baby, Le Sophistique e Entender, daí sua grande importância. (GREEN; POLITO, 2006, p. 156).

Foi preciso notícias do “Gay Power” ou “força gay”, protestos públicos contra a discriminação de homossexuais nos EUA chegassem ao Brasil para que a mídia começasse a tratar mais positivamente gays e lésbicas:

Apesar da forte censura do período e de as matérias sobre homossexuais brasileiros na grande imprensa serem geralmente negativas e condenatórias, as notícias sobre o movimento norte-americano, ainda que pouco frequentes, apresentavam uma imagem positiva dos homossexuais masculinos e lésbicas em suas manifestações de protesto, ações legais e atividades que visavam à ampliação dos seus direitos democráticos nos EUA. (GREEN; POLITO,  2006, p. 159).
               
O termo “gay”, por exemplo, surgiu como uma categoria política criada pelos próprios homossexuais para se imporem contrariamente a qualquer tentativa de taxá-los como doentes pela psiquiatria. Este termo passou a ser utilizado pelos movimentos de defesa dos direitos LGBT, sobretudo, após o incidente de Stonewall, em Nova York, em 28 de junho de 1968. Gay é um termo que tem grande aceitabilidade junto aos homossexuais masculinos (Mott, 1996).

O “levante histórico” dos frequentadores do bar gay americano, cansados das agressões constantes e gratuitas da polícia de Nova York, inaugurou para os sujeitos LGBT, em várias partes do Planeta, uma esperança alicerçada na luta coletiva por Direitos Humanos.

Por sua importância, em 2015, o “Bar Stonewall Inn” foi declarado monumento histórico . O Comitê de Preservação de Sítios Históricos votou a favor do legendário local na Rua Christopher pelo seu papel na defesa dos direitos da comunidade homossexual.

Green e Polito (2006) destacam que o Jornal da Tarde de São Paulo, em sua edição do dia 04 de dezembro de 1969, trazia matéria sobre o movimento gay irrompido nos EUA a partir do incidente de Stonewall:

Os homossexuais radicais denominam-se Gay Power, usando como slogan Gay is beautiful, imitando o slogan do Poder Negro: Black is beautiful. ‘_ Desejamos despertar os homossexuais para sua própria identidade e fazer com que os heterossexuais saibam que nos orgulhamos de nós mesmos’ – disse Nick Chershire, membro do Gay Power – ‘por tempo demais aceitamos a condenação da sociedade’. (JORNAL DA TARDE apud GREEN; POLITO, 2006. p. 160).

O movimento ganhou força e em 1971 foi organizada grande manifestação pública que reuniu mais de 5 mil pessoas em Nova York. Assim, noticiada no Jornal do Brasil, em sua edição de 29 de junho: “A manifestação faz parte da semana dedicada ao ‘Culto da Homossexualidade’, que segundo um de seus organizadores, tem por objetivo lutar contra os preconceitos, e legalizar a chamada ‘liberação do sexo’.” (JORNAL DO BRASIL apud GREEN; POLITO, 2006, p. 162).

No Brasil, em 1973, o norte americano Allen Young, analisou o fenômeno da homossexualidade e apresentou suas conclusões em um artigo intitulado “Gay gringo in Brazil” publicado em São Francisco no livro “The gay liberation book”, conclusões essas que podem ser resumidas assim: “[...] a sociedade brasileira [...] ensina a população gay a se auto-odiar [...].” (YOUNG apud GREEN; POLITO, 2006, p. 164).

A primeira tentativa de organizar o “Dia do Homossexual” no Brasil ocorreu em 1976, no Rio de Janeiro, nos jardins do Museu de Arte Moderna. A presença policial assustou os manifestantes e o evento não aconteceu. Mas o teor contido no convite (descrito em matéria do Jornal A Notícia) demonstra a nova consciência LGBT que era despertada no país:

Além de nos confraternizarmos, teremos a oportunidade de conhecer o perfil de luta em que nos empenhamos pelos direitos do homossexual brasileiro a uma vida digna e respeitada. Vá e leve o seu caso. Vá e leve os seus trabalhos. Se for simpatizante, leve o seu sorriso e o seu abraço para o amigo desacompanhado. Viva! Viva a união do homossexual brasileiro. Por melhores oportunidades e igualdade de condições. Viva o 4 de julho! Alegria. Amor. Respeito. (JORNAL A NOTÍCIA apud GREEN; POLITO, 2006, p. 171).

Na mesma matéria sinais de mudanças na mentalidade brasileira sobre a homossexualidade por parte dos LGBT começam a aparecer na mídia. José J. Garrido diz que: “Não há crime nenhum em ser homossexual”. Outra pessoa de nome Leyland disse que é preciso “descobrir formas de disseminar informações para corrigir o conceito errôneo sobre o homossexual”. Para O Pasquim, Leyland afirmou mais tarde: “Os gays estão se conscientizando”. (GREEN; POLITO,  2006, p. 173-175).

Mas foi no ano de 1977 que a homossexualidade tornou-se assunto dominante na imprensa.  Green e Polito (2006) chamam a atenção para o fato de que matérias negativas sobre a homossexualidade recebiam cartas de protestos. Isso revelava que já havia não apenas uma consciência coletiva em torno das questões gays, como também uma união dos homossexuais que se firmava dia a dia.  O jornalista Celso Cury afirmou que: “Eu acho que não está havendo um aumento do homossexualismo, mas um aumento do número de pessoas que já declaram, publicamente, que são homossexuais [...].” (CURY apud GREEN; POLITO, 2006, p. 168).

Não há como esgotar aqui esse processo da construção da consciência coletiva gay no Brasil e nem é nossa pretensão. O movimento gay que começou seus primeiros passos no país constituído majoritariamente de homens, teve na década de 1980, a formação de grupos exclusivamente constituídos de lésbicas. Facchini, em breve resumo, faz um balanço do movimento LGBT nas últimas duas décadas:

Enquanto boa parte dos movimentos sociais mais visíveis nos anos 1980 experimenta um processo de "crise", o movimento LGBT não apenas cresce em quantidade de grupos e diversifica os formatos institucionais, como amplia sua visibilidade, sua rede de alianças e espaços de participação social. Assim, entre os interlocutores do movimento LGBT, temos movimentos de direitos humanos, de luta contra a Aids, e movimentos de "minorias", especialmente o feminista, em âmbito nacional e internacional. Temos também agências governamentais, parlamentares e setores do mercado segmentado. Há ainda uma ampliação dos espaços de participação: comissões que discutem leis ou políticas públicas, mas também há a construção de espaços para a incidência política em âmbito internacional. A ampliação da visibilidade social se dá basicamente pelo debate público em torno de candidaturas e projetos de lei; pela adoção da estratégia da visibilidade massiva por meio da organização das Paradas do Orgulho LGBT; e, pela incorporação do tema de um modo mais "positivo" pela grande mídia, seja pela inserção de personagens em novelas ou de matérias em jornais ou revistas que incorporam LGBT como sujeitos de direitos. (FACCHINI, 2016).

De acordo com Green e Polito (2006) e Facchini (2016), uma das primeiras lutas dos homossexuais foi contra a tentativa de identificá-los como doentes. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia, deixou de considerar a orientação sexual como doença ainda em 1985, antes mesmo da resolução da OMS – Organização Mundial de Saúde. A resolução do Conselho Federal de Psicologia de 1999, que "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual", considera “que há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente”. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA,1999, 2016)

Essa “resolução” anunciava a nova compreensão sobre a diversidade sexual na década de 1990.Nela há uma despatologização “médica” e “cultural” das relações homoafetivas ao afirmar: “[...] que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA,1999, 2016)

Destacamos ainda dessa histórica resolução (que de tempos em tempos sofre duros ataques de grupos conservadores heterossexistas de cunho religioso, especialmente das bancadas religiosas no Congresso Nacional que lutam pela eliminação da mesma), as seguintes passagens que fazem considerações e estabelecem artigos a serem observados pelos profissionais da psicologia:

[...] que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, o psicólogo é frequentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade. [...] que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade; [...] que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações; Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade. Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas. Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA,1999, 2016)

Mais precisamente, foi em 17 de maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS), em Assembleia-geral, retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais da Classificação Internacional de Doenças (CID). A decisão também eliminou o uso do sufixo ‘ismo’, desvinculando a orientação sexual da ideia de enfermidade. A data é tão memorável que passou a marcar o Dia Internacional de Combate à Homofobia, quando organizações civis de defesa dos direitos sexuais igualitários fazem as chamadas “paradas gays” para politicamente denunciarem a violência que os sujeitos LGBT sofrem, bem como reivindicar direitos civis negados em nossas leis.

Se em um primeiro momento a preocupação da Organização das Nações Unidas – (ONU) voltou-se para a urgência em rever a atribuição de patologia à orientação homoafetiva, mais recentemente voltou-se para o enfrentamento à homofobia cultural e de Estado. 

De forma velada a homofobia encontra-se implicitamente latente no cotidiano e reforça inconscientemente o tratamento patológico, já esvaziado pela ONU e outras instituições, por meio de estereótipos. O resultado muitas vezes da prática homofóbica decorre em agressões físicas, suicídios e homicídios. Além de graves prejuízos psicológicos para as vítimas, há também prejuízos civis vez que os sujeitos LGBT não têm direitos garantidos e ainda, em muitos países correm risco de prisão, tortura e morte.

Foi em Genebra, no ano de 2011, que pela primeira vez na história a ONU saiu da situação de apenas discursar contra a homofobia, para um posicionamento político concreto frente a essa violência que aflige milhões de pessoas em todo o Planeta. Cerca de 85 países assinaram uma declaração expressando sua preocupação com as violações dos direitos humanos contra pessoas LGBT. No mesmo ano, o Conselho de Direitos Humanos da ONU adotou a primeira resolução para tratar especificamente do assunto.

O Conselho de Direitos Humanos aprovou uma Resolução sobre a violação dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). A aprovação do Conselho das Nações Unidas é histórica e extremamente importante, pois influencia políticas públicas e legislações de proteção aos LGBT em vários países.

Os direitos sexuais aos poucos vão se convertendo em direitos humanos, apesar dos imensos desafios ainda a serem enfrentados no Brasil e no mundo. Em muitas culturas a orientação sexual e a identidade de gênero são classificadas como anomalias. Muitas sociedades punem com o rigor da lei criminalizando atos afetivos entre pessoas do mesmo sexo, negando acesso a direitos civis e em algumas sociedades chegam ao absurdo de imputar a pena capital para homossexuais. Transexuais vivem em total anonimato, silenciamento e invisiblidade.

Em linhas gerais, a Resolução de 17 de junho de 2011, assume o compromisso de fazer um estudo sobre a situação da violência contra populações LGBT e como a ONU poderia intervir para pôr fim a essas violências e violações dos direitos humanos:

Solicita que a Alta Comissária de Direitos Humanos encomende um estudo a ser concluído até dezembro de 2011, para documentar leis e práticas discriminatórias e atos de violência contra as pessoas por motivo de sua orientação sexual e identidade de gênero, em todas as regiões do mundo, e para documentar como a legislação internacional de direitos humanos pode ser utilizada para pôr fim à violência e às violações dos direitos humanos cometidas por motivo de orientação sexual e identidade de gênero.(ONU, 2011)

A Resolução de 2011, ao seu final, sinalizava que o Conselho de Direitos Humanos “Resolve acompanhar de forma contínua esta questão prioritária”. E parece que se tornou prioritária mesmo, pois foi novamente retomada em 2014 demonstrando interesse dos integrantes da ONU em continuar discutindo e fazer esforços no sentido de encontrar soluções para o enfrentamento a esse tipo de violência, por meio de nova resolução, aprovada – com 25 votos a favor, 14 contra e sete abstenções – novamente sobre direitos humanos, orientação sexual e identidade de gênero.

Em linhas gerais, a resolução pede atualização de relatório sobre “leis e práticas discriminatórias e atos de violência contra indivíduos com base em sua orientação sexual e identidade de gênero”. O objetivo é “compartilhar boas práticas e maneiras de superar a violência e a discriminação”:

[...] Recordando también que la Declaración Universal de Derechos Humanos afirma que todos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos, y que toda persona tiene los derechos y libertades proclamados en esa Declaración, sin distinción alguna de raza, color, sexo, idioma, religión, opinión política o de cualquier otra índole, origen nacional o social, posición económica, nacimiento o cualquier otra condición, [...], los Estados tienen el deber, sean cuales fueren sus sistemas políticos, económicos y culturales, de promover y proteger todos los derechos humanos y las libertades fundamentales,  [...] Recordando también [...] y en particular la resolución 17/19 del Consejo, de 17 de junio de 2011, [...] Expresando gran preocupación por los actos de violencia y discriminación, [...]Solicita al Alto Comisionado que actualice el informe (A/HRC/19/41) con miras a compartir buenas prácticas y formas para superar la violencia y la discriminación, en aplicación de las normas y el derecho internacional de los derechos humanos en vigor, y que se lo presente en su 29º período de sesiones (ONU, 2014)

O Brasil estava entre os países que apresentaram o projeto de resolução e todos os Estados-membros das Américas presentes no Conselho – Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Cuba, México, Peru, Estados Unidos e Venezuela – votaram a favor da resolução.

A importância de conhecer essas resoluções de 2011 e 2014 aprovadas pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, é de ter a sensação real de que nessa luta contra a homofobia que já silenciou inumeráveis afetividades, que violou direitos, e que agrediu psicologicamente e fisicamente inúmeros sujeitos LGBT, não é uma luta inglória e se faz necessária como compromisso “prioritário” de todos aqueles que se ocupam com questões humanitárias.

No início de 2015, o relatório (A/HRC/19/41) do Escritório das Nações Unidas de Direitos Humanos (ACNUDH), revelava que embora algum progresso tenha sido feito desde o primeiro estudo, destacando a discriminação e a violência contra pessoas com base em sua orientação sexual e identidade de gênero, o quadro geral continuava sendo de abuso violento generalizado, assédio e discriminação que afetava pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneras e intersexuais (LGBT) em todas as regiões. “A violência motivada pela homofobia e transfobia é muitas vezes particularmente brutal e em alguns casos caracterizada por níveis de crueldade superior a de outros crimes de ódio”:

Depuis 2011, des centaines de personnes ont été tuées et des milliers d’autres blessées lors d’agressions brutales et violentes, dont certaines sont relatées ci-après. Parmi les autres violations attestées figurent la torture, la détention arbitraire, le déni du droit de réunion et du droit d’expression, ainsi que la discrimination dans les domaines de la santé, de l’éducation, de l’emploi et du logement. Ces violences et d’autres exactions qui y sont associées montrent que les gouvernements, les parlements, les organisations régionales, les institutions nationales des droits de l’homme, la société civile et les organismes des Nations Unies, y compris le Conseil des droits de l’homme, doivent réagir de manière concertée. (ONU, 2015)

O relatório contém 20 recomendações dirigidas aos governos nacionais. Entre elas: revogar leis usadas para punir indivíduos com base em sua orientação sexual e identidade de gênero; proibir a discriminação e incitação ao ódio e à violência contra as pessoas LGBT; reconhecer legalmente relações do mesmo sexo; garantir o acesso a documentos de identidade legais que reflitam o gênero identificado pelo próprio indivíduo, sem impor pré-condições abusivas; e pôr fim a terapias e tratamentos abusivos nos quais pessoas LGBT são muitas vezes sujeitas, como as operações médicas forçadas em crianças intersexuais.

Quando se trata de sujeitos LGBT é muito importante ressaltar quem são esses sujeitos. Nas duas últimas décadas tem sido maior a visibilidade desses sujeitos nos contextos concretos de nosso cotidiano. Isso ocorre pelo esforço que fazem os países associados à ONU ao adequarem suas legislações e políticas públicas às demandas das populações LGBT de acordo com o que tem sido decidido no âmbito daquela instituição internacional.

A visibilidade maior tem um lado positivo que é dizer: “aqui estamos nós e queremos ser tratados como humanos, tal qual somos, nem mais e nem menos”, porém, também há uma lado negativo decorrente da ignorância e da prática de uma moral heteronômica  que continua a condenar as relações homoafetivas, discriminando-as e reprimindo-as por vários meios de proliferação dos discursos que estereotipizam os sujeitos LGBT.
                
Cabe à escola, não somente à ela, mas especialmente a ela, um papel fundamental na desconstrução dessa cultura homofóbica com traços desumanizadores. Apenas o conhecimento fundado em elementos científicos e filosóficos poderá compreender esse fenômeno e ao mesmo tempo possibilitar uma intervenção criativa nos espaços escolares, a fim de promover o convívio entre os iguais e os diferentes, tão necessário para o processo de humanização do homem.

Acreditamos que o papel pedagógico da escola consiste em adquirir a cultura, pensar essa cultura à luz dos direitos humanos estabelecidos na Declaração de 1948, com o objetivo de eliminarmos as violências que ameaçam e ceifam vidas todos os dias apenas porque as pessoas carregam diferenças que não se enquadram nos padrões determinados culturalmente e socialmente, tidas como indesejáveis, estranhas, anormais.

Referência
LOPES, Lucio de Lima.O ENFRENTAMENTO À HOMOFOBIA EM SALA DE AULA - UMA EXPERIÊNCIA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA. nº de folhas (ex. 127 f.). Dissertação (Mestrado em Ensino) – Universidade Estadual do Paraná – Campus de Paranavaí. Orientadora: Profª Drª Isabela Candeloro Campoi. Paranavaí, 2016. p. 58-77

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O BRASIL corre um sério risco de atentado DEFINITIVO contra a Democracia por parte do governo neofascista





As palavras do jornalista Juca Kfouri são reveladoras das atuais crises política e sanitária pelas quais passa o Brasil: “Evidente que quando esse genocida, esse psicopata que mora em Brasília, diz que vão ‘jogar as mortes no meu colo’, ele não tem razão alguma em dizer isso, porque as mortes têm que ser jogadas no colo dele mesmo. Evidentemente ele é responsável pelas mortes, e evidentemente o governador de São Paulo, o governador do Rio de Janeiro estão fazendo o que devem fazer, e fazer o que deve fazer é fazer a obrigação, mas eles também serão responsáveis pelas mortes. Eles são fartamente responsáveis pela eleição do Bolsonaro, disto os democratas não podem se esquecer”. (...)  “Os democratas não podem esquecer do ‘Bolsodoria’, do Witzel ‘tiro na cabecinha’, não podem esquecer, fazem parte da mesma tramoia para chegar ao poder. Não me venham com a conversa de que foram enganados, porque precisava ser muito inocente para ser enganado. Ninguém foi enganado”, completou, em entrevista à TV 247

A crise sanitária agrava-se no Brasil. Sem um governo central, pois Bolsonaro e seus ministros vão contra o isolamento social nos estados e pregam a volta à normalidade, soma-se a isto o fato de que não investe em testes rápidos para que tenhamos um diagnóstico preciso de nossa realidade. Além ainda, do atual governo não apresentar até o momento nenhum projeto de contenção à crise econômica. Em resumo: Um governo completamente despreparado.

O Brasil encontra-se em uma gigantesca subnotificação e os números de infectados e mortos pode ser dez ou até mesmo quinze vezes maiores do que os oficiais tornados públicos.

Mundo em alerta: MESMO COM A SUBNOTIFICAÇÃO, em duas semanas, Brasil já é o 4º com maior número de casos de coronavírus. Nos últimos 15 dias, o Brasil disparou como o 4° país com maior número de casos de Covid-19; no último fim de semana, o Brasil foi também o 4º em número de mortos. Há um alerta mundial quanto ao tamanho da crise brasileira, que ameaça até os países vizinhos.

Em síntese, as crise política e sanitária são dois ingredientes potencialmente fortes para fazerem muitas vítimas da Covid-19.

Ainda em sintonia com essas duas crises, temos uma terceira. O modelo de esvaziamento do Estado, ou seja, destruição do Estado do Bem Estar Social que encontra-se na CFB-1988 e que os governos do PT buscaram implementar, é um outro agravante pois aprofundará ainda mais a destruição da economia gerando desemprego em massa e disparada da pobreza e miséria. 

As coisas já não vinham bem antes do primeiro caso de Covid-19. As perspectivas de crescimento econômico eram risíveis e o desemprego subia. Com a crise sanitária e sem um governo preparado para enfrentar as crises, o destino do gigante da América Latina é uma incógnita. 

Após a demissão do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, a crise política agravou-se. 

Moro é herói de uma parcela da população brasileira, a mesma que serviu à mídia em passeatas aos domingos para justificar um 'apoio popular' ao impeachment de Dilma e/ou para convencer a grande parcela apolítica da população a aceitar o processo contra a presidenta como justo. 

O mesmo Moro possivelmente pode ter cometido muitos crimes constitucionais ao manipular processos quando esteve frente à Força Tarefa denominada 'Lava Jato' (cf. denúncias amplamente veiculadas no site The Intercept).

Por ironia do destino, deixou o governo disparando acusações de crimes atribuídos ao presidente da República Jair Bolsonaro. Um desses crimes é o fato de Bolsonaro ter tentado manipular a Polícia Federal para obter informações acerca de processos contra seus familiares envolvidos em uma grande trama de corrupção de longa data.

As denúncias de Moro, provocaram uma cisão em relação aos apoiadores que ainda sustentavam unidos o governo Bolsonaro. 

No sábado 02/05,  os apoiadores de extrema-direita protagonizaram uma guerra de palavras ofensivas em frente à sede da PF que serviu por mais de um ano como prisão política ao ex-presidente Lula, impedido de participar das eleições de 2018 para eleger um candidato da Direita, segundo o ideal da burguesia financeira na época, mas que acabou elegendo um candidato de extrema-direita completamente despreparado para o cargo, mas que garantiu as pazes com a Direita golpista ao entregar o cargo de Ministro da Economia ao serviçal do mercado, Paulo Guedes. Era o dia do depoimento de Moro sobre as acusações contra o presidente.

Já no domingo 03/05, os apoiadores de extrema-direita desrespeitando as recomendações sanitárias de isolamento social, aglomeraram-se em Brasília para fazerem atos antidemocráticos contra o STF e contra o Congresso, em defesa do mandato ameaçado de Jair Bolsonaro, que teoricamente já cometeu dezenas de crimes desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019. 

Na Câmara, até agora, mais de três dezenas de pedidos de impeachment aguardam apreciação por parte do presidente Rodrigo Maia, que aliado da Direita, prefere silenciar-se enquanto os ideais golpistas avançam sob a liderança pessoal de Jair Bolsonaro que esteve nos atos. Teve muita violência contra o Estado de Direito Democrático e muita violência física contra jornalistas.

As imagens em movimento demonstram um momento surreal, ironicamente, um presidente menos patriota e mais lacaio dos EUA e de Israel. 



Por enquanto, no Brasil, tudo segue como dantes. Ou seja, desde que várias forças de direita uniram-se para derrubar uma presidenta honesta em 2016, nossa Democracia e Constituição têm sido violentadas dia e noite. Nada mudou!

O Brasil não pode ter medo de impedir Jair Bolsonaro, escreveu Miriam Leitão diante das ações insanas do presidente de extrema-direita. 

Não nos deixemos enganar com esse ataque de lucidez  da colunista Miriam Leitão, do Globo, pois ela representando a empresa para a qual trabalha e é uma das grandes responsáveis por tudo que vivencia nosso país hoje. Foi ela a grande responsável por fazer colar na sociedade a farsa das 'pedaladas' que derrubaram Dilma e tornou a conjuntura apropriada para eclodir o ovo da serpente neofascista.

Mas, em sua lucidez momentânea, nos raros momentos que o veículo GLOBO permite aos seus, claro, objetivando os próprios interesses de sobrevivência, afirma que é chegado o momento de impedir Jair Bolsonaro. 

"Jair Bolsonaro nunca foi contra a corrupção e nunca foi um democrata. Mas usou a bandeira que estava em alta e foi eleito dentro das regras da democracia. Os que acreditaram que ele era o melhor antídoto contra a corrupção escolheram o autoengano", escreve ela. "Bolsonaro conspira contra a democracia à luz do dia, diante de todos. Alguns líderes políticos pedem paciência, como se ele fosse apenas uma pessoa de maus modos. Não. Ele tem maus propósitos". "A questão é como proteger a democracia brasileira nessa armadilha na qual o país está. Não há outro caminho que não seja o impedimento. O presidente precisa ser impedido através das leis que regem esse processo, que sempre foi e sempre será traumático, mas já foi usado por muito menos do que o que tem feito Jair Bolsonaro. Nem o Judiciário, nem o Congresso podem ter medo nesse momento. Bolsonaro já cometeu inúmeros crimes de responsabilidade. A lista é longa e os juristas e políticos a conhecem. A ideia de que 'não há clima' é muito confortável para todos os que querem eximir-se das responsabilidades que têm", aponta ainda Miriam. "Se ele não tivesse afrontado as leis tantas vezes, e estivesse apenas atormentando o país com crises diárias no meio de uma pandemia já seria motivo suficiente para se pensar no impeachment. Bolsonaro é um governante que escolheu agravar todas as crises quando o país trava uma luta de vida ou morte", finaliza a jornalista.

Ora, se até uma das mães do golpe e do neofascismo está defendendo a defenestração de Jair Bolsonaro, o que estamos esperando? Se vai ser Antonio Mourão a assumir, esse será um outro problema a ser enfrentado quando ele já estiver lá. O que o Brasil necessita neste momento é colocar para correr do Palácio do Planalto aquele que está colocando milhões de vidas em riscos de morte. Seja pela sua incompetência em enfrentar a crise sanitária, seja pela sua incompetência em enfrentar a crise econômica. Além de que, ele é o responsável direto por uma nova crise política todo dia que agrava tudo ainda mais. E se os apoiadores de extrema-direita vão gritar e chorar, que gritem e chorem à vontade. Se fizerem violência pública que o Estado seja capaz de usar da violência contra eles. 

Uma coisa é certa: O Brasil não pode mais seguir refém de Bolsonaro e de sua legião neofascista que sangra nosso país em todos os sentidos. 

FILOPARANAVAÍ © ²º20