sábado, 20 de fevereiro de 2010

Leitura de texto filosófico: O HOMEM E A RAZÃO, na concepção do Filósofo Jaspers

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Karl Jaspers, filósofo contemporâneo, tinha uma característica própria de lidar com a tinta e o papel. De uma linguagem ímpar, este filósofo permite ao homem saciar sua sede de conhecimentos e ao mesmo tempo, leva este mesmo homem a um inquietude profunda, diante da missão sempre nova de se lançar na aventura do filosofar em busca da verdade.


TEXTOS FILOSÓFICOS / Reflexões filosóficas acerca do animal Homem

HOMEM: O SER DOTADO DA FACULDADE ANÍMICA DA RAZÃO

O CONHECIMENTO FUNDAMENTAL


Em relação ao universo e à História, expandimos continuamente os limites de nosso conhecimento. É como se nos perdêssemos no infinito das realidades cósmicas e históricas. Face a umas e outras, adquirimos consciência do passageiro e insignificante caráter de nossa existência.

Mas, e o universo? ele se cala. Saberá ele que existe? Em seu mutismo não divisamos o menor sinal de um conhecimento dessa ordem. Nós, porém, sabemos que ele existe. Nós somos estes seres extraordinários que sabem que o universo, essa imensidade, existe. E podemos estudá-lo. Nossa consciência do nada que é o ser humano transforma-se no seu contrário.

Se nada soubéssemos do universo, não seria como se ele não existisse? Isso parece absurdo, mas indagamos: que seria o ser que se ignorasse a si mesmo e de ninguém fosse conhecido? Confundir-se-ia com a mera possibilidade de ser conhecido? Algo que esperaria, por assim dizer, a oportunidade de manifestar-se a um ser capaz de percebê-lo? Nós, esse nada no universo, não seremos o ser verdadeiro, o olho que vê o mundo?

E nossa História? Diante dela, temos consciência de nossa insignificância como indivíduos, mas em sentido diverso. Compreendemos o que os homens foram, fizeram, conseguiram. Quanto mais e melhor o compreendemos, mais claramente nos vemos face a um infinito que não nos esmaga e sim nos envolve. Compreender coloca a imensidão a nosso alcance. Jamais ascenderemos a seu nível e não obstante, a despeito de nossa insignificância, a ela pertencemos e ela nos responde.

Que somos nós, que são esses olhos que estão no mundo e vêem e conhecem e compreendem? Seres pensantes, somos a dimensão — única, segundo sabemos — onde aquilo que é se revela em nosso pensamento objetivo, em nossa compreensão, em nossa ação, em nossa criação, em cada forma de nossa experiência.

Mais ainda: temos não apenas consciência, mas consciência de nós mesmos. Nesta consciência não há tão-somente revelação, mas a revelação de si para si mesma.

Demos um salto: passemos da cognição intelectual dos objetos para a consciência subjetiva do que realizamos e experimentamos. A altura que atingimos com esse salto é nada, se a considerarmos do ponto de vista do conhecimento do mundo; considerado, porém, do ponto de vista filosófico equivale à possibilidade de atingir uma nova consciência do ser. É o que denominamos conhecimento fundamental.

O HOMEM

Antes de tudo, sendo seres vivos, compostos de matéria, pertencemos à natureza, como espécie animal que somos. Sendo seres racionais, atuantes e criadores, pertencemos à História, que criamos ao mesmo tempo em que a ela nos vemos expostos. E, enfim, somos o abrangente que compreende, por assim dizer, a natureza e a História. Tendo-nos tornado, por força da natureza e da História, aquilo que hoje somos, é como se houvéssemos provindo de um lugar estranho, ao mesmo tempo, à natureza e à História e só ali tivéssemos nossa origem e nossa meta.
Nada há que se compare à natureza do homem. O homem que somos parece a própria evidência e é, entretanto, a mais enigmática dentre as coisas. De múltiplas maneiras foi essa idéia expressa. Por exemplo: o homem se confunde com todas as coisas, a alma é tudo, disse Aristóteles; o homem não é anjo, nem besta, afirmou um pensador medieval.
Mas, situado a igual distância de uma e de outra participa de ambas essas naturezas; centro da criação, ele é distinto não apenas dos animais, porém também dos anjos; só ele é feito à imagem de Deus; o homem, dizia Schelling, tem, profundamente escondida em si, uma “cumplicidade com a criação”, pois que assistiu-lhe as origens.
Seja de onde for que tenhamos vindo, estamos aqui. Encontramo-nos no mundo, em meio a outros homens.
A natureza é muda. Embora pareça estar expressando algo através de suas formas, suas paisagens, suas tempestades tumultuosas, suas erupções vulcânicas, sua brisa ligeira e seu silêncio — a natureza não responde. Os animais reagem de maneira que tem sentido, mas não falam. Só o homem fala. Só entre os homens existe essa alternância de discurso e resposta continuamente compreendidos. Só o homem, pelo pensamento, tem consciência de si.
O homem está sozinho no mundo imenso e mudo. Foi preciso que o homem surgisse para emprestar linguagem ao mutismo das coisas. O silêncio da natureza ora lhe parece estranho, inquietante, impiedosamente indiferente ora lhe parece favorável, despertando-lhe confiança e apoiando-o. O homem acha-se sozinho em meio a uma natureza de que, não obstante é parte. Somente com seus companheiros de destino ele se transforma em homem, em si mesmo e deixa de estar solitário. E, então, a seus olhos, a natureza se torna o pano de fundo de uma obscuridade que fala sem palavras. Vemo-nos a nós mesmos como luz que ilumina as coisas, que se dispõem com referência a nosso pensamento e às relações que com elas estabelecemos.
É a partir do mundo que nos compreendemos como esse existente vivo e corporal sem o qual não somos. Estamos ligados a esse existente, movemo-nos com ele e reconhecemos sua corporalidade como nossa até o ponto da identificação. Mas, se nos entregarmos à idéia de que, no plano da natureza, somos feitos de matéria e de vida, perderemos consciência de nós mesmos. Com efeito, a identificação de cada um de nós com sua corporalidade não basta para fazer com que ele seja ele mesmo.
Não nos compreendemos a partir da História, a não ser através da realidade da tradição, sem a qual não teríamos chegado a nós mesmos. Mas, se nos rendermos ao processo de conhecimento histórico, no qual hoje nos encontramos, perderemos a consciência de nossa própria responsabilidade original. E é por meio desta, e não pela contemplação da História que somos nós mesmos.
Será então, que nos compreenderemos a partir de nós mesmos, na liberdade de nossa ação interior e exterior? Nesse ponto, atingimos a profundidade, tocamos a origem de nossa consciência de nós mesmos. Mas não compreendemos a existência de nossa liberdade. Com efeito, nós não nos criamos: nem enquanto esse existente sob cuja forma nascemos, nem enquanto essa liberdade na qual, compreendendo-nos nela, oferecemo-nos a nós mesmos.
Se não nos compreendemos a partir de nossa origem, podemos, ao menos, saber o que somos?
O homem foi definido como ser vivo dotado de palavra e pensamento (zoon logon echon); como ser vivo que. agindo dá à sociedade a forma de cidade regida por leis (zoon politikon); como ser que produz utensílios (homo faber); que trabalha com esses utensílios (homo laborans); que assegura sua subsistência por meio de planificação comunitária (homo oeconomicus).
Cada uma dessas definições leva em conta uma característica, mas o essencial não está presente: o homem não pode ser concebido como um ser imutável, encarnando reiteradamente aquelas formas de ser. Longe disso, a essência do homem é mutação: o homem não pode permanecer como é. Seu ser social está em evolução constante. Contrariamente aos animais, ele não é um ser que se repete de geração para geração. Ultrapassa o estado em que é dado a si mesmo. O homem nasce em condições novas. Embora preso a linhas prescritas, cada novo nascimento corresponde a um começo novo. Para Nietzsche, o homem é “o animal que jamais se define”. Os animais se repetem e não avançam O homem ao contrário e por natureza, não pode ser o que já é. Está sujeito a perder-se em anormalidades, degenerações, perversões, a alienar-se de si mesmo. Isso, porém não se faz segundo uma direção invariável, conhecida ou admitida, que se constituiria na única forma verdadeira de ser homem.

Mas quem é esse homem, que se reconhece ligado à nação, à raça, ao sexo, à própria geração, ao meio cultural, à situação econômica e social e que, não obstante, de tudo se pode afastar, colocando-se, por assim dizer, fora e acima de todas essas estruturas em que historicamente se encontra imerso?

Tudo que sabemos do homem, tudo que cada um dos homens sabe de si mesmo não corresponde ao homem. Aquilo a que o homem está ligado, aquilo com que o homem se debate não identifica o homem. Sua origem propõe-lhe um problema que se transforma em alavanca da qual se vale para tentar fugir àquilo em que está enterrado. A partir daí, ouve ele a exigência que não lhe deixa repouso. Sua consciência de ser se realiza com base em algo que ele jamais compreende, mas de que acredita participar uma vez que seja ele mesmo.

Nem o homem, nem qualquer dos homens sabe o que é em realidade, quando se reconhece amparado por esse fundamento sobre o qual nada pode. Todo conhecimento que o homem tem de si mesmo diz respeito a fenômenos, a suas condições ou potencialidades. O homem não se identifica a qualquer desses aspectos, porém os incorpora ao longo da jornada que o leva a si mesmo.

Abrigamos em nós algumas imagens do homem e ouvimos falar de outras que a História reteve.

Mas, como não podemos fixar numa imagem o que o homem realmente é, o que pode ser ou o que deve ser, somos também responsáveis pelas imagens que nos orientam.
Os homens não vivem sem dispor de imagens de si mesmos. Pela confrontação de imagens, chegamos a nós mesmos. O homem sempre esteve rodeado de imagens: os heróis da mitologia, os deuses gregos — que, de natureza semelhante à dos homens, destes só se diferenciavam por serem imortais — os sábios, os profetas, os santos, as personagens literárias. Como se colocam essas imagens em torno do homem de nossos dias? Os deuses do teatro, do estádio ou da tela, os políticos, os escritores, os sábios continuam a constituir-se em imagens orientadoras ou deixaram de sê-lo?
Somos nós próprios a aposta na luta que, em nós se trava, entre imagens do homem. Sentimos atração ou repulsão por imagens que reconhecemos nos indivíduos. Fazem-se elas, a nossos olhos, modelos positivos ou negativos. E de nós próprios indagamos: que faria ou que diria tal homem na situação presente?

Quando caímos, tendemos a justificar a própria baixeza pela contemplação da baixeza. Para nos reencontrarmos, tentamos encontrar homens que possamos respeitar. Tornamo-nos nós mesmos naqueles que amamos. Perdemo-nos naqueles a que nos julgamos superiores.

Postos em confronto com os mais elevados exemplares da humanidade, dizemos em autodefesa: “não quero ser assim, quero ser como todos”; “é humano participar da baixeza humana, em vez de, por orgulho, procurar ser melhor — essa é a humanidade verdadeira”; “as personalidades são ídolos de tempos idos — deixaram de existir”; “quero ser de meu tempo, corresponder ao que ele exige”. Em contraste com essas manifestações, põe-se a reverência pela nobreza humana, que vemos continuadamente realçada. Essa reverência nos eleva acima de nós mesmos. Impõe-se a reverência pela nobreza humana para que possa haver respeito pelos indivíduos; efetivamente, o respeito pelo indivíduo é o respeito pela nobre potencialidade que ele encerra por ser homem. A mesma reverência está na origem do respeito próprio que consiste em não tolerar fazer, pensar ou sentir nada capaz de levar-me ao desprezo de mim mesmo. Há, entretanto, o recife perturbador diante do qual todo amor e reverência naufragam: é o fato de encontrarmos no homem alguma coisa que, em literatura (na Tempestade, de Shakespeare), assumiu a figura de Caliban e, na realidade, graças à loucura servil de um povo, encarnou-se em Hitler.
A reverência não eleva o homem ao nível da divindade. O homem humilíssimo e o grande homem são aparentados conosco. Mas é perversão transformar a fórmula: “todos são homens como nós” — fórmula que, sem abolir a indefinível hierarquia, nos eleva a todos — em algo que nos nivela por baixo e dizer “todos não passam de homens e são semelhantes a nós”.

Afirmamos que o homem não podia ser compreendido a partir da natureza, nem a partir da História, nem a partir de si mesmo.

Exilado em seu existente, o homem quer ultrapassar-se. Não se satisfaz com ser, numa quietude fechada em si mesma, o perpétuo retorno do existente. Não mais se reconheceria autenticamente como homem, se se contentasse com ser o homem que hoje é.

Para transcender-se, não basta ao homem a sensação ou o gozo de imagens mitológicas, nem o sonho, nem o uso de palavras sublimes, como se nelas a realidade estivesse inclusa. Só na ação sobre si mesmo e sobre o mundo, em suas realizações é que ele adquire consciência de ser ele próprio, é que ele domina a vida e se ultrapassa. Isso ocorre de duas maneiras: por ilimitado progresso no mundo e pelo infinito que se faz presente a ele em sua relação com o transcendente.

O progresso no domínio da natureza começa com a humanidade, com a invenção do instrumento e a arte de fazer fogo. Algo se acrescenta à necessidade vital: a coragem de querer conhecer, a audácia do marinheiro, a vontade inquebrantável de aventura, a aspiração jamais satisfeita que transforma as metas alcançadas em novos pontos de partida.

A mitologia grega via em Prometeu o titã desafiador dos deuses. Esquilo nos diz que Zeus desejava aniquilar os homens, dos quais Prometeu se fêz defensor. Para ajudá-los a se defenderem, Prometeu lhes fêz dádiva do fogo e lhes ensinou a dominarem artes mil, de modo que pudessem produzir aquilo de que tinham necessidade para viver: ensinou-lhes a técnica de construir casas e embarcações; o uso do ferro, da prata e do ouro; a maneira de domar o touro que puxará a charrua e de domar o cavalo, que os transportara a pontos longínquos. Ensinou-lhes os números, as ciências, a arte de escrever. Dando-lhes a oportunidade de criá-la através da ação refletida, Prometeu, em verdade, deu vida aos homens. No pensamento de Zeus, a ordem do mundo não comportava essa independência. Ao titã Prometeu e a si mesmo o homem deve o que é. “Nada é mais poderoso do que o homem”, diz Sófocles.

Entretanto, nas potencialidades do homem reside também o que lhe é fatal. Dante descreve a última aventura de Ulisses. Com seus companheiros, ele transpõe as fronteiras que as Colunas de Hércules assinalavam para os homens. Por quê? “Para que nada permaneça oculto a meus olhos”. E aos companheiros ele diz: “Não recuseis ao que vos resta de vida o prazer de verificar se teremos êxito no alcançar terras desabitadas. Não tendes vida para viver como os animais, porém para perseguir a glória e a ciência”. O mar os engole após uma tempestade que se desencadeia ao largo da montanha do purgatório. Do fato ninguém tinha conhecimento antes que Ulisses o referisse a Dante no Inferno.

A visão de Dante nos leva a refletir sobre os dias que correm. Em nosso tempo, a navegação em mares austrais é fato corriqueiro. Em 1957, o primeiro satélite artificial da Terra, o sputnik russo, foi lançado ao espaço. O entusiasmo se manifestou, especialmente quando, pouco depois, um satélite artificial tripulado trouxe o cosmonauta de volta à Terra, são e salvo. Ali estava ele, em carne e osso e referia coisas que jamais o homem havia visto. Cabia supor que o homem fosse tomar posse do cosmos, que não mais se encontrasse ligado à Terra, que não passaria de sua pátria de origem. Há dezenas de milhares de anos, o homem se arriscou sobre a água em sua mais primitiva embarcação. E veio a circunavegar o globo. Hoje ele se lança ao espaço com sua primeira embarcação e, um dia, dominará o espaço como domina a Terra.

Palavras desse tipo são ilusórias. Embora, com toda probabilidade, o homem deva ir mais longe do que já foi. barreiras físicas últimas permanecem. O homem não penetrou no cosmos, porém, simplesmente, em nosso sistema solar. Jamais poderá adentrar o universo e aí assentar pé. A distância entre o nosso sol e o mais próximo dos sóis (que se encontra na constelação de Centauro) — distância ridícula na escala do universo — é de quatro anos-luz. Condições biológicas da vida humana impedem a transposição de tal distância. Isso não é uma desgraça, é uma limitação.

A vontade de conhecer — ao mesmo tempo corajosa e temerária — do Ulisses de Dante corresponderam, na aurora dos tempos modernos, as viagens dos descobridores e exploradores. A conquista do globo inaugurou uma fase nova e grandiosa na história do homem. Sem embargo, hoje, com o sputnik alterou-se o sentido dessa vontade de conhecer. As perigosas escaladas dos alpinistas têm para eles mais sentido que as perigosas explorações dos cosmonautas (como o comprovam as decepcionantes exposições que estes publicam). Nas viagens ao espaço, tudo quanto importa é a perfeição tecnológica, que suscita prestígio vão, comparável a records num esporte mecanizado.

Em nosso tempo, tornou-se realidade, sob forma nova, a visão de Dante (ruína precipitada pela temeridade de quem pode e quer conhecer). Com efeito, o avanço técnico atingiu ponto em que não se exclui a possibilidade de que a humanidade se destrua a si mesma.

Também num outro sentido quer o homem ultrapassar-se: não avançando pelo mundo, mas projetando-se para além do mundo; não na insaciável e sempre renovada inquietude de sua existência temporal, mas na quietude da eternidade, no tempo que abole o tempo.

Quietude, sob forma de duração no tempo, não é concedida ao homem. Significaria o fim dos tempos. O instante de repouso no mundo não pode pôr-se como realização. Tudo continua. No instante perfeito, quando este é concedido ao homem, brilha a luz do repouso eterno.
Aquele instante testemunha a calma escondida em nós, que não se projeta no tempo.

Essa calma é o conteúdo da transcendência e nosso destino é sermos nela recebidos, com os companheiros que tivemos. A imutabilidade de Deus é uma imagem dessa quietude. É nessa direção que o homem tende a se ultrapassar, não mais avançando no mundo mas caminhando para a transcendência, inacessível a nosso conhecimento e inefável.

Enquanto não experimentou a sensação de ver-se soterrado e não optou por “passar além”, em direção à transcendência, o homem não é verdadeiramente ele próprio. Não passa do animal racional a que está acorrentado. Para contraditar essa imagem que o diminui, o homem foi chamado “o ser que contempla Deus”. Somente em relação com a transcendência é que o homem toma consciência de ser livre, na forma de vida superior exemplificada por homens de todas as raças e todos os tempos.
Quando começa a refletir, o homem toma consciência de que não dispõe de certeza, nem de apoio. É preciso que nós, homens, tenhamos coragem, quando nos pomos a refletir sem vendas nos olhos. Devemos avançar no escuro, de olhos abertos, proibindo-nos de renunciar ao pensamento.

A coragem engendra a esperança. Sem esperança, não há vida. Enquanto há vida, há sempre um mínimo de esperança, que brota da coragem.

A esperança se mostra ilusória quando o existente naufraga. Só amparado na coragem pode o homem caminhar de fronte erguida para o seu fim.
A esperança só tem sentido em relação ao existente. Que ocorre, porém, se a esperança desaparece no tempo? Aquela disposição é uma confiança despida de objeto, confiança sem certeza, não concedida a todos e não concedida a todo momento: “estar maduro é tudo” (Shakespeare).

Essa confiança pode faltar-nos. Não resisto à realidade nua. Se a confiança me é dada, não me devo sentir seguro de mim mesmo. Se desejo conservar minha integridade de homem ligado aos homens e se deles espero compaixão para uma falha eventual, não posso esquecer os demais.

Vimos que não há resposta satisfatória para a indagação a propósito do que o homem é. As potencialidades do homem enquanto homem permanecem ocultas em sua liberdade. Não cessarão de manifestar-se pelas conseqüências dessa liberdade. Enquanto existirem, os homens serão seres empenhados na conquista de si mesmos.
Quem se interroga a respeito do homem gostaria de ver dele esboçar-se imagem verdadeira e válida, mas isso não é possível. A dignidade do homem reside no fato de ele ser indefinível. O homem é como é, porque reconhece essa dignidade em si mesmo e nos outros homens. Kant o disse de maneira maravilhosamente simples: nenhum homem pode ser, para outro, apenas meio; cada homem é um fim em si mesmo.


Texto selecionado pelo professor Lucio Lopes, com fins de uso pedagógico, da obra de JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico.( Tradução: Título do original: KLEINE SCHULE DES PHILOSOPHISCHEN DENKENS © R. Piper & Co. Verlag, München 1965 3.ª edição MCMLXXVI - de: Leonidas Hegenberg Octanny Silveira da Mota). São Paulo: EDITORA CULTRIX LTDA.


Quem é Karl Jaspers?
Vida


Karl Jaspers filho de um banqueiro protestante, nasceu em Oldenburg, na Alemanha aos 23 de fevereiro em 1883 e morreu na Basiléia, Suíça, em 1969.Tendo terminado os estudos secundários, Jaspers foi encaminhado pelo pai aos estudos de direito, que ele, porém abandonou depois de três semestres, para estudar medicina. Depois de ter-se formado, em 1909, pela Universidade de Heildeberg, tornou-se assistente voluntário na clínica psiquiátrica da mesma universidade.

Então, antes de entregar-se à Filosofia foi médico, tendo-se dedicado de modo especial à psiquiatria. “O trânsito da psiquiatria à metafísica caracteriza já em parte, a atitude de Jaspers, que é, desde logo, uma atitude de insatisfação para com os saberes particulares. Estes saberes não podem dar uma luz suficiente sobre o que verdadeiramente interessa ao homem: a existência humana, sua própria existência”.

Sua formação intelectual foi simultaneamente científica e filosófica. Recebeu seu grau de doutor em 1909 e já em 1921 era professor pleno de filosofia em Heildeberg. Perdeu sua cátedra em 1937, da qual foi expulso pelo regime nacional-socialista por razões políticas. A ela voltou em 1945, sendo que em 1949 aceitou um convite da Universidade de Basiléia até lecionar.

Figura entre os primeiros pensadores contemporâneos que se apresentaram em público com trabalhos de orientação existencialista.

Suas obras mais importantes são: Filosofia (em 3 volumes), Orientação Filosófica do Mundo, Explicação da Existência, Metafísica, Razão e Existência, A Fé Filosófica.

Esses escritos podem ser distribuídos em 3 diferentes épocas: a 1ª de preparação na qual o médico se inicia nos problemas filosóficos. A 2ª de plenitude em que são explanados e desenvolvidos os diferentes aspectos de seu pensamento. A 3ª é de aprofundamento: “Jaspers retorna aos temas fundamentais de seu pensamento em companhia muitas vezes dos Grandes filósofos do passado".

Em nosso século, poucos são os pensadores como Jaspers, em que a vida se apresenta extremamente coerente com o pensamento. Também por isso Jaspers pode ser considerado um grande pedagogo. Em suas notas biográficas, recorda que o pai o educara para ser sempre coerente com ele mesmo e para agir de acordo com a razão, donde a sua postura de revolta contra toda concepção cultural, não só política, mas também moral e religiosa, que pretenda apresentar-se com caráter de validade absoluta e, portanto, em sentido autoritário.

    Tutankhamon/malária
    Tutankhamon morreu de malária
    Reportagem publicada em 16/02/2010 Última atualização 18/02/2010 14:47 TU
    RFI-Português

    Tutankhamon, um dos mais famosos faraós egípcios, morreu aos 19 anos, vítima de malária e de uma má formação óssea. É o que revela um estudo divulgado nos Estados Unidos. Até o momento, a morte precoce do faraó, que viveu há 3 mil anos, permanecia um mistério. Pesquisadores chegaram a especular sobre a possibilidade de uma doença genética. Para chegar à conclusão da causa da morte, os cientistas usaram testes de DNA e também compararam as análises dos restos mortais de Tutankhamon com os de outras múmias egípcias, 11 delas de membros da família real.


    O cruzamento de dados genéticos das múmias reais também permitiu identificar como pai de Tutankhamon o faraó Akenaton, esposo da rainha Nefertite. O túmulo intacto de Tutankhamon foi descoberto em 1922 no Vale dos Reis pelo britânico Howard Carter. Desde então, tornou-se uma das maiores pérolas da arqueologia. Com a utilização da técnica do carbono 14, que estabelece com precisão a idade dos restos mortais de um cadáver, a ciência tem conseguido nas últimas décadas desvendar novos mistérios do período dos faraós.

    Saiba Mais: Tutancâmon (também conhecido pela grafia Tutankhamon) foi um faraó do Antigo Egito que faleceu ainda na adolescência.

    Era provavelmente filho e genro de Akhenaton (o faraó que instituiu o culto de Aton, o deus Sol) e filho de Kiya, uma esposa secundária de seu pai. Casou-se aos 10 anos com Ankhsenpaaton, sua meio-irmã que, mais tarde, trocaria o seu nome para Ankhsenamon, sendo assim, genro de Nefertiti, mãe de Ankhsenpaaton. Assumiu o trono quando tinha cerca de doze anos, restaurando os antigos cultos aos deuses e os privilégios do clero (principalmente o do deus Amon de Tebas). Morreu em 1324 a.C., aos dezenove anos, sem herdeiros - com apenas nove anos de trono - "o que levou especialistas a especularem sobre a hipótese de doenças hereditárias na família real da XVIII dinastia", na opinião de Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito.

    Devido ao fato de ter falecido tão novo, o seu túmulo não foi tão suntuoso quanto o de outros faraós, mas mesmo assim é o que mais fascina a imaginação moderna pois foi uma das raras sepulturas reais encontradas quase intacta. Ao ser aberta, em 1922, ela ainda continha peças de ouro, tecidos, mobília, armas e textos sagrados que revelam muito sobre o Egipto de 3400 anos atrás.

    fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tutanc%C3%A2mon

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