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FILOPARANAVAÍ

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

EDUCAÇÃO PÚBLICA: MEC divulga resultados do Enem 2013



Os candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013 já podem consultar o resultado do exame. O Ministério da Educação (MEC) divulgou no fim da noite dessa sexta-feira (3) as notas na internet. Para consultar o resultado, o estudante deve usar a senha do Enem e o número de inscrição ou o CPF. Quem perdeu a senha pode recuperá-la no próprio site. No ano passado, cerca de 5 milhões de estudantes fizeram o Enem.

ACESSE AQUI O RESULTADO: inep.gov.br


Aqueles que têm dúvida sobre o gabarito, podem consultá-lo aqui. No entanto, é preciso lembrar que no Enem, a correção é feita usando a metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI), em que o valor de cada questão varia conforme o percentual de acertos e erros dos estudantes naquele item. Assim, um item em que grande número dos candidatos acertaram será considerado fácil e, por essa razão, valerá menos pontos. Já o estudante que acertar uma questão com alto índice de erros ganhará mais pontos por aquele item. Dessa forma, não é possível calcular a nota final apenas contabilizando o número de erros e acertos em cada uma das provas. 

Para ajudar a entender o cálculo da nota, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) disponibilizou uma ferramenta no site, onde é possível verificar, de acordo com a pontuação, as competências dominadas e as que se tem dificuldade. 

Os candidatos ainda não têm acesso ao espelho da redação, onde serão disponibilizadas as notas individuais em cada uma das cinco competências exigidas no texto. O Inep ainda não tem previsão de data para a divulgação do espelho da redação. No ano passado, ele foi divulgado um mês após a nota da prova. A divulgação é apenas para fins pedagógicos. Nem a nota divulgada nesta sexta-feira, nem a correção da redação cabem recurso. 

A nota do Enem pode ser usada para a participação em programas como o Sistema de Seleção de Unificada (Sisu) que seleciona estudantes para vagas no ensino superior público; o Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferece bolsas em instituições privadas; e o Sistema de Seleção Unificada do Ensino Técnico e Profissional (Sisutec), que seleciona estudantes para vagas gratuitas em cursos técnicos. Além disso é pré-requisito para firmar contratos pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e para a obtenção de bolsas de intercâmbio pelo Programa Ciência sem Fronteiras. 

As vagas são ofertadas por meio de editais. O primeiro, do Sisu, já teve o cronograma divulgado. Na segunda-feira (6) serão abertas as inscrições, que vão até as 23 horas e 59 minutos do dia 10 de janeiro, no horário de Brasília. O resultado da primeira chamada será divulgado no dia 13 de janeiro e o da segunda, no dia 27. No site do programa estão disponíveis as vagas ofertadas. 
mapaitensenem.inep.gov.br


Fonte: REDEBRASILATUAL

Filoparanavaí 2014

FILOSOFIA DA CIÊNCIA: Um excelente texto para compreender um pouco mais dessa complexa área de investigações filosóficas





Observação: Texto no Português de Portugal
Indução e filosofia da ciência
A filosofia da ciência é uma das mais velhas subdivisões da filosofia, remontando pelo menos a Aristóteles. Está hoje em rápido crescimento, uma vez que os grandes avanços científicos do último século têm levado os filósofos a pensar mais cuidadosamente sobre a ciência. Estes filósofos poderão vir a influenciar o futuro da ciência. A filosofia da ciência implica reflexão filosófica sobre a ciência. Os filósofos da ciência não colocam questões científicas — essa é a tarefa dos cientistas. Em vez disso, os filósofos da ciência enfrentam questões sobre a ciência. Por exemplo: o que é a ciência? O que distingue a ciência da não ciência? Qual o papel da observação na ciência? Como progride a ciência? Outras questões focam-se nos conceitos que a ciência aplica. Por exemplo, o que é uma lei da natureza? Outra preocupação filosófica é a de se saber até que ponto temos justificação para acreditar que as entidades inobservadas são reais. Devemos supor que os electrões existem realmente, ou são apenas "ficções" úteis? 

O equilíbrio dos indícios

Algumas das questões mais centrais e importantes colocadas por filósofos da ciência dizem respeito ao problema da confirmação. Os cientistas constroem teorias que pensar ser confirmadas pelo que observam. Essa confirmação, no entanto, faz-se por graus. Uma teoria pode ser ligeiramente confirmada por alguma evidência ou pode ser confirmada mais fortemente. Supomos que quanto mais fortemente uma teoria científica for confirmada pela evidência disponível, mais racional se torna nela acreditar. Uma pergunta relativa à confirmação em que podemos pensar é a seguinte: o que faz uma teoria ser mais fortemente confirmada do que outra? Outra pergunta, mais fundamental, é a de saber se as nossas teorias científicas podem ser alguma vez confirmadas. O filósofo do século XVIII David Hume argumentou que apesar de supormos que aquilo que observámos até hoje confirma as nossas teorias científicas, tais observações não fornecem de facto qualquer confirmação. Se Hume tiver razão, todas as teorias, quer a teoria de que a Terra gira em torno do Sol, quer a teoria de que o núcleo da Terra é feito de queijo, são igualmente racionais. O problema que Hume levanta é conhecido como o "problema da indução". Trata-se de um problema que numerosos pensadores na filosofia tentaram enfrentar. 

O problema da indução

Todos nos baseamos enormemente no raciocínio indutivo. Supomos que em virtude de o Sol ter nascido todos os dias no passado, temos boas razões para supor que nascerá amanhã. Porém, se o filósofo David Hume tiver razão, o passado não fornece qualquer espécie de pista para o que acontecerá no futuro. 

Grandes esperanças

A forma de argumento mais fiável é a dedução. Num argumento dedutivo válido, as premissas implicam logicamente a conclusão. Tomando um exemplo simples: 

Sócrates é homem.
Todos os homens são mortais. 
Logo, Sócrates é mortal. 

Se dizemos que as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa é porque nos envolvemos numa contradição. 

Num argumento indutivo, por contraste, as premissas não fornecem supostamente uma garantia de que a conclusão é verdadeira. Em vez disso, espera-se que as premissas forneçam apenas indícios de que a conclusão é verdadeira. Eis um exemplo: 

O ganso 1 é branco. 
O ganso 2 é branco. 
O ganso 3 é branco. 
O ganso 1000 é branco. 
Portanto, todos os gansos são brancos. 

Se observamos mil gansos e se todos eles são brancos, concluímos que todos os gansos são brancos. Supomos que as premissas do nosso argumento tornam razoável aceitar a conclusão. Porém, é claro que não há contradição lógica em supor que apesar de os primeiros mil gansos observados serem brancos, o próximo possa não sê-lo. Baseamo-nos a toda a hora em argumentos indutivos. Quando fazemos uma previsão do que acontecerá no futuro ou acerca do que está a acontecer, ou aconteceu, em zonas do universo que não observámos, baseamo-nos no raciocínio indutivo para justificar as nossas posições. Por exemplo, suponho que a cadeira onde estou sentado aguentará o meu peso. Que justifação tenho para acreditar nisso? Bem, a cadeira sempre aguentou o meu peso no passado. Portanto, concluo que aguentará também desta vez. É evidente que o facto de a cadeira ter aguentado comigo no passado não me dá garantia lógica de que agora aguentará. É possível que a cadeira se desmorone. Ainda assim, supomos que o facto de a cadeira ter sempre aguentado comigo me dá razões para acreditar que continuará a fazê-lo. Os cientistas também se baseiam enormemente no raciocínio indutivo. Constroem teorias que valem supostamente em toda a parte e em qualquer época, incluindo o futuro. Justificam as teorias apresentando as suas observações. Contudo, as afirmações acerca do que foi observado não implicam logicamente as afirmações acerca do que acontecerá no futuro. Assim, se os cientistas querem justificar estas teorias, não o podem fazer através de argumentação dedutiva. Em vez disso, têm de basear-se no raciocínio indutivo. 

Não é, portanto, a razão o guia da vida, mas o hábito que por si só determina em todos os caso a mente a supor o futuro conforme ao passado. David Hume, Tratado Sobre A Natureza Humana 

É a natureza uniforme?

O filósofo David Hume coloca a questão de saber se podemos ou não justificar alguma vez este tipo de conclusões acerca do que não observámos. Hume afirma que quando raciocinamos indutivamente fazemos um pressuposto: pressupomos que a natureza é uniforme, pressupomos que existem os mesmos padrões gerais subjacentes à natureza. O que aconteceria se não partíssemos deste pressuposto? Nesse caso, não poderíamos tirar as conclusões que tiramos. Eu não concluiria que a cadeira onde me sento agora aguentará comigo, em virtude de ela ter sempre aguentado comigo no passado. É porque acredito que as mesmas regularidades gerais subjazem à natureza, incluindo no futuro, que suponho que a cadeira aguentará comigo da próxima vez que nela me sentar. Mas é aí que Hume detecta um problema. Sempre que raciocinamos indutivamente pressupomos que a natureza é uniforme. Porém, se queremos justificar a nossa crença de que a indução é um método fidedigno para chegar a crenças verdadeiras, temos de justificar este pressuposto. 

Justificar as nossas crenças

Hume indica que há duas possibilidades. Podemos tentar justificar a ideia de que a natureza é uniforme recorrendo à experiência ou podemos justificá-la independentemente da experiência, afirmando porventura que se trata de uma verdade lógica. O problema com esta segunda sugestão é bastante óbvio. A ideia de que a natureza é uniforme não é claramente uma verdade lógica. Não há contradição lógica em supor que, embora a natureza tenha sido uniforme até agora, possa tornar-se de repente uma confusão caótica e desarrumada, onde as coisas se comportam ao acaso e de forma imprevisível. Não resta senão uma possibilidade para justificar o pressuposto de que a natureza é uniforme. Temos de fazê-lo apelando à experiência. Uma forma de levar isso a cabo seria observar directamente tudo o que se passa na natureza. Desse modo poderíamos simplesmente observar que ela é uniforme em todas as suas partes. Mas é claro que não podemos fazer isto. Podemos observar directamente apenas uma pequena porção do universo. E é certo que não podemos observar directamente o futuro. Portanto, a nossa justificação terá de recorrer a uma inferência baseada no que pode ser observado directamente. E por que não podemos testemunhar que a natureza é aqui e agora uniforme e, depois, concluir que a natureza é provavelmente uniforme em todas as outras circunstâncias?

O problema é, obviamente, que este raciocínio é ele próprio indutivo. Teríamos de nos basear num raciocínio indutivo para tentar mostrar que o raciocínio indutivo é fidedigno. Mas isto é certamente uma justificação circular inaceitável. Seria como confiar nas afirmações de um doente mental quando este assevera ser digno de confiança. Não é de modo algum uma justificação. Hume conclui que embora raciocinemos indutivamente, não temos realmente qualquer justificação para supor que o raciocínio indutivo conduz provavelmente a conclusões verdadeiras. Não temos fundamentos para supor que as coisas continuarão a comportar-se como no passado. Sim, acredito que esta cadeira aguentará comigo da próxima vez que nela me sentar, que esta caneta cairá quando a largar e que o Sol nascerá amanhã, como sempre aconteceu. Mas, espantosamente, a verdade é que tenho tanta razão para supor que a cadeira se desmoronará, como para acreditar que a caneta se erguerá vagarosamente ou que amanhã de manhã um panda luminoso insuflável com milhões de quilómetros de largura se erguerá no horizonte. A conclusão de Hume parece louca. Em condições normais, consideraríamos louca uma pessoa que acredita que um panda com milhões de quilómetros de largura tomará o lugar do Sol. Mas se Hume tiver razão, esta crença "louca" não é menos razoável do que a nossa própria crença de que será o Sol a erguer-se e não o panda. As previsões de um louco não são mais nem menos razoáveis do que as dos maiores cientistas. 

Porém, funciona" 

Pode ser tentador responder ao problema da indução de Hume notando que o raciocínio indutivo tem tido um grande sucesso até agora. Baseando-se no raciocínio indutivo os cientistas alcançaram coisas extraordinárias, desde as lâmpadas eléctricas e computadores, às viagens espaciais e à manipulação genética. Todos estes feitos grandiosos da ciência e da engenharia dependem do raciocínio indutivo. Não é isto fundamento para supor que o raciocínio indutivo é um método fidedigno para alcançarmos crenças verdadeiras? A dificuldade com esta justificação da indução é uma vez mais que ela própria é um raciocínio indutivo. Refere que o raciocínio indutivo tem sido extremamente bem-sucedido até hoje e conclui que continuará provavelmente a ser bem-sucedido no futuro. Estamos outra vez a cair no problema da circularidade: usar a indução para justificar a indução é como confiar no que diz um anúncio porque o próprio anúncio garante ser de confiança. Baseando-se em raciocínios indutivos os cientistas alcançaram resultados estupendos. O Homem caminhou na Lua. Não mostra isto que a indução é fidedigna? 

Apelo à racionalidade
Dado que acreditamos que temos justificação para tirar conclusões acerca do futuro e que as previsões dos grandes cientistas estão mais provavelmente próximas da verdade do que as de um louco, é espantoso que Hume tenha aparentemente mostrado que tais crenças são irracionais. Os filósofos continuam de volta deste problema espinhoso. Alguns sugeriram o seguinte. Como a palavra "racional" significa "raciocionar dedutiva ou indutivamente", não precisamos de justificar a convicção "a indução é racional", tal como não precisamos de o fazer em relação à crença de que nenhum solteiro é casado ou de que todas as mães são mulheres. Estas proposições são, se quisermos, analíticas ou "verdadeiras por definição". Uma dificuldade com esta manobra é que, ao aceitarmos que "a indução é racional" é "verdadeira por definição", estamos apenas a adiar o problema. Hume pergunta-nos como podemos saber que a indução nos pode conduzir fidedignamente a crenças verdadeiras acerca do futuro. Insistir na ideia de que a indução é racional porque é "verdadeira por definição" apenas faz levantar a questão: e que fundamento temos para supor que "ser racional" conduzirá fidedignamente a crenças verdadeiras acerca do futuro? Porquê supor que "racionalidade" será um guia mais fidedigno para o futuro do que as suposições de um louco? O problema da indução levou alguns pensadores a procurarem formas alternativas de estabelecer verdades científicas. 

A teoria de Hume é assim tão radical?

Para aqueles que só há pouco tiveram contacto com a filosofia não é fácil perceber quão radical é realmente a posição de Hume sobre a indução. A conclusão a que ele chega não é, como pode parecer à primeira vista, que não podemos estar completamente certos quanto ao que irá acontecer no futuro. Todos podemos ver que há pelo menos alguma margem de erro nas nossas previsões. A conclusão de Hume é que não temos fundamento para supor que as coisas continuem a comportar-se como até agora se comportaram. Se Hume tiver razão, a ciência é no seu todo uma actividade irracional e as previsões feitas pelos cientistas não são mais racionais do que as de um louco. Os "cientistas loucos" só existem na ficção, mas de acordo com Hume, o raciocínio indutivo usado por todos os cientistas é de certa maneira louco, visto que não tem uma base racional. 

Falsificacionismo

O filósofo Karl Popper oferece uma solução radical para o "problema da indução" de Hume e para a nuvem de dúvida que este problema lança sobre as teorias científicas. De acordo com Popper, a ciência não se baseia na indução, progredindo em vez disso através da "falsificação" de teorias. 

Eliminar o erro

Suponhamos que acredito que todos os gansos são brancos. Mas depois, numa visita à Nova Zelândia, vejo um ganso negro. A minha observação de que existe um ganso negro falsifica — quer dizer, torna falsa — a minha teoria original de que todos os gansos são brancos. Note-se que aqui o raciocínio é dedutivo e não indutivo. Observo que é verdadeiro que existe um ganso não branco. A verdade desta afirmação implica que a minha teoria "Todos os gansos são brancos." é falsa. A perspectiva de Karl Popper é que a ciência, em vez de progredir através de teorias que são confirmadas indutivamente, progride na verdade através de teorias que são falsificadas por raciocínio dedutivo. Os cientistas constroem teorias a partir das quais deduzem certas consequências que podem ser submetidas a testes. As teorias que não são falsificadas pelos testes mantêm-se, as que são falsificadas põem-se de parte, construindo-se no seu lugar teorias que escapam a essa falsificação. Também estas são depois testadas e aquelas que se mostram falsas, postas de parte, e assim sucessivamente. Note-se que, como a falsificação não envolve raciocínio indutivo, o problema da indução de Hume é contornado. A concepção de Popper sobre o modo como a ciência funciona em vez de resolver o problema da indução, evita-o. 

Encontrar boas teorias
A teoria de Popper não diz que são igualmente boas todas as teorias que ainda não foram falsificadas. Algumas teorias são melhores do que outras. O que faz uma teoria não falsificada ser preferível a outra é o facto de poder ser mais facilmente falsificada. Mas o que faz uma teoria ser mais facilmente falsificada do que outra? Uma forma de uma teoria ser mais facilmente falsificada deve-se à sua maior abrangência. Consideremos estas duas teorias acerca da gravidade: Todos os objectos caem em direcção ao centro da Terra. Em Londres todos os objectos caem em direcção ao centro da Terra. A primeira teoria é mais abrangente. Prevê tudo o que a segunda prevê e prevê ainda muito mais. Sendo que prevê mais, é mais fácil de falsificar do que a segunda teoria. Uma teoria é também mais facilmente falsificada se fizer previsões mais precisas. Consideremos a afirmação: Todas as pessoas felizes usam cores brilhantes. Trata-se de uma asserção bastante vaga. O que é exactamente a felicidade e como podemos medi-la? Onde está precisamente a fronteira entre ser feliz e não o ser? O que se deve considerar brilhante? Estas e outras questões levantam-se assim que resolvemos testar a afirmação. E é claro, dada a sua vagueza, alguém que esteja interessado em defendê-la pode sempre fugir ao que parece uma falsificação, dizendo "Bem, não era propriamente isso que queria dizer com "brilhante"", ou "Esta pessoa não é propriamente alguém que eu consideraria "feliz"". A vagueza faz uma afirmação ser muito mais difícil de falsificar. Uma teoria que faz previsões precisas e sem ambiguidades acerca de fenómenos quantificáveis e mensuráveis é muito mais fácil de falsificar. Por exemplo, a teoria de que todas as pedras pesam precisamente 500g pode ser facilmente falsificável com a ajuda de uma simples balança. Os instrumentos de medida, como os manómetros ou os termómetros, fornecem aos cientistas ferramentas eficazes para testar as suas teorias. 

Karl Popper sobre a ciência genuína

De acordo com Karl Popper, qualquer teoria científica genuína será falsificável. Quer dizer, haverá uma possível observação que poderá falsificá-la. Na opinião de Popper, uma teoria verdadeiramente científica faz uma afirmação positiva acerca do modo como o mundo funcionará. Corre o risco de ser falsa — o mundo pode não funcionar como a teoria diz. As posições não falsificáveis não permitem fazer este tipo de afirmações, pois são compatíveis com qualquer modo de ser do mundo, seja ele qual for. Por isso, carecem de qualquer conteúdo empírico. Por exemplo, dizer que "As esmeraldas são verdes ou não são verdes" é uma afirmação não falsificável — o que quer que seja que observemos será compatível com a sua verdade. Portanto, não é genuinamente científica. Popper sugere que esta é a maneira de distinguir entre as teorias que são genuinamente científicas e as que são apenas pseudocientíficas. As teorias genuinamente científicas são falsificáveis. Teorias que dizem ser científicas, mas que não são falsificáveis, são falsa ciência. De acordo com Popper, nem a teoria da história de Marx, nem a teoria do inconsciente de Freud podem ser sujeitas ao teste da falsificabilidade. Popper argumenta que qualquer que sejam os contra-indícios que possamos recolher contra as teorias de Marx ou de Freud, há sempre uma maneira de a teoria se lhes acomodar. Segundo Popper, estas teorias não são más teorias científicas. Não são sequer teorias científicas. 



Evitar o "ad hoc"
Suponhamos que acredito que "toda a madeira arde". Faço então uma encomenda de lenha e nenhum tronco arde. Esta observação falsifica a minha teoria de que toda a madeira arde. Como posso ripostar? Uma possibilidade seria emendar a minha teoria original para: Toda a madeira arde excepto a que foi encomendada no último Domingo. Contrariamente à minha teoria original, esta nova teoria não pode ser falsificada pela lenha recebida no Domingo. Mas os falsificacionistas não consideram desejável este género de modificação. Quanto mais falsificável melhor. Uma teoria não falsificável que faz previsões precisas e mensuráveis é melhor do que uma que é vaga e confusa. Instrumentos calibrados ajudam-nos a falsificar algumas teorias. E a razão disso é que se trata de uma solução ad hoc (um termo do latim que significa "para este propósito"). É inaceitável porque nada acrescenta à teoria original em termos de consequências futuras testáveis — não posso, na verdade, dispor de outra encomenda de lenha entregue no mesmo Domingo de modo a fazer um teste. Porém, nem todas as modificações são ad hoc. Suponhamos que observo que a madeira que não arde está molhada. Posso testar amostras de madeira seca e molhada para examinar se a minha nova hipótese é correcta. Um exemplo concreto de um desses raciocínios ad hoc liga-se à teoria de Aristóteles de que todos os corpos celestes são perfeitamente esféricos. Galileu desenvolveu um telescópio que mostrava a existência de montanhas e vales na superfície lunar. Esta observação parecia falsificar a teoria de Aristóteles, visto que parecia provar que pelo menos a Lua não era perfeitamente esférica. Mas alguns tentaram defender a teoria de Aristóteles modificando-a ligeiramente. Afirmaram que tem de existir uma substância invisível que preencha os vales lunares até ao topo das montanhas. Portanto, a Lua é, afinal de contas, esférica. Este desenvolvimento da teoria de Aristóteles foi ad hoc porque nada acrescentou a essa teoria em termos de possíveis consequências que pudessem ser testadas. Ninguém podia fazer o que quer que fosse na altura para testar a existência ou não da dita substância invisível. De modo algo sarcástico, Galileu afirmou então que essa substância realmente existia, só que em cima das montanhas, fazendo com que a lua fosse ainda mais acidentada do que parece. 

Onde falha a falsificação

Uma dificuldade óbvia que se pode levantar ao falsificacionismo é a sua aceitação da ideia de que não temos quaisquer justificação para supor qualquer teoria científica como verdadeira. Esta ideia é, no mínimo, altamente contra-intuitiva. Não seria preferível se pudéssemos divisar outra solução para o problema da indução, uma solução que nos permitisse evitar esta conclusão bizarra? É claro que, em resposta, o falsificacionista pode insistir que não há uma solução melhor. Outra dificuldade é que o falsificacionismo não fornece uma descrição adequada do modo como a ciência progride ou deve progredir. Tomemos, por exemplo, a teoria de Copérnico de que a Terra se move em redor do Sol. Quando foi pela primeira vez proposta, os críticos apontavam duas observações que pareciam falsificar a teoria de Copérnico. Primeiro, se a Terra se move, um objecto que cai de uma torre alta devia cair fazendo um ângulo e não a direito, pois se a Terra se move durante o período da queda, o objecto devia cair a uma distância equivalente relativamente ao ponto exactamente abaixo de foi largado. Porém, é claro que os objectos caídos de torres caem sempre na vertical. Esta observação parece imediatamente falsificar a teoria copernicana. Segundo, se a Terra anda em volta do Sol, as estrelas fixas deviam ter um movimento aparente para trás e para diante ao longo do nosso campo de visão durante o período de um ano (do mesmo modo que se olhássemos directamente para norte andando à volta de um poste de iluminação, as casas ao longo da rua se moveriam para trás e para diante ao longo do nosso campo de visão). Mas nenhum movimento desse género, a paralaxe, foi observado. A não observação da paralaxe também parece falsificar a teoria copernicana. Alguns tentaram defender a teoria copernicana insistindo que as estrelas estão demasiado longe para que a paralaxe seja detectada pelos instrumentos da época (o que se mostrou ser verdade). Mas, é claro, foi um argumento ad hoc. Não havia nesse tempo maneira de poder falsificar esta nova ideia sobre a distância das estrelas fixas. Apesar disso, a teoria de Copérnico não foi rejeitada e ainda bem. Os cientistas provaram nos anos seguintes que Copérnico estava certo e que ambas as objecções eram infundadas. Uma vez que o falsificacionismo implica que a teoria de Copérnico devia ter sido rejeitada, parece que o próprio falsificacionismo está errado, pois não consegue descrever correctamente o modo como a ciência funciona. Mesmo que o falsificacionismo não forneça uma descrição correcta do modo como a ciência procede ou deve proceder, o teste da falsificação mantém a sua importância. Muitos teorizadores que se afirmam "científicos" são dificilmente falsificados porque não fazem previsões claras e sem ambiguidades. Como resultado, aconteça o que acontecer, podem sempre afirmar que as suas teorias não foram falsificadas. Os astrólogos, por exemplo, podem habitualmente sustentar que se mostrou que a sua previsão é verdadeira.

TEXTO DE Stephen Law Retirado de Philosophy (Londres, 2007, pp. 179-189). Tradução Carlos Marques. Versão brasileira, versão portuguesa. Publicação de origem:criticanarede.com

Filoparanavaí 2020

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SOMOS TODOS E TODAS FILÓSOFOS E FILÓSOFAS?





Uma reflexão necessária: 
A HISTÓRIA DA FILOSOFIA 
E A FILOSOFIA NA HISTÓRIA: 
Para quê Filosofia? 
por Lucio LOPES


Sem PENSAR CRITICAMENTE o passado e sem utilizar todo o “capital” de conhecimentos, em nosso presente, tornamo-nos neste tempo atual de tantas crises, meros filósofos sem objetivos e errantes mundo afora. Deixamos de cumprir nosso papel de 'peregrinos do conhecimento' capazes de fazer a diferença através de uma ferramenta tão salutar e original, sem dizer que diretamente ligada a mais das sublimes faculdades humanas, como referendado por Aristóteles em "Ética a Nicômaco", que é a Razão.

Filosofia não é uma atividade intelectual acessível apenas aos "filósofos profissionais e capazes de criarem grandes sistemas", visto que, num certo sentido, "todos os homens são 'filósofos'" . 

Em Gramsci (
GRAMSCI, Antonio. Introdução à Filosofia da Práxis. 29ª ed, Lisboa - Portugal: Editora Antídoto, 1986.), p. 11, o texto original explicita esta conjetura mais claramente) podemos ler:

“É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Deve-se, portanto, demonstrar, preliminarmente, que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’ peculiar a ‘todo o mundo’, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom-senso; 3) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e agir que se manifestam naquilo que se conhece geralmente por ‘folclore’”. (1986, p.14) 



TODOS SOMOS FILÓSOFOS 

É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”. É preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção de mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção de mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?” 

O texto faz parte dos Cadernos do cárcere – coletânea em vários volumes de textos escritos por Gramsci durante os 8 anos passados na prisão como 'preso político' – Caderno 11 (1932-33): Introdução ao estudo da filosofia. (ed.Civilização brasileira, Rio de Janeiro, 1999, Vol.I, p.93). 

Está evidenciado que: “A filosofia é uma ordem intelectual, o que nem a religião nem o senso comum podem ser (...) A filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, neste sentido, coincide com o ‘bom senso’ que se contrapõe ao senso comum”.(JASPERS, Iniciação filosófica, Lisboa: Guimarães, 1976. p.22) 

“Todo o Homem enquanto homem filosofa. Mas a coerência conceitual do que esta afirmação implica não se alcança de modo algum num rápido relance. O pensamento filosófico sistemático requer estudo”. Não há mágica nenhuma. E conforme recorda Jaspers, é um trabalho que exige um enorme esforço voluntário.


Filosofia e história da filosofia caminham de mãos dadas e, esta relação não pode deixar de ser considerada no processo, seja do aprendizado, ou seja, no próprio desempenho da atividade do Filosofar. Não se separam, não porque não queremos, mas porque não podem. Seria a própria destruição da filosofia e o mesmo se daria em relação a nós se resolvêssemos que nosso passado não tem importância alguma para a construção de nosso presente e futuro.

E, isto é dizer, é necessário que tenhamos sempre a capacidade de dialogar com a História da Filosofia e, ao mesmo tempo, com a Filosofia na história, implicando na arte heteronômica das relações sujeito-sujeito. Como já foi dito estes movimentos devem ser de caráter concomitante tanto no ensino de Filosofia como no exercício do Filosofar.

Isto é, demarcar nesta nossa reflexão que o recurso à História da Filosofia e a textos filosóficos (dos próprios filósofos) é absolutamente necessário e indispensável ao trabalho com Filosofia. Não é possível fazer filosofia, sem recorrer a sua própria história.

E isto é dizer, ainda mais uma vez, aquela metodologia orientada por técnicas de leitura e análise de problemas filosóficos a partir de textos dos clássicos, utilizando-se da História da Filosofia a partir de uma metodologia que privilegie a dinâmica linear abordando os principais períodos desta, tais como a Filosofia Antiga, Medieval, Moderna, Iluminista, Contemporânea; tem que ser privilegiada em conexão com os estudos dos principais filósofos destes períodos respectivamente (priorizando-se nomes como Platão, Aristóteles, Epicuro, Santo Agostinho e Aquino, Descartes, Kant, Hegel, heiddeger, Foucault e tantos outros).

Também associada a esta metodologia tão antiga quanto a “Escolástica” está a técnica que prioriza os conceitos ou temas destacando-se alguns filósofos  investigados, tais como, por exemplo, “a ética em Aristóteles”, “a felicidade em Epicuro”, “a liberdade em Sartre”, “o conhecimento segundo Hegel”, “a estética Kantiana”, entre outros. E estas conexões metodológicas deveriam focar ao final o FILOSOFAR concretamente inserido em nosso contexto atual.

Não importa se vou começar a Filosofar e então somente depois revisitar a História da Filosofia, ou se vou começar a tratar de temas para então depois revisitar a História e logo vir a Filosofar. Não importa, o que importa é entender que a Filosofia tem uma História e está na História e que, cada Filósofo pode, portanto, no exercício de seu Filosofar, escrever uma nova página dessa arte de filosofar para resolver problemas.


Como não cair na tentação de banalizar o ensino e aprendizagem de Filosofia deturpando aquilo que a Filosofia tem de mais rica que são seus sistemas filosóficos tradicionais, históricos e ao mesmo tempo, clássicos? Deleuze lembra que os sistemas continuam válidos, pois é deles que desenvolveremos a arte de “roubar conceitos”.



Para aprofundar um pouquinho mais vou deter-me no Filósofo Deleuze.

(Gilles Deleuze, nasce, em Paris, em 1925 (18 de janeiro). Morre na mesma cidade, em 1995 (4 de novembro). 

Filósofo, de ampla produção literária, tem suas primeiras publicações oficialmente em 1953. Gilles Deleuze deixou um legado importantíssimo para o processo de transmissão da Filosofia e do Filosofar. Se eu pudesse resumir esta contribuição, eu resumiria assim: A atitude filosófica infindável transformada em uma metodologia original, radical, subversiva, do aprender a aprender aprendendo a desaprender para poder aprender sempre mais desaprendendo e assim, lançando-se em uma dinâmica, uma aventura inventiva do Filosofar que sempre será nova e produtiva.


Com Félix Guattari, Sociólogo, Deleuze escreveu o livro “O que é a Filosofia”? (REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992.) Sobre a motivação que levou ambos a produzi-lo diziam que em relação à pergunta título da obra: “(...) Antigamente nós a formulávamos (...) de maneira (...) demasiadamente artificial (...) o que é isso que fiz toda a minha vida? (...) a velhice dá, não uma eterna juventude, mas ao contrário uma soberana liberdade (...).”

Com isso, eles acreditavam que agora detentores de um “valioso capital” filosófico, conquistado desde a juventude, podiam encontrar uma resposta satisfatória para esta questão crucial: “O que é a Filosofia?” O criar conceitos na perspectiva deleuzo-guatariano coloca em estreita relação ação criadora e conceitos. Afirmam que “criar conceitos sempre novos, este é o objetivo da filosofia” . Lembram que em decorrência disto, “o filósofo é o amigo do conceito, ele é conceito em potência” .


Mas as ciências e as artes enquanto manifestações de conhecimentos, assim como a filosofia também possuem a capacidade auto criadora de conceitos; então em que a Filosofia se diferencia daquelas? A diferença está em que o filósofo imprime sua assinatura “embaixo”, deixa registrado sua marca, através dos coneceitos que cria, respondem Deleuze e Guattari.

Mas o CONCEITO criado por um Filósofo só tem sentido imerso no Universal - na totalidade - Em relação à imanência dos conceitos eles são taxativos: “Não há conceito simples”. Todos são compostos por multiplicidades nas singularidades. O um não exclui o outro, ao contrário, é necessário que haja o outro. É a multiplicidade que dá sentido ao conceito.

Deleuze e Guattari lembram a relação múltipla dos conceitos lembrando que “são vizinhos”, são solidários e “não se pode saber exatamente a linha demarcatória entre o começo de um e o término de outro, eles se mesclam” . Conceitos nunca se isolam, carregam a bandeira da multiplicidade.

Ao tratar do problema trabalhado por Deleuze em relação à repetição da diferença em Nietzsche, MACHADO (1990) é claro ao dar uma explicitação do cerne da fabrica conceitual em Deleuze que residiria na “(...) distinção entre um conteúdo manifesto e um conteúdo latente” . A novidade do conceito se dá neste segundo movimento.


A característica crucial na definição de Filosofia enquanto criação de conceito devolve à Filosofia a sua capacidade original de “subversiva”. Não há nesta dinâmica Deleuze-guattariana espaços para a imobilidade, para a dogmatização do conhecimento.

Os esforços de ambos, concentram-se justamente no sentido de purificar a Filosofia daquilo que não é filosofia, ou seja, deixar a Filosofia nua diante de si mesma despojando-a de tudo aquilo que historicamente tentaram lhe impor e em especial, a tentativa de delimitar sua ação. A Filosofia nunca cessa, é latente e sempre avança, nada pode detê-la e ela a nada teme irrompendo, por sua capacidade criadora, todos os limites que ousem habitar seu caminho. Assim, estudar Filosofia a partir de sua história só faz sentido se esta história for problematizada e levar a conseqüente produção de conceitos.

Ora, mas há algo ainda mais caro na pedagogia Deleuze-guattariana, ou seja, a Filosofia enquanto criação de conceitos só é possível com o rompimento dos limites impostos pelo pensamento dogmatizado. Não é uma tarefa fácil , pois que o pensar não é, em hipótese alguma, um exercício natural de uma faculdade. O pensamento não pensa sozinho e por si mesmo.

Pensar é muito caro para a filosofia de Deleuze: Pensar não é o exercício natural de uma faculdade. Pensar é, sobretudo, interpretar, e isto é dizer em outras palavras, violentar o pensamento retirando-o de seu natural estupor. Pensar, é então explicar, desenvolver, produzir, decifrar, traduzir signos. Na concepção Deleuze-guattariana é poder chegar à produção (fabricação) de conceitos filosóficos.

É preciso explicar que a REFLEXÃO não é a característica salutar do Filósofo na concepção de Deleuze, pois que esta marca pode colocar a Filosofia a serviço da dominação e não da LIBERTAÇÃO. Pode sequestrar a Filosofia a um jogo de interesses e a Filosofia não pode correr este risco, pois que seu papel é justamente se firmar contra todas as formas de dominações. O CONCEITO é a chave de sua LIBERDADE.

MACHADO ressalta que (MACHADO, Roberto. Deleuze e a filosofia. Rio de Janeiro: Graal, 1990.): “Quando Deleuze diz que o filósofo é criador e não reflexivo, o que ele pretende é se insurgir contra a caracterização da filosofia como um metadiscurso, uma metalinguagem, que tem por objetivo formular ou explicitar critérios de legitimidade ou de justificação, e reivindicar para ela a produção de conhecimento ou, mais propriamente, a criação de pensamento, como as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Daí por que ele denuncia a epistemologia como um agente de poder na filosofia que desempenha, como a história da filosofia, um papel de repressor do pensamento ou se constitui como um aparelho de poder no próprio pensamento.(...)”. Ibid., (1992), p.15. Ele entendia o conceito como forma de demarcar aquilo que é próprio da filosofia por singularidade e que possibilita a vivacidade da mesma que não “renasce, pois jamais está morta, embora tentem matá-la de várias maneiras (...) Ela nem mesmo espera reanimações pois não desmaia e nem dorme; ao contrário, desperta quem dela se aproxima (...)”. Como nos lembra Luiz B. L. Orlandi, tradutor da obra de DELEUZE (2001) “Empirismo e Subjetividade”. É necessário entender ainda que o “conceito”, para Deleuze tem o poder de contestar por esta atividade heterogênea o idealismo dos Universais e sobre isso, escrevem DELEUZE, GUATTARI (1992), p.15: “(...) O primeiro princípio da Filosofia é que os Universais não explicam nada, eles próprios devem ser explicados”.

Quando se entende Filosofia, também, como uma atividade de emancipação, oferecer a possibilidade da pessoa conduzir-se para fora, Deleuze tem muito a nos oferecer com sua proposta de criarmos “conceitos”, libertando nossa imaginação, praticando a subversão das formas pré-estabelecidas do pensamento na educação tradicional, da moral vigente na sociedade e, geralmente engendrada pela religião dominante, e isto é dizer, uma subversão dos valores pré-definidos na sociedade e aceitos por conveniências sociais.


Ora a perspectiva deleuzeana trabalha justamente com o imaginário racionalizado. A perspectiva pedagógica deleuzeana é dialógica e seu criar conceitos não é uma tarefa fácil de ser colocada em prática.

O diálogo deleuzeano no processo ensino e aprendizagem de Filosofia parte dos clássicos, passa pelas problemáticas que se impõe a partir de nosso cotidiano presente e irrompe em novas respostas que por sua vez desencadearão em novas problemáticas, ou seja, o eterno movimento vivificante da Filosofia – aquilo que faz a Filosofia ser Filosofia. Aqui temos o duplo devir deleuzeano sem os quais não existe Filosofia: a constituição dos problemas e a criação dos conceitos que daí advêm.


Deleuze nos ensina a dialogarmos com o diferente na multiplicidade. O mundo poderia ser diferente se isto fosse levado a sério e muita coisa poderia ser transformada e coadunada em benefício de toda a humanidade. Seria o advento do estabelecimento de uma ética universal sonhada por Sartre contra a dinâmica real do “homem auto-destrutivo”.


Nossa geração pós-regime ditatorial 64 foi educada a NÃO PENSAR/NÃO REFLETIR. E a nova geração ainda carrega este estigma. Vivemos em uma sociedade imersa na Cultura Globalizada do Capitalismo. Individualismo, egocentrismo, são as marcas de uma intelectualidade cada vez mais marcada pelo conhecimento e pelo pensamento fragmentado, apenas com a preocupação de FAZER MELHOR. Perdemos o horizonte do OUTRO, do COLETIVO, do SER. Com a queda do "sonho socialista" fomos sequestrados de vez na unilateralidade da ideologia dominante que sustenta o Capitalismo.

E nesta situação globalizante do pensamento em perseguição ao PROGRESSO material, a realidade é de uma humanidade deacdente, cada vez mais pobre no sentido material e imaterial e, promotora ativa da destruição de si e do Planeta. Urge Filosofarmos mais do que nunca. A reumanização do HOMEM passa pela Filosofia.

Nessa passagem, falando sobre a importância da Filosofia, CHAUI  lembra que (CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 1997. p.18): “(...) Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história, for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e á nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes”.

Nesta reflexão, ainda, a contribuição de Gramsci é excepcional (GRAMSCI, Antonio. Introdução à Filosofia da Práxis. 29ª ed, Lisboa - Portugal: Editora Antídoto, 1986) e pode nos ajudar a partir da seguinte questão acerca do papel específico da Filosofia: É melhor permanecer no estado passivo inerente aos que se contentaram com a não refutação crítica? “(...) ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira crítica e consciente e, portanto, em ligação com este trabalho próprio do cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?”

Dialogar com o senso comum e, filosoficamente construir alternativas para a práxis intersubjetiva, social e política , é uma missão que deve ter um olhar lançado sobre o OUTRO, sobre a totalidade e não ser egoísta, mas sobretudo, cúmplice radical da justiça e equidade no plano coletivo: Ibid., (1986) p. 34 ss.: “Não será exato chamar de “filosofia” qualquer tendência de pensamento, qualquer orientação geral etc., e nem mesmo qualquer “concepção do mundo e da vida”. (...)”. Não confunda o conceito de Filosofia apenas como um conceito bonito e mercantilizado no mercado capitalista apenas como mais uma mercadoria à venda, ou Filosofia empregada conceitualmente nas doutrinas de grupos de cunho religioso.

Dizer que se pode fazer filosofia apenas pedindo que as pessoas pensem e reflitam sobre os problemas que os afligem ou que mais preocupam o homem moderno e contemporâneo, sem oferecer-lhes a base teórica para o aprofundamento e a compreensão de tais problemas e sem recorrer à base histórica da reflexão sobre tais questões, é o mesmo que não sair dos limites do senso comum.

GRAMSCI (1986) p. 18: “(...) no trabalho de elaboração de um pensamento superior ao senso comum e cientificamente coerente, jamais se esquece de permanecer em contato com os ‘simples’. e, melhor dizendo, encontra neste contato a fonte dos problemas que devem ser estudados e resolvidos. Só através deste contato é que uma filosofia se torna ‘histórica’, depura-se de elementos intelectualistas de natureza individual e se transforma em ‘vida’”. Vida aqui entendida como o direito à justiça e equidade devida a cada um dos homens e mulheres que pisam o chão deste planeta.

O Homem autodestrutivo teria que fazer o caminho inverso: resgatar a Ordem em meio ao Caos interior, banir o Caos-Violência no convívio social-político – hoje no contexto globalizante, das relações e produtor cada vez mais de desigualdades profundas – e então, por consequência, devolver a Ordem à vida Planetária que passa por um processo que já foi da ameaça para a real deterioração existencial.

A Ética por excelência torna-se o marco primordial da atividade filosófica, uma vez que ela centra o exercício filosófico na “arte do bem viver” liberando o EU para relações congruentes com o OUTRO.

E com Aristóteles, em sua obra: “A Ética a Nicômacos”, coloca-se em evidência a dinâmica de uma perspectiva metodológica de Filosofar, ou seja, aquela mesma que identifica o EU naturalmente voltado para o coletivo. O Homem, se faz em uma realização sua natureza, na Polis. O homem não é uma “ilha solitária” e independente das demais, ao contrário, ele é o “animal social e político” de Aristóteles .O Homem só atingirá a eudamonia (FELICIDADE) se for capaz dessa compreensão e dessa práxis.


O grego antigo partia da ideia de Ordem filtrada de sua cosmovisão, idealizava este conceito para a individualidade humana a partir do “mente sã, corpo são” e, por conseqüência, a transposição desta Ordem para a convívio social-político. Isto é dizer, em outras palavras, que o trabalho filosófico possui sempre uma dimensão política.

Em suma, penso que ficou claro que não podemos fugir da realidade de que estamos condenados a filosofar como filósofos e filósofas. Ao lançar um rápido olhar desde sobre a Grécia Antiga podemos já, no mínimo, ter uma leve sensibilidade à realidade de que a Filosofia tem muito a nos oferecer, não é mesmo?


Filoparanavaí