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FILOPARANAVAÍ

domingo, 18 de abril de 2010

APONTAMENTOS DE FILOSOFIA por Lucio Lopes. Da palavra Filosofia e outras questões


O que significa a palavra filosofia? 

FILOSOFIA → do GREGO → FILO (PHILIA) = Amizade, Amor Fraterno / SOFIA (SOPHIA) = Sabedoria'. Philia (em grego: φιλíα; transl.: philia, filia) retirado do tratado de Ética a Nicômaco de Aristóteles, o termo é traduzido geralmente como "amizade", e às vezes também como "amor". Sophia: Significa “sabedoria” e 'sabedoria divina'. Sophia tem origem no grego sophia, que quer dizer literalmente “sabedoria” 

Podemos criativamente compreender FILOSOFIA como amor e/ou amizade pela sabedoria/conhecimento. Donde, FILÓSOFO é aquele que tem amor e/ou amizade pela sabedoria/conhecimento. Aquele que busca a sabedoria/conhecimento. Ainda que sabedoria e conhecimento sejam coisas distintas, o filósofo deve ter como objetivo a conquista de ambas pois o conhecimento é que permitirá a sabedoria.

Entre os antigos, a filosofia é uma ciência, a do conhecimento racional, tornou-se entre os modernos sinônimo de questionamento sobre a natureza do homem e seu significado.

Definições de filosofia segundo os  Antigos: 
- Aristóteles: "A filosofia é justamente chamada de ciência da verdade" (Metafísica).
- Epicuro: “A filosofia não é uma ciência pura e teórica, é uma regra prática de ação; muito mais é em si uma ação, uma energia que traz vida abençoada através de discursos e raciocínios ”(Maximes).
- Marco Aurélio: “A filosofia é manter seus demônios internos a salvo da indignação, inocentes, superiores ao prazer e à dor, sem deixar nada ao acaso e, especialmente, esperando uma morte propícia ao pensamento” (Pensamentos por mim próprio - Baixe aqui o livro Meditações de M.A.).

Definições de filosofia segundo os Modernos:
- Pascal: "Tirar sarro da filosofia é realmente filosofar" (Pensamentos).
- Descartes: “Essa palavra de filosofia significa o estudo da sabedoria e, por sabedoria, entendemos um conhecimento perfeito de todas as coisas que o homem pode saber, tanto pela conduta de sua vida quanto pela preservação de sua saúde e bem-estar. a invenção de todas as artes” (Discurso sobre o Método). 
- Descartes: “Toda filosofia é como uma árvore, cujas raízes são metafísicas, o tronco é a física e os ramos que dela saem são todas as outras ciências, medicina, mecânica e moral” (Discurso sobre método).
- Kant: “A filosofia é um sistema de conhecimento racional baseado em conceitos” (Metafísica das maneiras). 
- Hegel: "A filosofia é o fundamento do racional, é a inteligência do presente e do real, e não a construção de um além do qual seria Deus sabe onde" (Princípios da filosofia do Direito)
- Schopenhauer: “A filosofia nasce do nosso espanto em relação ao mundo e à nossa existência” (O mundo como vontade e como representação).

Definições de filosofia segundo os contemporâneos 
- Husserl: “Quem quiser se tornar um filósofo terá que se entregar uma vez na vida” (Meditações Cartesianas).
- Wittgenstein: "A filosofia não é uma das ciências naturais".



ATITUDE FILOSÓFICA

Quero lembrar que o filósofo Immanuel Kant  (1724–1804) - que foi um filósofo alemão representante do  Iluminismo no final do século XVIII, sendo que seu trabalho mais conhecido é a Crítica da razão pura - nos alertava que  "não se aprende filosofia,  aprendemos a filosofar". A filosofia não poderia, portanto, ser aprendida, ao contrário de outras disciplinas. Transpostos ao ensino, geralmente entendemos que isso significa que a filosofia é uma prática, não um conhecimento teórico, e que, ao ensinar e aprender filosofia, não ensinamos nem aprendemos filosofia, mas como filosofar. E filosofar é um exercício que apenas o sujeito pode acionar. Filosofar é em primeiro lugar um exercício solitário que obviamente pode e deve ser posto nas relações intersubjetivas no sentido de colocar os pensamentos gerados no crivo da criticidade para explorar a real consistência dos mesmos.

Para estudar Filosofia e/ou filosofar,  temos que que ser capazes de interrogar a vida cotidiana em sua totalidade - isto  é, a nossa vida e a vida toda que nos cerca no sentido de uma cosmovisão totalizante; interrogar a si, desejando conhecer por que cremos, no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. 

Estar abertos à abandonar o VELHO e assumir o NOVO. Saber lidar com a crise existencial, sabedores de que da CRISE nascerão coisas novas e melhores. Estar dispostos a perseguir as verdades em todos os âmbitos da vida: Mundo, Sociedade e de si mesmo. Pensar por si mesmo, ser dono de seus próprios pensamentos, porém, sem arrogância, sempre abertos a revê-los, confrontá-los, e quando necessário modificá-los. 

Diante de todas as verdades apresentadas como absolutas, colocar a DÚVIDA. Decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido. 

Dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz”, ao estabelecido. Interrogar sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. Questionar sobre o porquê disso tudo  e sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.

ATIVIDADE FILOSÓFICA

Na simplicidade e humildade Socrática: SÓCRATES (470-399), SÉCULO III, “SÓ SEI QUE NADA SEI”. Ainda que um único homem pudesse ler todos os livros que estão em todas as bibliotecas do mundo, ainda assim este homem continuaria sendo ignorante diante do conhecimento a ser conquistado... Portanto, o estudante de Filosofia / que deve ser Filósofo ao mesmo tempo, tem que ser capaz de exercer a ATIVIDADE FILOSÓFICA EM TODOS OS MOMENTOS DE SUA VIDA, NÃO PARA SER MELHOR QUE OS OUTROS, MAS PARA SER MAIS HUMANIZADO E AJUDAR NA HUMANIZAÇÃO DOS HOMENS EM GERAL: • REFLEXÃO CRÍTICA • RACIONAL• RADICAL• PROFUNDA • SISTEMÁTICA.

Importante aqui lembrar Tales de Mileto, que segundo Aristóteles e uma tradição grega antiga, fora o primeiro filósofo, reconhecido também como cientista e matemático. Ele também é visto como político, se levarmos em conta sua participação no grupo dos "Sete Reis Magos".

GRÉCIA – VII ou VI a.C. → Primeiro filósofo a desenvolver um problema filosófico TALES de MILETO.

A referência a TALES é importante para compreendermos o que é filosofar, pois enquanto identificado como o primeiro filósofo é de uma valor simbólico muito importante para a Filosofia. O fato não se deve às respostas dadas por ele em relação aos problemas filosóficos dos quais tratou como pré-socrático em sua busca pelo "princípio" (arché) da origem e composição do Universo, recorrendo para isso à natureza (physis), mas sim à forma substancial do método que utilizou para buscar essas respostas, ou seja, inaugurou a atividade filosófica.

Em suma, o contexto de Tales era este: O que marca o surgimento da Filosofia é seu caráter racional. Os filósofos passam de uma explicação mitológica do mundo para uma explicação racional. Ao perceberem as contradições e limitações dos mitos, eles reformulam e racionalizam as narrativas míticas, transformando-as em uma explicação inteiramente nova e diferente. A Filosofia – Cosmologia / PROBLEMAS que os primeiros filósofos trataram. Conhecimento racional da ordem do mundo ou da Natureza. O mito falava em deuses, como Zeus, Perséfone e Gaia. Narrava a origem dos seres celestes e terrestres como derivados das relações com os deuses - O sobrenatural-sagrado misturava-se ao natural-profano, praticamente sendo a mesma coisa. Todos os fenômenos da natureza, no mito, encontram uma explicação a partir das forças sobrenaturais/divinas.

A Filosofia por sua vez, fala em céu, mar e terra também. Mas ela explica o surgimento desses seres por composição, combinação e separação dos quatro elementos – úmido, seco, quente e frio, ou água, terra, fogo e ar. 

O mito narrava a origem através de genealogias derivadas de forças divinas sobrenaturais e personalizadas. 

A Filosofia, ao contrário, explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais e impessoais. 

O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que era antes que tudo existisse tal como existe no presente. 

A Filosofia, ao contrário, se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidade do tempo), as coisas são como são; O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridade religiosa do narrador e a autoridade residia nos DEUSES. 

A Filosofia, ao contrário, não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional; Além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filósofo, mas da RAZÃO, que é a mesma em todos os seres humanos.


Filósofo é o amigo da sabedoria, do conhecimento. Aquele que ama, busca e respeita o saber, o conhecimento.

A Filosofia é uma ATIVIDADE REFLEXIVA RACIONAL SISTEMATIZADA. Em suas origens a Filosofia era exercida pelos cidadãos, ou seja, homens livres da Grécia. 

Na Grécia Antiga só os gregos nascidos em território grego eram cidadãos. Escravos, mulheres, crianças e estrangeiros não eram contados como cidadãos e nem possuíam esse título. 

A Democracia vivenciada por cidades como ATENAS possibilitava a participação dos cidadãos nas discussões políticas em praça pública, sobre os problemas e destinos da cidade, exigindo opiniões fundamentadas em argumentos válidos e que deviam ser colocados à prova filosófica no embate com as opiniões alheias. Essas opiniões deviam ser demonstradas de forma clara, objetiva, lógica. O recurso demonstrativo era a RETÓRICA, a arte de Falar Bem em Público.

Pitágoras = filósofo grego (séc.V a.C.) responsável pela invenção da palavra “Filosofia”. Sabedoria plena e completa pertence aos deuses. Homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.


A IMAGEM QUE SE TINHA DO FILÓSOFO 
NEGATIVA

►Não é movido por interesses comerciais ou financeiros;

►Não coloca o saber como propriedade sua;

►Não é movido pelo desejo de competir;

►Não faz das idéias e dos conhecimentos uma habilidade para vencer competidores;

POSITIVA

►É movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar a vida;

►É movido pelo desejo de saber.
  
No geral, a Filosofia tem aversão às verdades caracterizadas e fundamentadas em dogmas (verdades absolutas que não possibilitam a contestação). A Filosofia existe pela DÚVIDA. A Dúvida é a alma da Filosofia. É a Dúvida o elemento mais essencial da Filosofia; é o elemento deflagrador da atividade filosófica e esse elemento brota da capacidade de espantar-se, de admirar-se diante do desconhecido. 

A Filosofia não pode em hipótese alguma ser identifica com crença religiosa. A Filosofia não tem respostas prontas, é um exercício racional sistematizado infindável na busca pela VERDADE. Ela se faz pela DÚVIDA que leva à → PROBLEMAS → que por sua vez, levam à respostas → que caem em novos problemas deflagrados pela DÚVIDA suscitando um movimento sempre latente e cíclico. A Filosofia é um bem da humanidade e deve ser colocado à serviço da VIDA e da LIBERDADE, sempre.

A VERDADE desde a concepção da Filosofia Antiga:

►Não pertence a ninguém;

►Não é um prêmio conquistado por competição;

►Está diante de todos nós;

►É algo a ser procurado;

►É encontrada por todos aqueles que a desejarem, que tiverem olhos para vê-la e coragem para buscá-la.


Para chegar à verdade o HOMEM precisa abandonar preconceitos, crenças, fechadas em si mesmas, abrir-se ao diálogo com o diferente, visitar a história humana em todas as suas etapas, conhecer as bases das diversas formas, e/ou, conjuntos, e/ou, modalidades de saberes, e/ou, conhecimentos, a saber: ARTÍSTICO, RELIGIOSO, MITO, SENSO COMUM E CIÊNCIA. O Homem que não aprendeu a dialogar com os conteúdos destas modalidades em uma saudável interação, terá maiores dificuldade de aproximar-se da verdade plena.

Nenhuma modalidade de conhecimento é superior às outras, são apenas formas, e/ou, possibilidades de conhecimentos construídas pelo Homem desde o início de seu processo evolutivo. Até mesmo o Senso Comum, o conhecimento atual e básico que todos nós recebemos espontaneamente desde nosso nascimento, é de extrema importância. O FEIO é ficar sequestrado dentro dos limites de suas fronteiras quando podemos decidir ultrapassá-las, como dizia IMMANUEL KANT, o Filósofo da Filosofia Crítica Moderna, é necessário rompermos essas fronteiras do Senso Comum e nos aventurarmos no mundo do Saber até conquistarmos a Consciência Crítica, a MAIORIDADE DA RAZÃO (No texto 'O que é Esclarecimento', Kant nos explica que Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado se podendo não desejar abandoná-la. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo).


O DESPERTAR FILOSÓFICO GREGO ANTIGO
O NASCIMENTO DA FILOSOFIA

► Gregos

►Começaram a fazer perguntas e buscar respostas para a realidade;


As questões existenciais, ou seja, OS PROBLEMAS do cotidiano grego, para os primeiros filósofos, já não podiam mais ser respondidos apenas pelo MITO, pelo RELIGIOSO e pelo ARTÍSTICO. 

A sociedades grega já possuía uma organização mais complexa e exigia respostas diferentes a estes problemas, diferentes daquelas possíveis pelas modalidades de conhecimentos utilizadas naquele momento histórico. Estes problemas brotavam de três dimensões da vida humana: MUNDO (COSMO, NATUREZA, UNIVERSO); SOCIEDADE (POLÍTICA); SER HUMANO (ANTROPOLOGIA): os filósofos defendiam que estes problemas podiam ser conhecidos pela razão humana.
  
PARA OS FILÓSOFOS:

►Pensadores gregos:

►Verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso;

►Verdade podia ser conhecida por todos por meio das operações mentais de raciocínio;

►Linguagem respeita as exigências do pensamento;

►Conhecimentos verdadeiros podem ser transmitidos e ensinados a todos.

ATIVIDADE FILOSÓFICA, por eles proposta, tinha estas características gerais: 

►Tendência à racionalidade

►Recusa de explicações preestabelecidas

►Tendência à argumentação

►Capacidade de generalização

►Capacidade de diferenciação = análise
  
RESULTADO QUE FOI LEGADO (HERANÇA), DEIXADO PARA TODOS NÓS:

►Conhecimento = leis e princípios universais

►Verdade = provas ou argumentos racionais

►Conhecimento não se impõe aos outros

►Conhecimento deve ser compreendido por todos

►Capacidade de pensar e conhecer é a mesma em todos os seres humanos

►Conhecimento só é verdadeiro quando explica racionalmente seus objetos

►Natureza segue uma ordem necessária

►Opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais;

►Essas leis podem ser plenamente conhecidas pelo nosso pensamento: Surgimento da cosmologia / Surgimento da física.

►A razão (ou o nosso pensamento) também opera obedecendo a princípios, leis, regras e normas universais e necessários.

►Podemos distinguir o que é verdadeiro do falso;

►Razão obedece à lei da identidade, da diferença, da contradição e da alternativa.

►O agir humano exprime a conduta de um ser racional dotado de vontade e de liberdade

►As práticas humanas não se realizam por imposições misteriosas e incompreensíveis (forças secretas, invisíveis, divinas e impossíveis de serem conhecidas)

Seres humanos naturalmente aspiram:

►Ao conhecimento verdadeiro (pois são seres racionais)

►À justiça (pois são seres dotados de vontade livre)

►À felicidade (pois são seres dotados de emoções e desejos)

►Os seres humanos instituem valores pelos quais dão sentido às suas vidas e às suas ações.


ANTES DE TERMINAR, aquela pergunta que fazem os atuais 'prisioneiros da caverna platônica': AFINAL DE CONTAS PARA QUE SERVE A FILOSOFIA???


A filósofa Marilena CHAUI, responde, na introdução de sua obra “Convite à Filosofia”:

[1] Se abandonarmos a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil;

[2] Se não nos deixarmos guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; 

[3] Se buscarmos compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil;

[4] Se conhecermos o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências, na ética e na política for útil;

[5] Se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil;
  
Então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes. 

Fontes consultadas:

ARANHA Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. 2.ed. São Paulo: Moderna, s.d.
CARDOSO, Osvaldo e outros. Filosofia: Ensino Médio (Livro Didático da S.E.ED./PR). 2 ed. Curitiba: SEED, 2006.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 6.ed. São Paulo, Ática,1997.
CHAUI, Marilena, OLIVEIRA, Pérsio S. Filosofia e Sociologia. São Paulo: Ática, 2007.
DELEUZE, Gille, GUATARI, Felix. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
DURANT, Will. A história da Filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.
REZENDE, Antonio e outros. Curso de Filosofia. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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Por que a Folha mente (mente, mente, mente, desesperadamente), por Emir Sader:





As elites de um país, por definição, consideram que representam os interesses gerais do mesmo. A imprensa, com muito mais razão, porque está selecionando o que considera essencial para fazer passar aos leitores, porque opina diariamente em editoriais – e em matérias editorializadas, que não separam informação de opinião, cada vez mais constantes – sobre temas do país e do mundo.

A FSP, como exemplo típico da elite paulistana, é um jornal que passou a MENTIR abertamente, em particular desde o começo do governo Lula. Tendo se casado com o governo FHC – expressão mais acabada da elite paulistana -, a empresa viveu mal o seu fracasso e a vitória de Lula. Jogou-se inteiramente na operação “mensalão”, desatada por uma entrevista de uma jornalista tucana do jornal, que eles consideravam a causa mortis do governo Lula, da mesma forma que Carlos Lacerda,na Tribuna da Imprensa, se considerava o responsável pela queda do Getúlio.

Só que a história se repetiria como farsa. Conta-se que, numa reunião do comitê de redação da empresa, Otavio Frias Filho – herdeiro da empresa dirigida pelo pai -, assim que Lula ganhou de novo em 2006, dava voltas, histérico, em torno da mesa, gritando “Onde é que nós erramos, onde é que nós erramos”, quando o candidato apoiado pela empresa, Alckmin, foi derrotado.

O jornal entrou, ao longo da década atual, numa profunda crise de identidade, forjada na década anterior, quando FHC apareceu como o representante mor da direita brasileira, foi se isolando e terminou penosamente como o político mais rejeitado do país, substituído pelo sucesso de Lula. Um presidente nordestino, proveniente dos imigrantes, discriminados em São Paulo, apesar de construir grande parte da riqueza do estado de que se apropria a burguesia. Derrotou àquele que, junto com FHC, é o político mais ligado à empresa – Serra -, que sempre que está sem mandato reassume sua coluna no jornal, fala regularmente com a direção da empresa, aponta jornalistas para cargos de direção – como a bem cheirosa jornalista brasiliense, entre outros – e exige que mandem embora outros, que ele considera que não atuam com todo o empenho a seu favor.

O desespero se apoderou da direção do jornal quando constatou não apenas que Lula sobrevivia à crise manipulada pelo jornal, como saía mais forte e se consolidava como o mais importante estadista brasileiro das últimas décadas, relegando a FHC a um lugar de mandatário fracassado. O jornal perdeu o rumo e passou a atuar de forma cada vez mais partidária, perdendo credibilidade e tiragem ano a ano, até chegar à assunção, por parte de uma executiva da empresa, de que são um partido, confissão que não requer comprovações posteriores. Os empregados do jornal, incluídos todos os jornalistas, ficam assim catalogados como militantes de um partido (tucano, óbvio) político, perdendo a eventual inocência que podiam ainda ter. Cada edição do jornal, cada coluna, cada notícia, cada pesquisa cada editorial, ganharam um sentido novo: orientação política para a (debilitada, conforme confissão da executiva) oposição.

Assim, o jornal menos ainda poderia dizer a verdade. Já nunca confessou a verdade sobre a conclamação aberta à ditadura e o apoio ao golpe militar em 1964 – o regime mais antidemocrático que o país já teve -, do que nunca fez uma autocrítica. Menos ainda da empresa ter emprestado seus carros para operações dos órgãos repressivos do regime de terror que a ditadura tinha imposto, para atuar contra opositores. Foi assim acumulando um passado nebuloso, a que acrescentou um presente vergonhoso.

Episódios como o da “ditabranda”, da ficha falsa da Dilma, da acusação de que o governo teria “matado” (sic) os passageiros do avião da TAM, o vergonhoso artigo de mais um ex-esquerdista que o jornal se utiliza contra a esquerda, com baixezas típicas de um renegado, contra o Lula, a manipulação de pesquisas, o silêncio sobre pesquisas que contrariam as suas (os leitores não conhecem até hoje, a pesquisa da Vox Populi, que contraria a da FSP que, como disse um colunista da própria empresa, era o oxigênio que o candidato do jornal precisava, caso contrário o lançamento da sua candidatura seria “um funeral” (sic). Tudo mostra o rabo preso do jornal com as elites decadentes do país, com o epicentro em São Paulo, que lutam desesperadamente para tentar reaver a apropriação do governo e do Estado brasileiros.

Esse desespero e as mentiras do jornal são tanto maiores, quanto mais se aprofunda a diminuição de tiragem e a crise econômica do jornal, que precisa de um presidente que tenha laços carnais com a empresa e teria dificuldades para obter apoios de um governo cuja candidata é a atacada frontalmente todos os dias pelo jornal.

Por isso a FOLHA MENTE, MENTE, MENTE, DESESPERADAMENTE. Mentirá no fim de semana com nova pesquisa, em que tratará de rebater, com cifras manipuladas – por exemplo, como sempre faz, dando um peso desproporcional a São Paulo em relação aos outros estados -, a irresistível ascensão de Dilma, que tratará de esconder até onde possa e demonstrar que o pífio lançamento de Serra o teria catapultado às alturas. Ou bastaria manter a seu candidato na frente, para fortalecer as posições do partido que dirigem.

Mas quem acredita na isenção de uma pesquisa da Databranda, depois de tudo o que jornal fez, faz e fará, disse, diz e dirá, como partido assumido de oposição? Ninguem mais crê na empresa da família Frias, só mesmo os jornalistas-militantes que vivem dos seus salários e os membros da oposição, com a água pelo pescoço, tentando passar a idéia de que ainda poderiam ganhar a eleição.

Alertemos a todos, sobre essa próxima e as próximas mentiras da Folha, partido da oposição, partido das elites paulistas, partido da reação conservadora que quer voltar ao poder no Brasil, para mantê-lo como um país injusto, desigual, que exclui à maioria da sua população e foi governado para um terço e não para os 190 milhoes de habitantes.

Por isso a FOLHA MENTE, MENTE, MENTE, DESESPERADAMENTE.

Emir Sader é sociólogo e professor.
Fonte: site PT




Quem é Emir Sader? Nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, trabalhou como professor, primeiro de filosofia, depois de ciência política. Foi, ainda, pesquisador do Centro de Estudos Sócio Econômicos da Universidade do Chile, professor de Política na UNICAMP e coordenador do Curso de Especialização em Políticas Sociais na Faculdade de Serviço Social da UERJ. Atualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia. 

emirsader@uol.com.br 

Livros publicados
Século XX - Uma biografia não-autorizada. Ed. Fundação Perseu Abramo, 2000. 
O Anjo Torto (Esquerda e Direita no Brasil). Ed. Brasiliense, 1995 
Estado e Política em Marx (Ed. Cortez) 
A transição no Brasil: da ditadura à democracia? (Ed. Atual) 
Cuba, Chile e Nicarágua: o socialismo na América Latina (Ed. Atual) 
Que Brasil é este? (Ed. Atual) 
O poder, cadê o poder? (Ed. Boitempo) 
A Revolução Cubana (Ed. Scritta) 
Democracia e Ditadura no Chile (Ed. Brasiliense) 
Governar para todos (Ed. Scritta) 
Da independência à redemocratização (Ed. Brasiliense) 

domingo, 11 de abril de 2010

A importância de Sócrates para a Filosofia e sua 'Apologia' segundo Platão







Sócrates nasceu em Atenas, em 470 a.C., e se tornou uma das maiores figuras da filosofia ocidental. Ao contrário de outros filósofos, Sócrates realizava seus trabalhos em locais públicos de maneira simplificada e descontraída, de forma que todas as pessoas pudessem compreender. Segundo Platão, seu principal aluno, Sócrates não objetivava reunir discípulos e sim educar a maior parte dos residentes em Atenas. Como se dedicava às pessoas, não deixou nenhum pensamento escrito, tudo o que se sabe a seu respeito foi escrito por pessoas que o conheciam.

Revoltou-se contra os sofistas (os primeiros filósofos socráticos) acusando-os de não respeitarem a verdade e a sabedoria, mas em contrapartida concordava com esses em relação à educação ultrapassada que os atenienses recebiam. 

Sócrates propunha que as pessoas deveriam primeiramente se conhecer e somente após tal conhecimento buscarem o conhecimento da natureza e tentarem persuadir outras pessoas, foi quando surgiu a famosa frase: “Conhece-te a ti mesmo”. 

Por preocupar-se demasiadamente com as pessoas e por questioná-las, Sócrates foi acusado de corromper os jovens, além de ser chamado de ateu por causa das coisas que dizia a respeito do conhecimento interior de cada um, o que não passava de pretextos, já que tais acusações foram embasadas em ressentimentos que os governadores mantinham dele. 

Na Ágora ateniense, sob júri composto por 501 pessoas, Sócrates foi condenado à morte. Seus companheiros sugeriram que ele fugisse e se auto-exilasse, mas Sócrates preferiu ser executado a favor de sua filosofia.

Sócrates " _ Animai-vos _ disse ele aos amigos que se mostravam tristes _ e dizei que estão enterrando apenas o meu corpo."


Podemos dizer que a filosofia em suas origens na Grécia antiga passou por três momentos distintos: o primeiro momento foi aquele do rompimento com o conhecimento "convencional" estabelecido em Atenas: o conhecimento mitológico. A primeira missão dos filósofos chamados COSMOLOGISTAS ou FÍSICOS foi exatamente oferecer novas explicações para as questões existenciais acerca do COSMO (Cosmo ou cosmos é um termo que designa o universo em seu conjunto, toda a estrutura universal em sua totalidade, desde o microcosmo ao macrocosmo. O cosmo é a totalidade de todas as coisas deste Universo ordenado, desde as estrelas, até as partículas subatômicas. Pode ser estudado na Cosmologia. Os filósofos do período pré-socrático estavam ocupados em fazer especulações metafísicas acerca das origens do Cosmo).
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No lugar da autoridade dos deuses entrou a autoridade da razão (comum a todos os homens). Expulsando os deuses dos elementos físicos eles foram capazes de construírem um novo conjunto de conhecimentos - com conteúdos desconhecidos e conflitantes com aqueles "convencionais" de até então. 

Na sequência desta etapa, passamos a um segundo momento: agora estamos na etapa dos chamados sofistas - professores de filosofia que cobravam por suas aulas e por isso ganharam a antipatia de Sócrates. Os sofistas ensinavam a seus alunos como pensar, falar e discutir bem para participar da vida política em Atenas. Neste contexto a "retórica" era um instrumento importantíssimo ensinada por eles. Naquele momento podemos dizer que a filosofia estava voltada para as questões existenciais acerca da SOCIEDADE e os sofistas procurava dar conta de uma pluralidade de temas. 

Chegamos ao terceiro momento, nesta etapa o homem é colocado em evidencia: a abordagem filosófica antropológica é apresentada por Sócrates. Este acreditava que somente após conhecer-se a si mesmo é que o homem estaria preparado para se aventurar em outras dimensões de investigações racionais. As investigações de questões existenciais acerca do homem marcam esta etapa.

Por isso, a relevância de nos ocuparmos aqui, e agora, da vida deste homem que representa para a filosofia aquilo que Jesus representa para o Cristianismo... Conhecer Sócrates é uma questão "sine qua non" para compreendermos a filosofia e de quebra, o conhecimento Ocidental.

“Apologia de Sócrates” é uma obra literária escrita pelo filósofo Platão (424/423 a.C. – 348/347 a.C.) na qual o autor exprime sua versão da defesa feita por outro filósofo, Sócrates, em seu próprio julgamento, onde está sendo acusado de corromper a juventude e de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo estado, introduzindo novos cultos.


A Apologia (ou defesa) de Sócrates de autoria de Platão é um dos primeiros relatos da defesa de Sócrates em meio ao famoso julgamento que resultou na sua morte por ingestão de cicuta, poderoso veneno. Várias outras “Apologias” seriam elaboradas nos anos seguintes, destacando-se ainda a feita por Xenofonte.


"(...) Somos privilegiados por podermos ler aquela simples e corajosa (senão legendária) "apologia", ou defesa, na qual o primeiro mártir da filosofia proclamou os direitos e a necessidade de livre pensamento, sustentou seu valor pessoal para o Estado e recusou-se a pedir clemência à multidão que ele sempre desprezara. Ela detinha poderes para perdoá-lo; ele desdenhou de fazer o apelo. Foi uma singular confirmação de suas teorias o fato de os juízes quererem pô-lo em liberdade, enquanto a multidão irada votava pela sua morte. Não tinha ele negado os deuses? Maldito aquele que ensinava aos homens mais depressa do que eles podem aprender. Por isso, decretaram que ele deveria tomar cicuta. Seus amigos dirigiram-se à prisão onde ele se achava e lhe ofereceram uma fuga fácil: haviam subornado todos os funcionários que se achavam entre ele e a liberdade. Ele se recusou. Estava com setenta anos de idade agora (399 a.C.); talvez achasse que estava na hora de morrer, e que nunca teria nova oportunidade de morrer de forma tão proveitosa. _ Animai-vos _ disse ele aos amigos que se mostravam tristes _ e dizei que estão enterrando apenas o meu corpo. "Ao acabar de proferir aquelas palavras", diz Platão em uma das grandes passagens da literatura mundial (Fédon, 116-118, na tradução inglesa de Jowett):

ele se levantou e se dirigiu ao banheiro com Críton, que nos pediu que esperássemos; e esperamos, conversando e pensando (...) na grandeza de nossa dor. Ele era como um pai do qual estávamos sendo privados, e estamos prestes a passar o resto da vida órfãos. (...) A hora de pôr-do-sol estava próxima, pois já se passara um longo tempo desde que ele entrara no banheiro. Quando saiu, tornou-se a sentar-se conosco (...), mas não se falou muito. Pouco depois, o carcereiro (...) entrou e postou perto dele, dizendo: _ A ti, Sócrates, que reconheço ser o mais nobre, o mais dedicado e o melhor de todos o que já vieram para cá, não irei atribuir os sentimentos de raiva de outros homens, que se enfureceram e praguejam contra mim quando, em obediência às autoridades, lhes mando beber o veneno... de fato, estou certo de que não ficarás zangado comigo; porque como sabes, são outros, e não eu, os culpados disso. E assim eu te saúdo, e peço que suportes sem amargura aquilo que precisa ser feito; sabes qual é a minha missão. _ E caindo em prantos, voltou-se e retirou-se. Sócrates olhou para ele e disse: _ Retribuo tua saudação, e farei como me pede. _ E então, voltando-se para nós, disse: _ Como é fascinante este homem; desde que fui preso, ele tem vindo sempre me ver, e agora vede a generosidade com que lamenta a minha sorte. Mas devemos fazer o que ele diz, Críton; que tragam a taça, se o veneno estiver preparado; se não estiver, que o encarregado o prepare. _ No entanto _ disse Críton _, o sol ainda se encontra no topo das montanhas, e vários têm tomado a bebida tarde da noite. E depois de feita a comunicação, têm comido, bebido e se dedicado aos prazeres da carne; não te apresse, pois; ainda há tempo. Sócrates disse: _ Sim, Críton, e esses de quem falas estão certos ao fazerem isso, porque pensam que vão lucrar com a demora. Mas tenho razão ao não fazê-lo, porque acho que não iria ganhar coisa alguma por beber um pouco mais tarde; estaria poupando e salvando uma vida que já se acabou, só me caberia rir de mim mesmo por causa disso. Peço-te, pois, que faças o que digo, e não te recuses. Críton, ao ouvir isso, fez um sinal para o criado; o criado foi até lá dentro, onde se demorou algum tempo; depois voltou com o carcereiro trazendo a taça de veneno. Sócrates disse: _ Tu, meu bom amigo, que tens experiência nesses assuntos, irás me dizer como devo fazer. O homem respondeu: _ Basta caminhar de um lado para o outro, até que tuas pernas fiquem pesadas; depois, deita-te, e o veneno agirá. _ Ao mesmo tempo, estendeu a taça a Sócrates, que, com a maior naturalidade e elegância, sem o menor medo ou sem a menor mudança de cor ou de fisionomia, olhando fixamente para o homem, como era seu costume, segurou-a e disse: _ O que achas de uma libação a um deus qualquer, derramando um pouco desta bebida? Posso, ou não posso? O homem respondeu: _ Nós só preparamos, Sócrates, a quantidade que achamos necessária. _ Compreendo _ disse ele. _ No entanto, posso e devo rezar aos deuses para que protejam minha viagem deste para o outro mundo; que isto, então, que é minha oração, me seja concedido. _ E então, levando a taça aos lábios, bebeu rápida e decididamente o veneno. Até aquele instante, a maioria de nós conseguia controlar a dor; mas agora, vendo-o beber e vendo, também, que ele tomara toda a bebida, não pudemos mais nos conter; apesar de meus esforços, lágrimas corriam aos borbotões. Cobri o rosto e chorei por mim mesmo; pois não havia dúvida de que não estava chorando por ele, mas por pensar na calamidade de ter perdido tal companheiro. E não fui o primeiro, pois Críton, quando se vira incapaz de conter as lágrimas, levantara-se e se afastara, e eu o segui; e naquele momento, Apolodoro, que estivera soluçando o tempo todo, prorrompeu num choro alto que nos transformou todos em covardes. Sócrates foi o único a manter a calma: _ Que tumulto estranho é esse? _ disse ele _ Mandei as mulheres embora principalmente para que elas não causassem um tumulto desses, pois ouvi dizer que um homem deve morrer em paz. Acalmai-vos, pois, e tenhais paciência. Ao ouvirmos aquilo, sentimo-nos envergonhados e contivemos as lágrimas; e ele andou de um lado para outro, até que, como nos disse, as pernas começaram a fraquejar; então ele se deitou de costas, segundo as instruções, e o homem que lhe dera o veneno examinava-lhe, de vez em quando, os pés e pernas. Depois de algum tempo, o homem apertou-lhe o pé com força e perguntou se ele sentia; ele respondeu que não. depois apertou-lhe a perna, e foi subindo, subindo, e nos mostrou que ele estava insensível e rígido. E então o próprio Sócrates apalpou as pernas e disse: _ Quando o veneno chegar ao coração, será o fim. Ele estava começando a ficar insensível na virilha, quando descobriu o rosto (pois havia se coberto) e disse _ e foram suas últimas palavras: _ Críton, eu devo um galo a Asclépio; vais te lembrar de pagar essa dívida? _ A dívida será paga _ Disse Críton. _ Mais alguma coisa? Não houve resposta àquela pergunta, mais um ou dois minutos depois ouviu-se um movimento, e o criado o descobriu; os olhos estavam parados, e Críton fechou-lhe os olhos e a boca. Foi este o fim de nosso amigo, a quem posso sinceramente chamar de o mais sábio, mais justo e melhor de todos os homens que conheci".


Referência

DURANT, Will. A história da filosofia. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 30-32.