"A própria bandeira brasileira ilustra o mecanismo de
compensação mediante o qual exibimos aquilo que mais nos faz falta: basta abrir
os jornais para constatar como estamos longe da “Ordem e Progresso” tão
decantadas... O General De Gaulle deu testemunho do seu descrédito quando,
visitando o Brasil na década de 60, afirmou: “Este não é um país sério”. E
poderia ser sério um país que manipula os conceito de democracia racial e nação
morena como instrumentos perfeitos do racismo oficial? Neste “Paraíso das
Raças”, os negros se veem relegados à condição de casta inferior e raramente
conseguem ultrapassar os limites econômicos das favelas – tudo isso sob a
proteção de uma Constituição pretensamente liberal. E no entanto, o carnaval, o
samba e o candomblé – legítimos frutos da cultura afro-brasileira – acabaram
sendo oficializados e recuperados como típicas “coisas nossas”. Hoje, são itens
obrigatórios do turismo nacional. (...)" - Este excerto está na página 29 da obra "Devassos no Paraíso: A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade" de João Silvério Trevisan, no meu exemplar que é a segunda edição, de 1986 , pela editora Max Limonad. A primeira edição é do mesmo ano. A obra está na quarta edição pela editora Objetiva, 2018.
A obra "Devassos no Paraíso" é um desses muitos livros que encontrei em minhas andanças pelos sebos do Brasil. Uma obra, na minha opinião, riquíssima por tratar-se de uma memória histórica sobre a homoafetividade no Brasil. A obra "Devassos no Paraíso" é um documento vivo das contradições de nossa Cultura desde o Brasil Colônia até nossos dias. É uma obra crítica indispensável para quem quer conhecer nossa Cultura brasileira e suas faces obscuras como a do machismo e a da homofobia, como a da desigualdade social e a do racismo, por exemplo.
João Silvério Trevisan (Ribeirão Bonito, 23
de junho de 1944) é um escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e
defensor da comunidade LGBT. Estuda no
Seminário Bom Jesus, em Aparecida, São Paulo, formando-se em filosofia. Durante
sua permanência no seminário cria um núcleo de estudos dedicado ao cinema e um
cineclube. Muda-se com a família para capital paulista e trabalha na Cinemateca
Brasileira. É assistente de direção de João Batista de Andrade (1939) em
Liberdade de Imprensa (1967).
Em 1968, junto de João Batista, Francisco Ramalho Jr. (1940)
e Sidnei Paiva Lopes, funda a Tecla Produções Cinematográficas, e realiza a
direção de produção de Anuska – Manequim e Mulher (1968), de Ramalho Jr. Edita
a trilha sonora de Um Sonho de Vampiro (1969), do diretor Iberê Cavalcanti
(1935), e trabalha em funções diversas em outros filmes. Uma viagem pela Europa
e África o inspira a escrever o roteiro de seu único longa-metragem, Orgia ou o
Homem que Deu Cria (1970), proibido pela censura.1.
Em 1973, viaja para a Califórnia, Estados Unidos, e entra em
contato com o movimento gay organizado e com a mídia especializada nessa
temática. Escreve os contos do livro Testamento de Jônatas Deixado a Davi, que
publica na volta ao Brasil, em 1976. Em 1978, militando no movimento gay,
organiza o grupo Somos pelos Direitos dos Homossexuais Brasileiros, e funda o
jornal temático Lampião da Esquina, para integrar pontos de vista não somente
de homossexuais, mas também de outros grupos excluídos. Em 1982, atendendo à
demanda da editora britânica Gay Men's Press - GMP, começa uma intensa pesquisa
para escrever uma história da homossexualidade no Brasil, Devassos no Paraíso (1986),
lançada simultaneamente na Inglaterra e no Brasil.
No mesmo período, escreve seus dois primeiros romances: Em
Nome do Desejo (1983) e Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (1984). Entre 1998
e 2005, realiza uma série de oficinas literárias para o Serviço Social do
Comércio de São Paulo (Sesc/SP).
Brasil
Sempre considerei esse país um enigma a ser decifrado. E
estou cada vez mais convencido de que é impossível decifrar o Brasil. Então essa
eleição que aconteceu este ano (2018), para mim foi mais um capítulo no enigma
brasileiro. Como é que nós chegamos a esse ponto? Minha perplexidade é um pouco
a perplexidade do poeta espanhol Antonio Machado, que em um de seus versos
mais conhecidos disse: “Caminante, no hay camino. Se hace camino al andar”.
Esse é o Brasil. Um país sem projeto, porque o projeto dele é andar. Então acho
que fico com a perplexidade do poeta. E é uma perplexidade muito imensa.
Mas é criativa. Nós estamos aqui, prontos para o que der e vier, porque nós
criamos. Tem gente que gosta de destruir. Mas nós vamos criar. Vão destruir? Mas
nós vamos continuar criando. Essa é a ideia que está na última parte da nova
edição de Devassos no paraíso: : a resistência dos vaga-lumes. Com base num
artigo de Pasolini e num livro do filósofo francês George Didi-Huberman, que menciona a
necessidade da escuridão para que os vaga-lumes brilhem. Então eu terminei
o livro dizendo o óbvio: quanto maior a escuridão, mais nós brilharemos.
Preparem-se para o nosso brilho.
Devassos no paraíso
Escrevi Devassos no paraíso para saber onde estava. Morei
três anos fora, no período da ditadura, um ano e meio nos EUA, em Berkeley, na
Califórnia, que era um caldeirão revolucionário contracultural no período. E
trouxe como experiência de volta para o Brasil, de exilado, todo esse contato, que
foi importantíssimo, com as coisas que estavam acontecendo no mundo naquele
momento. E Berkeley era emblemática. Naquela época, por exemplo, já
havia uma preocupação ambientalista muito grande lá. Uma grande
consciência de luta antirracista, da luta feminista e da luta pelos direitos dos
homossexuais. E quando cheguei ao Brasil, trazendo toda essa carga, que foi
muito intensa e
muito gratificante, desembarquei numa espécie de deserto.
Foi aí que eu e meu namorado no período começamos a elaborar o grupo Somos, em
1978. E
exatamente no mesmo período, fundamos o jornal O Lampião, do
qual eu era um dos editores. Foi quando me ocorreu escrever Devassos no
paraíso, graças à solicitação de uma editora inglesa, de Londres. Repercussão Lancei a primeira edição em São Paulo e em Londres. Na
época, o livro esgotou rapidamente a primeira tiragem. E a repercussão foi
imediata. Lembro que o ator Paulo Villaça, já falecido, que fez o protagonista de O
bandido da luz vermelha, me telefonou do Rio de Janeiro: “Trevisan, eu quero
muitíssimo te agradecer, porque você me lembrou que eu sou veado e sou feliz.” Ele
estava muito emocionado. Mas logo depois veio, como um tsunami, a AIDS, e
o livro ficou em num limbo violento. Só consegui fazer uma terceira edição em
2000. Lembro que os editores davam os mais diversos pretextos para dizer que
não podiam relançá-lo. Esse período de recusas foi um mergulho não só no limbo, mas
também no purgatório, dando umas queimadas no inferno. Aí percebi um
pouco melhor que o livro estava mexendo com as pessoas, e muito
negativamente, inclusive. A única resenha que saiu do livro na época foi na Folha de
S.Paulo. O crítico, um homossexual que eu conhecia, arrasou com o livro, dizendo
que neste país não havia editores com coragem suficiente para mandar o escritor
cortar trechos, que não eram necessários, de suas obras. A Universidade
também não gostou do livro. Escrevi um livro anti-acadêmico, com todo o rigor de
um livro da academia, porque a pesquisa é bruta. Mas aí veio esta quarta edição,
que também penei muito para que saísse. E, digo isso com orgulho, estou
comovido com a repercussão que o livro está tendo nas novas gerações.
Jamais poderia imaginar. Eu tenho sido recebido com muito carinho, as pessoas estão
completamente embasbacadas com o livro. Falei com o [ator] Guilherme Weber,
pelo Facebook, e ele disse que estava “empolgadíssimo com a leitura” de
Devassos. Tenho recebido esse retorno das pessoas o tempo todo.
LGBT
A publicação de Devassos já faz parte da história da cultura
LGBT a essas alturas. Na última parte do livro, que se chama “Resistência
dos vaga-lumes”, faço alusão ao fato de que eu jamais encontrei a comunidade LGBT
no Brasil com tamanho nível de consciência política. Nos meus artigos,
tanto para a revista Sui Generis, quanto para a G Magazine, muito frequentemente
fazia críticas severas a algumas situações da comunidade. Coisas muito
negativas. Uma delas era o baixo nível político dos gays no Brasil. E quando eu
falo de nível político, não me refiro à política partidária, mas sim ao nível
político sobre os direitos dos gays e de como lutar por eles. Era uma comunidade
completamente refratária e muito distante dessas coisas — e que ainda continuava, de
certo modo, culturalmente, dentro do armário mesmo que frequentasse
sauna, boate, clubes, etc.
SELEÇÃO DE ALGUMAS PASSAGENS
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