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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ENTREVISTA DESTAQUE: A última entrevista do filósofo Emil Cioran

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Filósofos/Entrevistas

FILÓSOFO GERD BORNHEIM


Existencialismo
uma Presença Extraordinária em Nosso Tempo


Aqui, uma entrevista feita pelo presidente da SAEP (A Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica, é uma sociedade científica, sem fins lucrativos, integrada por psicólogos que tem o objetivo de divulgar a Psicoterapia Existencial e habilitar psicoterapeutas na Abordagem Existencial. Para conhecer mais acesse o site:http://www.existencialismo.org.br/saep/index.html) , psicólogo Jadir Lessa, com um dos mais respeitados representantes do Existencialismo no Brasil, o filósofo, professor e doutor Gerd Bornheim, quando ainda em vida. Bornheim, Intitulava-se um pesquisador. Ler e escrever eram as atividades que mais o agradava. Possui vários livros publicados, quase todos esgotados, além de muitos artigos e capítulos editados em obras coletivas. Lecionava regularmente filosofia na UERJ e era muito solicitado para ministrar palestras em congressos e outros eventos no Brasil e no exterior. Ao final da entrevista há um resumo de sua biografia.

Jadir Lessa: Como surgiu o seu interesse pelo Existencialismo?
Gerd Bornheim: Era a época! Uma época que veio da 2ª Guerra Mundial em que o indivíduo não existia. Conturbada depois por ditaduras de diversas ordens, um totalitarismo político que fez com que os valores do indivíduo fossem ressaltados. Então ele fica mais desperto. Não só o indivíduo em primeiríssimo lugar, mas a situação histórica fantástica que é o individualismo. E nós presenciamos hoje a crise do individualismo, a crise de nós mesmos, em última análise. Este indivíduo tem a presença muito forte, mas de certa maneira crítica, existencialmente crítica. E em segundo lugar exatamente este aspecto é que o indivíduo, por contingências históricas das mais diversas, a começar pela política, se tornou crítico. Ele quer questionar a realidade e não a aceita mais passivamente. Por exemplo: se fala hoje que há uma manipulação muito grande da realidade humana. Manipulação fantástica havia na Idade Média, quando foi disseminado, contra a conquista árabe, o culto à virgem Maria. Isso era feito em nome do absoluto, que na verdade não é absoluto. É autoritário, dogmático. Mas havia aí uma manipulação sobre o conceito mesmo da mulher que era fantástico, extraordinário. Hoje as coisas se tornaram críticas justamente porque a manipulação é questionada. Todo mundo fala que o homem é manipulado e por aí vai. Eu acho que esse pensamento existencial, essa postura mais crítica é que justifica a presença da própria psicologia e principalmente da filosofia nesse tipo de atividade. A consciência crítica leva a questionar o conceito de manipulação.

JL: Como o senhor vê a situação do Existencialismo hoje no Brasil e no mundo?
GB: O Existencialismo é um movimento que atingiu o seu apogeu na metade do século. Os grandes mestres praticamente desapareceram. O problema é que as questões colocadas pelo pensamento existencialista dizem respeito a própria realidade humana em toda a sua extensão. E a partir daí o Existencialismo continua tendo uma repercussão teórica e prática crescente. É impressionante como no campo da Psicologia e da Psicanálise, no Brasil e no mundo, se busca discutir as teses do Existencialismo clássico, que continuam tendo uma vitalidade muito grande, já que o pensamento subsequente se compraz muito em reduzir tudo à categoria do objeto, ao cientificismo, e tende a esquecer a realidade humana. Quando de fato essa realidade humana é que tem que ser pensada, meditada, questionada. E o Existencialismo é a doutrina que coloca as categorias básicas para se repensar a realidade humana. É como Freud, também do início do século. Mas afinal de contas, o Existencialismo continua tendo uma presença em nosso tempo de fato extraordinária.

JL: Dentre os temas existencialistas quais aqueles que mais o interessam?
GB: Os clássicos, são os temas que ficam. Aquilo que Heidegger falava de inquietação, de angústia, existência autêntica e inautêntica, o ser para a morte, bem entendida a coisa toda, evidentemente, a questão da liberdade, da responsabilidade sartreanamente colocadas. São questões que ainda não encontraram um equacionamento muito amplo, porque uma grande lacuna do nosso tempo, que justifica tudo que falamos aqui, é o fato de que ainda não existe uma ética, uma moral adequada a esse mesmo tempo. Então o homem fica um pouco à deriva, instável. Ele não tem normas e não se trata das normas. Ele tem que desenvolver o senso de responsabilidade, de liberdade para chegar de fato a equacionar essas coisas de modo adulto e maduro. E isso se faz em larga medida com a colaboração da psicoterapia.

JL: E por falar em psicoterapia, o que o senhor pensa sobre os currículos dos cursos de Psicologia das faculdades do Rio de Janeiro?
GB: Não sou psicólogo e não conheço esses currículos. Sei que há uma diversidade muito grande de cursos e consequentemente de orientações. Acho que uma coisa mais ou menos universal em toda essa atividade, que é extraordinária, é que há um interesse muito grande pelas discussões de ordem filosófica. As doutrinas filosóficas têm uma atualidade extraordinárias e me pergunto até se certas opiniões são esquecidas, como por exemplo Jaspers, que tem uma ligação com a Psiquiatria tão fundamental, ou Gabriel Marcel e tantos outros. Porque há uma abertura hoje, do ponto de vista psicológico, para a vida filosófica, para a atividade filosófica, de fato, excepcional.

JL: Quantos livros o senhor já publicou e quais são eles?
GB: Livros, eu tenho mais ou menos uma dúzia. Agora tenho muita coisa em obras coletivas, como por exemplo a série toda da Companhia das Letras, Ética, Tempo e História, Arte e Pensamento, O Olhar, O Desejo e o último chama-se A Crise da Razão. Os meus livros, eu tenho bastante mas está quase tudo esgotado. Porque eles se esgotam e os editores não se interessam em fazer novas edições, eu não entendo bem porquê. Agora estou preocupado em começar um processo de reeditar meus livros que, modestia à parte, têm um sucesso interessante: oito, doze edições. Acho que esse ostracismo não se justifica.

JL: Gostaria que o senhor falasse sobre a tradução do “Ser e Nada” de Sartre para o português?
GB: Ela corre muito bem. A tradução é muito bem feita. Na primeira edição houve uma série de falhas técnicas apontadas pelo próprio tradutor. Falhas das origens das mais diversas que, segundo ele, nas edições subseqüentes seriam sanadas. Mas eu fiquei espantado com o sucesso dessa tradução. Já são diversas edições que se acumulam. É um sucesso, um best-seller no mercado. Acho que o público leitor brasileiro está de parabéns por ter tanto interesse por obra difícil, pensada na base do Sartre. Agora nós temos dois livros fundamentais o “Ser e Tempo”, de Heidegger e o “Ser e Nada”, de Sartre, traduzidos para o português. Isso é um evento da maior significação.

JL: E a tradução de “Ser e Tempo”?
GB: Eu faço algumas reservas de ordem técnica, mas a tradução é muito boa. Com certas palavras e expressões eu não concordo, mas é uma questão técnica. No “Ser e Tempo” a tradução corre muito bem, se lê de fato com facilidade. Mas de repente traduzir ‘dasein’(ser aí) por ‘presença’, eu não concordo, isso para dar apenas um exemplo.

fonte: http://www.existencialismo.org.br




Quem é SARTRE (105-1980): "Se um certo Jean-Paul Sartre for lembrado, eu gostaria que as pessoas recordassem o meio e a situação histórica em que vivi, todas as aspirações que eu tentei atingir. É dessa maneira que eu gostaria de ser lembrado." Essa declaração foi feita por Sartre durante uma entrevista, cinco anos antes de morrer. Na mesma ocasião, disse que gostaria que as pessoas se lembrassem dele por seu primeiro romance, "A Náusea", e duas de suas obras filosóficas, a "Crítica da Razão Dialética" e o ensaio sobre Jean Genet. Jean-Paul Sartre influenciou profundamente sua geração e a seguinte. Foi um mestre do pensamento e seu exemplo foi seguido por boa parte da juventude do pós-guerra, nas décadas de 1950 e 1960.


Para entender o que é o existencialismo: "O Existencialismo é um humanismo" (Nesta obra, Sartre o mais expressivo filosofo existencialista abrange de maneira mais clara, os fundamentos do seu pensamento sobre o existencialismo. O autor debate temáticas como a liberdade do indivíduo, a existência de Deus, a má-fé, entre outros, que foram objetivos de sua vida enquanto filósofo. Sartre nega a existência de Deus - motivo que o fez optar pelo ateísmo,e, segundo ele, se Deus nos fez livres, logo somos livres para acreditar ou não em sua existência. Essa obra se fez como uma tentativa de facilitar a compreensão dos ideais existencialistas sartreanos, pois sua obra O Ser e o Nada, é considerado por muitos incompreensível e muito densa para o senso comum.), foi escrito por Jean-Paul Sartre (21/06/1905, Paris, França 15/04/1980, Paris, França), justamente para explicar o existencialismo e defender-se de críticas feitas por leigos. Nele, Sartre afirma que a existência precede a essência. Isto significa que não há uma receita para se fazer um ser humani, que Deus não é um artífice superior que antes de criar o homem já tinha seu rascunho em mente. Ou seja, temos que partir da subjetividade. Não há uma essência igual em todas as pessoas, explica Sartre, uma natureza humana, portanto não há uma lista de regras estabelecidas antes de o ser humano existir; então, ele as tem que criar por si mesmo. Não pode existir nada a priori, para Sartre, já que ele não acredita em Deus, em uma consciência perfeita que pudesse conceituar as coisas. O homem, portanto, não é mais do que o que ele faz, do que o que Sartre chama de seu projeto. O projeto de cada um (suas escolhas) tem um valor universal, apesar de ser individual, e pode ser compreendido por todo homem. Assim, pode-se dizer que existe uma universalidade do homem, mas ela é construída por ele próprio, através de suas escolhas. As escolhas são inevitáveis. Para Sartre, o fato de não haver uma essência anterior à existência força os homens a serem livres: temos que inventar regras, valores, improvisar. Portanto, só o fato de alguém existir traz, obrigatoriamente, o fato de ele ser livre. A existência nos condena à liberdade. Devido à falta de valores predeterminados, estamos sós e sem desculpas. Por isso, ninguém pode se eximir da responsabilidade por seus atos e suas consequências. Cada um escolhe por si mesmo, através de seu próprio julgamento, baseando sua decisão no que achar melhor. Segundo Sartre, o homem é responsável por escolher para si e, com isso, para toda a humanidade, o que causa muita angústia. É desse compromisso de escolher que ele não pode escapar (se ele não escolhe nada, escolhe não escolher). O ser humano tem compromisso com seu futuro, com as outras pessoas, consigo mesmo. Sartre, que defendia que o existencialismo é uma doutrina da ação, dizia que ninguém deve se esquivar de nenhum compromisso, utilizando-se de desculpas, pois cabe a cada um fazer seu próprio destino. Quem tentar escapar à responsabilidade ou ao compromisso estava, na opinião de Sartre, agindo de má-fé.



O Drama Burguês:

Nos discursos alternados, entre Marilena Chaui e Gerd Bornheim, alguns dos temas analisados são: a invenção da política; o poder; vontade do governante; guerra e paz; justiça; as leis; autoridade, autoridade coletiva; espaço coletivo, espaço privado; poder Cristão; república; a questão Burguesa; individualismo; teocentrismo, antropocentrismo; autonomia; biografia burguesa; paradigmas e modelos; lógica de forças; instituições; itinerário do novo homem; capitalismo; moeda.

Biografia
Gerd Albert Bornheim
(Caxias do Sul RS 1929 - Rio de Janeiro RJ 2002: O filósofo Gerd Bornheim, 72, morreu no dia 06/09/2002, em sua casa no Rio, vítima de um tumor cerebral.Especialista em filosofia alemã, existencialismo e filosofia da arte, além de crítico teatral, Bornheim era professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio).). Filósofo, professor e ensaísta. Realiza importantes trabalhos sobre teatro e reflexão estética, que se tornam referência fundamental para a apreensão e compreensão de diversos aspectos da área teatral, entre eles, o sentido do trágico, a estética brechtiana e o teatro contemporâneo. Como escritor, destaca-se pela densidade e clareza de sua análise crítica e, como conferencista, atrai plateias numerosas por sua competência filosófica e capacidade de comunicação.

Em 1951, gradua-se em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC/RS, em Porto Alegre, cidade na qual reside desde os 16 anos. Sua formação tomista proporciona-lhe familiaridade com os clássicos e o aprendizado de latim e grego. Como bolsista do governo francês, chega a Paris, em 1953, para estudar na universidade Sorbonne e entra em contato com o pensamento filosófico contemporâneo. Nos cursos de Jean Hyppolite e Jean Wahl, conhece a obra de Martin Heidegger. Convive com intelectuais consagrados como Merleau-Ponty, Piaget e Bachelard. No ano seguinte, transfere-se para Oxford para cursar filosofia política e literatura inglesa contemporânea e em 1955, frequenta aulas de arte e cultura gótica na Universidade de Freiburg im Breisgaus, na Alemanha.

Retorna ao Brasil, em 1955, para lecionar filosofia na Universidade do Rio Grande do Sul - URGS e um ano depois integra o corpo docente da PUC/RS. Começa a publicar artigos em suplementos literários de periódicos da imprensa, produção que, por vezes, serve de matéria-prima para seus futuros ensaios.

O Curso de Estudos Teatrais da Faculdade de Filosofia da URGS, criado em dezembro de 1957, é efetivado pelo reitor Elyseu Paglioli, que convida o diretor e teórico italiano Ruggero Jacobbi para assumir a direção e ministrar as disciplinas de teoria e história do teatro e direção teatral. Jacobbi desdobra o Curso de Estudos Teatrais em dois setores: o Curso de Cultura Teatral, destinado a professores, intelectuais, estudantes e pessoas interessadas em conhecer e analisar os problemas do teatro, e o Curso de Arte Dramática - CAD, destinado exclusivamente à formação de atores.1

Bornheim relata como começa o seu interesse por teatro e o contato com Ruggero Jacobbi: "[...] foi um acidente, sempre gostei muito de teatro e de música. [...] Nós ficamos muito amigos. Ruggero, na parte prática, não era tão bom, mas era um teórico maravilhoso. Comecei a assistir umas aulas suas à noite e depois saíamos para tomar uma cervejinha, comer uma macarronada, e fui gostando daquilo. Ele montou o Egmont de Goethe e Cacilda Becker levou Maria Stuart. Tudo foi feito concomitantemente: a escola e as montagens. Ruggero obrigou-me a fazer uma série de conferências sobre Goethe e Schiller, e, com isso, fiquei ligado também ao teatro. Logo comecei a escrever uns ensaios menores sobre teatro. Aí aconteceu uma fatalidade: Ruggero simplesmente desapareceu do Brasil sem se despedir de ninguém, sumiu. Então a coisa sobrou para mim, porque ele dava teoria do teatro. Fui obrigado a dar teoria do teatro e acabei diretor da escola. Isso foi um desvio muito interessante para mim".2

Ruggero Jacobbi regressa a Roma, em 1960, e Gerd Bornheim assume a direção da escola até 1969, sendo responsável inicialmente pelas "aulas de teorias do ator: estética e poética da encenação"3 e, mais tarde, por "história e estética do teatro".4 O filósofo inaugura um promissor percurso ensaístico ao escrever seu primeiro livro Aspectos Filosóficos do Romantismo, em 1959, acerca do romantismo alemão e do teatro ocidental do século XX. Em 1961, publica a tese apresentada no concurso para livre-docência de filosofia na faculdade da UFRGS, com o título Motivação Básica e Atitude Originante do Filosofar, texto cuja nova edição, em 1970, sai com o título Introdução ao Filosofar.

Em 1965, lança O Sentido e a Máscara, reunindo artigos escritos na década de 1960 sobre o teatro contemporâneo, o teatro de vanguarda, Ionesco, o expressionismo, o trágico, Kleist, Goethe e Brecht. Segundo o filósofo João Vicente Ganzarolli de Oliveira: "À guisa de síntese, podemos dizer que o nosso autor é movido por uma mesma pergunta em todos os nove artigos independentes que compõem O Sentido e a Máscara: 'Qual a situação do teatro hoje?' É uma pergunta geradora, espontaneamente desdobrável em novas interrogações concernentes ao mesmo assunto focalizado. [...] O intuito de Gerd concentra-se na busca de um denominador comum para a arte teatral do século XX, ao menos no tocante às próprias idiossincrasias que tornam difícil a sua compreensão".5

É cassado em novembro de 1969, não porque tenha algum envolvimento com organizações políticas clandestinas, mas por influenciar com suas ideias os jovens universitários que participam da resistência à ditadura militar. Na onda de repressão que se segue ao golpe de 1964 e se agrava no fim de 1968, com o AI-5, acaba impedido de trabalhar como professor. Passa dois anos dando aulas em um curso pré-vestibular e todos os meses é chamado para depor na Polícia Federal.

Aceita o convite para dar aulas no Instituto de Filosofia da Universidade de Frankfurt onde leciona durante um semestre letivo, em 1972. Vai para Paris, lá mora por quatro anos, e para sobreviver dá aulas de alemão e cuida da organização de uma galeria de arte no Boulevard Saint-Germain. Retorna ao Brasil em 1976 e, após três anos, a anistia lhe permite retomar as atividades no magistério superior. Em 1979, é convidado a lecionar de filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, na qual permanece de 1979 a 1991, depois se aposenta por tempo de serviço e começa a lecionar na Universidade do Rio de Janeiro - UERJ.

Publica, em 1983, Teatro: A Cena Dividida, em que reúne três ensaios, dirigidos aos estudantes e público não especializado. O primeiro fala sobre o caráter popular inerente às manifestações da teatralidade; o segundo discute as relações entre o teatro e a literatura, com questões em torno do teatro de texto e do teatro de espetáculo; e o terceiro apresenta um amplo painel sobre os aspectos fundamentais do teatro contemporâneo.

Gerd Bornheim dedica especial atenção a Bertolt Brecht e seu impacto no teatro do século XX no livro Brecht: A Estética do Teatro, publicado em 1992: "Quero transmitir ao leitor uma visão ampla das ideias estéticas de Brecht, respeitando sempre a prática e os confrontos que estão na origem e na maturidade daquelas ideias". Nesse livro o autor analisa o estético, o social e o especificamente teatral na obra de Brecht, em uma inédita perspectiva de abordagem.

Um de seus últimos livros, Páginas de Filosofia da Arte, publicado em 1998, reúne ensaios - que de acordo com a nota introdutória "nasceram de certa dispersão, ou da diversidade de interesses do autor"6 - escritos a partir de 1986 para jornais, revistas e obras coletivas. Os relacionados ao teatro discorrem sobre variados temas: Shakespeare, teatro besteirol, teatro experimental, Gerald Thomas e Brecht.

O teatro tem lugar de destaque na obra de Gerd Bornheim, como observa o teórico e diretor Luiz Carlos Maciel: "Depois da Filosofia, o que Gerd mais gostava era o Teatro. Quando era seu aluno, precisava de um local de ensaios para o espetáculo de Esperando Godot, de Beckett, que eu dirigia. Gerd emprestou logo o apartamento dele. Quando o Teatro Universal foi a um festival, no Recife, apresentando a peça A Cantora Careca, de Ionesco Abujamra, que era o diretor, convidou Gerd para fazer o papel de bombeiro, e ele aceitou; o filósofo tinha apreciável domínio de cena. [...] Hoje, no Brasil, qualquer discussão sobre teoria do teatro (e também outras questões estéticas) passam obrigatoriamente pelos escritos de Gerd".7

Notas
1. RAULINO, Berenice.Ruggero Jacobbi: presença italiana no teatro brasileiro. São Paulo: Perspectiva: Fapesp, 2002. p. 177-187.

2. NOBRE, Marcos; REGO, José Marcio (Org.). Conversas com filósofos brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2000. p.49.

3. CALAGE, Eloi. O sentido e a máscara. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jul. 1966.

4. BORNHEIM, Gerd. Páginas de filosofia da arte. Rio de Janeiro: Uapê, 1998. p. 255.

5. OLIVEIRA, João Vicente Ganzarolli de Oliveira. Arte e beleza em Gerd Bornheim. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003. p.114-115.

6. BORNHEIM, Gerd. Páginas de filosofia da arte. Rio de Janeiro: Uapê, 1998. p. 9.

7. MACIEL, Luiz Carlos. A afirmação do efêmero. Gazeta Mercantil, São Paulo, 28 fev., 1 e 2 mar. 2003.

fonte: http://www.itaucultural.org.br/




Émile Michel Cioran, também conhecido como Emil Cioran (8 de abril de 1911, Răşinari, Sibiu, Austria-Hungary (hoje Romênia) - 20 de junho de 1995), filósofo romeno-francês. A maior parte de suas obras estão publicadas em francês. Após estudar Ciências Humanas no colégio Gheorghe Lazăr em Sibiu, Cioran começou a estudar Pedagogia na Universidade de Bucareste aos 17 anos. Ao ingressar na Universidade, aproximou-se de Eugène Ionesco e Mircea Eliade, os três permaneceriam amigos por muitos anos. Fez amizade com os futuros filósofos romenos Constantin Noica e Petre Ţuţea durante o período em que receberam ensinamentos de Tudor Vianu e Nae Ionescu. Cioran, Eliade e Ţuţea tornaram-se adeptos das idéias de seu mestre Nae Ionescu – ou seja, uma corrente denominada Trăirism, que mesclava o Existencialismo com idéias comuns às várias formas do Fascismo.

Absorvendo influências Germânicas, seus primeiros estudos centralizaram-se em Emmanuel Kant, Arthur Schopenhauer, e principalmente Friedrich Nietzsche. Tornou-se um agnóstico, tomando por axioma "a inconveniência da existência". Durante seus estudos na Universidade, Cioran também foi influenciado pelas obras de Georg Simmel, Max Stiner, Ludwig Klages e Martin Heidegger, e também pelo filósofo russo Lev Shestov, que aliou a crença na arbitrariedade da vida à base de seu pensamento. Cioran graduou-se com uma tese sobre Henri Bergson; mais tarde, porém, renegaria Bergson, alegando que este não compreendera a tragédia da vida.
Maiores informações sobre a biografia do filósofo Emil Cioran ( consulte em espanhol é mais completa)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Emil_Cioran


Pouco antes de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert Jocks, publicada no nº 5 da revista "Kulturchronik", editada em Bonn pela InterNationes. A tradução do espanhol é de, Reynaldo Damazio. Confira os trechos mais importantes desta conversa em que o autor de “Silogismos da Amargura”, “Breviário da Decomposição” e “História e Utopia”, entre outros, fala da morte, do tédio, de sua juventude, do escritor Samuel Beckett e do início de sua ligação com a filosofia. Cioran foi um dos autores mais corrosivos e polêmicos do século XX, colocando em xeque as pretensões racionalistas e tecnicistas da civilização ocidental, assim como os dogmatismos religiosos. Seus livros são escritos com fúria e beleza, muitas vezes resvalando pela linguagem poética, através de aforismos. Cioran nasceu em Rasinari, Romênia, em 1911, mas desde jovem radicou-se em Paris. Considerado um filósofo niilista radical, enfrentou com insistência, em seus textos, os temas do desespero, da solidão e do vazio que ronda o homem contemporâneo. Normalmente é colocado ao lado de pensadores como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche.

Qual o significado de sua vida na Romênia, de sua infância?

A Romênia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir, senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples. A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpados. Eu tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro mundo, além da civilização. Talvez porque viviam em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade não deve ter sido tão ruim, segundo eles.

Quando isso acabou?

Em 1920, aos dez anos de idade, quando tive que abandonar meu povoado e mudar-me para Hermannstadt, para estudar na escola média. Jamais esqueci essa catástrofe, essa tragédia, meu desespero naquele dia. Parecia o meu fim. Na época não havia carros, de modo que um camponês levou meu pai e eu a cavalo. O primitivo, que vivi ali, parecia-me a única vida possível. O que conta é a pré-história, isto é, o tempo anterior à entrada na consciência, na história, a vida inconsciente. A Humanidade deve seguir sendo o que é (risos), porque a História é apenas um equívoco; a consciência, um pecado; e o ser humano, uma aventura sem igual.

Uma reflexão religiosa?

Eu não sou ateu, ainda que não creia em Deus e não reze. Mas há em mim uma dimensão religiosa indefinível, para além de toda fé. O crente se identifica com Deus, o que pode compreender, mas eu mesmo me sinto distante de tudo isso. Eu me movo na linha divisória. A grande idéia do pecado original do ser humano é compartilhada por mim, mas não no modo como se pensa oficialmente sobre o assunto. Tanto a História como também o homem são, queiramos ou não, produtos de uma catástrofe. A idéia do desvio do ser humano é imprescindível para se entender o desenvolvimento da História. Segundo essa idéia, o ser humano é culpado, não no sentido moral, mas por ter se envolvido nessa aventura. Quando abandonei minha aldeia, deixei de ser primitivo. Antes, havia pertencido à Criação, como os animais, com aqueles que tinham uma relação pessoal comigo; agora me encontrava fora, à distância.

Você discorreu sobre os santos, sobre a “Criação fracassada”, e viu-se metido em dificuldades?

Sim. Minha mãe era presidenta da Igreja Ortodoxa em Hermannstadt e meu pai — bom sacerdote, além de sincero, mas de modo algum um homem de profunda religiosidade — queria na verdade ser advogado. Ficou muito triste quando leu o texto Sobre lágrimas e Santos, no final de 1937, pouco antes de minha mudança para Paris. Quando enviei o manuscrito ao meu editor romeno, este me telefonou um mês depois para dizer-me que não poderia imprimi-lo. Ele mesmo não havia lido, mas sim um de seus linotipistas, e disse que devia seu patrimônio à ajuda de Deus e que não poderia publicar um livro assim por nada nesse mundo. De minha parte, em plenos preparativos de viagem à França, perguntei-me desesperado o que fazer. Na ocasião, encontrei-me com um romeno que havia colaborado com a Revolução Russa e tinha conhecido Lênin. Perguntou-me o que acontecia, contei-lhe a história e ele era dono de uma gráfica. Assim, meu livro foi lançado sem um selo editorial, pouco depois de ter-me mudado para Paris. Alguns meses depois, recebi uma carta de minha mãe, na qual falava sobre a desgraça que meu livro havia provocado. Ainda que não fosse em verdade uma religiosa, sentia-se sob fortes pressões e rogou-me que retirasse o livro de circulação. Respondi que era a única obra religiosa escrita nos Bálcãs, porque era uma confrontação balcânica com Deus. Quase todos meus amigos reagiram mal, sobretudo Mircea Eliade, que escreveu uma crítica extraordinariamente dura, enquanto que uma garota que eu conhecia me disse que era o livro mais triste que havia lido. Evidente que se tratava de uma experiência religiosa equivocada. Eu havia mergulhado de tal modo na vida dos santos que, na verdade, deveria ter rezado. Mas para isso me faltavam os dotes necessários, ainda que me sentisse atraído pelos grandes místicos. Porém, a fé religiosa não é nunca resultado da reflexão, mas algo muito complicado. A religiosidade pode ser tola, mas tem raízes muito profundas (risos).

Em sua obra transparece um elogio da vida primitiva.

Nesse povoado romeno em que vivia, tínhamos uma horta ao lado do cemitério e, por essa razão, desde pequeno fiquei muito amigo de um coveiro de cinqüenta anos. Era um homem que agia alegremente quando tinha que cavar uma tumba e jogava futebol com as caveiras. Tenho me perguntado sempre como podia sentir-se tão feliz dia após dia. Eu mesmo não era como Hamlet, não era suficientemente trágico. Mais tarde, nossa estreita amizade sofreu uma mudança e se converteu num problema. Eu me pergunto por que razão temos que experimentar tudo isso na vida. Somente para acabar como um cadáver? Essas impressões ficaram gravadas indelevelmente. Aquele homem — enfrentando a morte diariamente — se comportava como se nunca tivesse visto um morto. Gostava muito dele. Estava sempre sorrindo.

A morte é um tema ao qual você tem sido fiel.

Desde cedo. É uma postura com que se vincula outro tipo de intensidade. Tenho convivido com a morte, desde muito jovem. Ainda que agora tenha mais motivos para pensar nela, não associo com a morte nenhuma idéia compulsiva. Em minha juventude, a idéia que tinha da morte era uma obsessão que se apoderava de mim de manhã até a noite. Como núcleo da realidade, possuía uma presença opressora, muito distante de todas as influências literárias. Tudo girava em torno dela, para além da repugnância e do medo, ainda que de forma patológica. Isto, naturalmente, era também conseqüência de que não dormi bem durante sete anos de minha juventude, de que estava extenuado. Naquele tempo, escrevi No cume do desespero. Essa insônia persistente transformou minha perspectiva do mundo e minha atitude diante dele. O momento pior desta situação aconteceu em Hermannstadt, quando vivia com meus pais. Caminhava sem destino, pela cidade, à noite. Minha mãe chorava de desespero, e eu mesmo, que acabara de completar 21 anos, estava a ponto de me suicidar. Até hoje não sei porque não o fiz. É possível que tenha aplacado a vontade de suicídio por força de escrever. Eu não tinha a menor idéia concreta do que era minha vida.

Você mudou sua idéia da morte?

Não é possível mudar a opinião que se tem sobre a morte. Constitui de per si um problema, o problema da existência. Em comparação com ele, todo o restante se evidencia como carente de importância. Curiosamente, há muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que significa a morte são minoria. Aos demais falta valor e mesmo os filósofos evitam o problema.

Mas se filosofa sobre a morte.

Claro que a morte é um tema na história da filosofia (risos), mas não como vivência íntima. Em Baudelaire existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés de experimentá-la como algo existente. Não a consideram como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles adentram profundamente o fenômeno, rastreando-o. Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta. Parece exagerado, mas é assim.

Numa série de ensaios sobre amigos, você escreveu sobre Samuel Beckett. O que o agrada na obra dele?

O fato de não necessitar de heróis, de ter criado um tipo humano incomum e, com ele, ter apresentado outro gênero de humanidade. Sua obra, assim, não está vinculada a um tempo determinado. É a obra singular de um sujeito singular.

Não os aproxima também a fascinação pelo fenômeno do tédio?

A experiência do tédio, não do vulgar, por falta de companhia, mas o absoluto, é muito importante. Quando alguém se sente abandonado pelos amigos, não é nada. O tédio em si advém sem motivo, sem causas externas. Com ele vem a sensação de tempo vazio, algo assim como a vacuidade, coisa que conheço desde sempre. Posso recordar muito bem da primeira vez, quando tinha cinco anos. Vivia, então, na Romênia, com toda minha família. Então, tive de repente a consciência clara do que era o aborrecimento, o tédio. Foi por volta das três da tarde, quando fui tomado pela sensação do nada, da absoluta carência de substância. Foi como se, de súbito, tudo tivesse desaparecido, tudo mergulhasse na nulidade e fosse o começo de minha reflexão filosófica. Esse estado intenso de solidão me afetou de maneira tão profunda que me perguntei o que significava realmente. Não poder defender-se, nem poder se livrar dele com a reflexão, assim como o pressentimento de que voltaria outras vezes, me desconcertou tanto que o aceitei como ponto de orientação. No auge do tédio se experimenta o sentido do Nada, e neste sentido não se trata de uma situação deprimente, já que para uma pessoa não crente representa a possibilidade de experimentar o absoluto, algo como o instante derradeiro.

fonte: http://www.revistabula.com/posts/vale-a-pena-ler-de-novo/

Claude Lévi-Strauss

(28/11/1908, Bruxelas, Bélgica. 01/11/2009, Paris, França.)


Um dos grandes pensadores do século 20, Lévi-Strauss tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.


De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.

Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas lingüísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.

Lévi-Strauss não vê o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.

Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.

Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado, porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".

fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u642.jhtm



“O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; formam sistemas. Estou persuadido que estes sistemas não existem em número ilimitado e que as sociedades humanas, tal como os individuos – nos seus jogos, nos seus sonhos ou nos seus delirios – limitam-se a escolher certas combinações, num repertório ideal que seria possível reconstituir.

Um espírito malicioso já definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poderíamos com mais razão aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: vão da frescura à decrepitude sem se deterem na antiguidade.

Nas cidades do Novo Mundo não é propriamente a falta de reminiscências que me choca. Essa ausência é um elemento da sua significação. Estas cidades são jovens e extraem dessa juventude sua essência e justificação. A passagem dos séculos representa uma promoção para as cidades européias; para as americanas, a simples passagem dos anos é uma degradação. Não foram apenas construídas recentemente, mas de forma tal que podem renovar-se com a mesma velocidade com que foram erguidas, isto é, mal. No instante em que se erguem novos bairros, quase não chegam a ser elementos urbanos: são demasiadamente novos para o serem. O estilo passa de moda, a ordenação arquitetônica primitiva desaparece com as demolições que são exigidas por uma nova impaciência.

Não são cidades novas contrastando com cidades antigas, mas são cidades com um ciclo evolutivo demasiadamente rápido. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte; as do Novo Mundo vivem febrilmente numa doença crônica: eternamente jovens, nunca são todavia saudáveis.

Botânicos nos ensinam que as espécies tropicais compreendem variedades mais numerosas do que as das zonas temperadas, mesmo que cada uma delas seja constituída por um número muito restrito de indivíduos. Esta especialização, no Brasil, foi levada até os limites máximos.

Assim é que uma sociedade limitada distribuiu os papéis entre os seus membros. Nela podiam encontrar-se todas as ocupações, todos os gostos, todas as curiosidades justificáveis da civilização contemporânea, embora cada setor fosse encarnado por representante único. Nossos amigos não eram exatamente pessoas, mas sim funções cuja lista havia sido estabelecida mais em virtude da sua importância intrínseca do que das suas disponibilidades. Havia assim o católico, o liberal, o legitimista, o comunista ou, noutro plano, o gastrônomo, o bibliófilo, o apreciador de cães ou cavalos de raça, da pintura antiga, moderna. Havia o erudito local, o poeta surrealista local, o musicólogo local, o pintor local.

Nenhuma preocupação real em aprofundar os conhecimentos encontrava-se na base destas vocações. Se por acaso dois indivíduos, em resultado de erro de manobra ou por pura inveja, ocupavam o mesmo domínio ou domínios próximos, passavam a ter a preocupação exclusiva de se destruírem mutuamente, o que faziam com persistência e ferocidade notáveis. Havia troca de visitas entre feudos vizinhos, com muitas mesuras uma vez que todos estavam interessados em se manter nas posições. Somos forçados a reconhecer que alguns dos papéis eram desempenhados com brilho extraordinário devido à conjugação de fortunas herdadas, encanto nato e muita manha adquirida.

Os estudantes queriam saber muito, porém apenas das teorias mais recentes. Nunca liam as obras originais, preferiam as publicações abreviadas e mostravam enorme entusiasmo pelos novos pratos. É uma questão de moda e não de cultura. Idéias e doutrinas não apresentavam aos seus olhos um valor intrínseco, eram apenas instrumentos de prestígio, cuja primazia deveriam obter. Partilhar uma teoria conhecida por outros era o mesmo do que usar roupa pela segunda vez. Uma concorrência encarniçada estabelecia-se com o fito da obtenção do modelo mais recente e mais exclusivo no campo das idéias.

Na América tropical o homem encontra-se dissimulado. Em primeiro lugar pela sua própria escassez. Mas mesmo nos locais em que se agrupou em formações mais densas, os indivíduos permanecem enleados pela agregação muito recente. Ainda não aprenderam a conviver. Qualquer que seja o grau de pobreza, no interior ou mesmo nas grandes cidades, só excepcionalmente chegamos ao ponto de ouvir os seres gritarem – sempre é possível subsistir com pouca coisa num solo que começou a ser saqueado pelo homem – e só em alguns pontos – há apenas 450 anos.”

Trecho de Tristes trópicos, Lisboa/São Paulo, Ed. 70/Martins Fontes,1981.

"PT pode inspirar esquerda francesa e europeia ", diz analista
RFI-Reportagem publicada em 19/02/2010 Última atualização 19/02/2010 18:42 TU

"O jeito petista de governar teve uma influência bastante forte na Europa. As experiências de orçamento participativo, por exemplo, tornaram-se uma referência internacional. O PT mostrou que é possível se reformar a democracia dentro das instituições".

A reflexão é do pesquisador o pesquisador Fréderic Loault, do Observatorio Político da América Latina e Caribe, da Universidade Sciences Po, na França. O analista vai mais longe ainda, defendendo a ideia de que o PT seria uma fonte de aprendizagem política para a renovação dos velhos partidos de esquerda da França,e até da Europa. "Se fizermos um balanço, o PT contribuiu muito para a consolidação da democracia brasileira.

PT: 30 anos de história e compromisso com o Brasil
No dia 10 de fevereiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) comemorou 30 anos de história. Nasceu diferente de todos aqueles que existiam como organização partidária à época. Sua origem foi no movimento popular e sindical, nas comunidades eclesiais de base, nos grupos intelectuais de esquerda. Acolheu organizações que radicalizavam na postura política, pregando a luta armada para o rompimento com o sistema vigente. Mais tarde, esses grupos saíram do partido. Mas também acolheu movimentos que defendiam a caminhada pacífica e a orientação pelos princípios cristãos.

Foram essas diferenças que marcaram a diferença do PT. A capacidade de ter respeito por aquilo que não é igual, não é uniforme, mas está congraçado e convergente a objetivos comuns e interesses coletivos como liberdade, justiça, participação.

O PT também surge como instrumento de defesa das organizações populares e cria uma relação de respeito às instâncias dessas organizações sem impor posicionamentos; ao contrário, o debate para o convencimento e o trabalho articulado é marca histórica do PT. Por isso as inúmeras e intermináveis reuniões. Porque acreditamos que o consenso é o objetivo da democracia, mais do que a vontade da maioria. É verdade que nem sempre conseguimos estabelecê-lo, mas sempre primamos por ele.

Quando todos imaginavam um partido carrancudo, simbolizado por barbas cerradas, o PT absorveu a alegria popular e a fez instrumento para enfrentar as dificuldades que enfrentou. Disseminou emoção com suas campanhas e músicas diferentes e criou marcas, tantas que, em um dado momento, surgiu a expressão: “Isso é coisa do PT”.

Foram altos e baixos, erros e acertos e a alcunha acima caracteriza coisas boas e ruins na vida partidária. Mas temos convicção que as coisas boas foram sempre maiores, caso contrário a maior liderança petista não estaria governando o Brasil por quase oito anos com uma estrondosa aprovação popular.

Quando olhamos para a trajetória partidária, fica nítido que estamos contribuindo para mudar o País. As propostas debatidas e gestadas nas instâncias do PT nesses trinta anos tem dirigido muitas ações de governo. Revolucionamos a vida de milhões de pessoas, garantimos a sobrevivência de quem estava condenado pela miséria. Estimulamos o desenvolvimento a ponto de o País ser credor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mais ainda, o prestígio internacional conquistado pelo Brasil não porque somos uma potência bélica ou financeira, mas, porque, além do respeito com os demais países, o governo teve a coragem de admitir que seu povo vivia com fome e enfrentou com prioridade esse problema.

O salário mínimo chegou a trezentos dólares, o real foi a moeda mais valorizada no ano da crise e o desastre econômico internacional não atingiu o povo brasileiro. A educação tem grandes investimentos. O planejamento de médio e longo prazo foi retomado e agora seremos um grande produtor de petróleo.

Os resultados de nosso governo são possíveis porque o PT não é um partido que atua na política só para vencer eleições e exercer o poder. O PT quer mudar a vida das pessoas, servir as comunidades, fazer com que todos possam desfrutar de alegrias e felicidade.

Queremos continuar com essa história e com essa causa. É por isso que outra vez inovaremos em nossa caminhada. Depois de um operário presidente, o PT escolhe para a disputa eleitoral de 2010 uma mulher, a ministra Dilma Rousseff, que não tenho dúvidas, o sucederá. E com certeza isso também é, como as conquistas relatadas, coisa do PT.

Aqui, no Paraná, para presentear essa história e homenagear aqueles que nos antecederam, lançamos um livro, escrito pelo jornalista Roberto Salomão, Anos Heróicos, que conta como foram os dez primeiros anos do PT, até eleger sua primeira bancada de deputados federais.

Para mim foi uma honra, um orgulho e um enorme desafio presidir esse partido. Espero ter contribuído um pouquinho com essa história. Parabéns, PT! Parabéns a todos e todas que ajudaram e ajudam a construir suas marcas.

Gleisi Hoffmann é advogada e ex-presidente do PT do Paraná. Pré-candidata ao Senado.

PT completa 30 anos. O Partido dos Trabalhadores tem quebrado vários paradigmas ao longo de seus 30 anos de existência. Um deles foi a eleição de um operário e líder sindical para presidir o Brasil. A indicação de uma mulher como pré-candidata na disputa eleitoral de 2010 vai ser outro paradigma a ser quebrado pelo PT. Esta é a avaliação de vários petistas presentes ao IV Congresso do Partido dos Trabalhadores que acontece nesta semana, em Brasília. Os 1.350 delegados do encontro vão aclamar neste sábado (20) a pré-candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff à sucessão do presidente Lula.


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