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domingo, 23 de fevereiro de 2014

ATUALIDADES: A EDUCAÇÃO E SAÚDE PÚBLICA VÃO MAL? Outros temas: investimento em saúde; alcoolismo; novo teste HIV; casos de hanseníase no Brasil e a despatologização do sexo e sexualidade pela OMS


Minha opinião na correlação saúde e educação pública. 

O Sistema Único de Saúde (SUS) completou(19.09.13) 23 anos exibindo um paradoxo. O Brasil é o único país do mundo que tem uma rede de saúde gratuita e aberta a toda a população e, ao mesmo tempo, vê o mercado (convênios e consultas particulares) gastar mais dinheiro do que o Estado.[Clique aqui e leia mais: So-no-Brasil-ha-saude-gratuita-e-universal]



Na minha humilde opinião, as pessoas precisam saber que o SUS é o maior e melhor sistema de saúde do mundo, com o lema "sem preconceitos e sem discriminações". Não pague sua mensalidade no seu plano privado para ver se você é atendido. Se o "privado" fosse tão bom quanto propalam os planos não seriam suspendidos por desrespeito às regras de funcionamento [clique aqui e veja lista de planos suspensos].

Saiba que no SUS mesmo que você não possa contribuir com o Estado será atendido. Isso é uma conquista. 

A impressão que dá para quem é refém da mídia oficial [ dominada pelas classes dominantes ] é de que a a saúde pública é uma porcaria, a saúde privada é o "paraíso"; a educação pública é uma porcaria, a educação privada é o "paraíso", a pergunta que devemos fazer: é "paraíso para quem"? 

Pois eu digo que a saúde pública pode ser de qualidade sim, tem bons médicos, ótimos procedimentos, oferta universal. E problemas comuns a um sistema de saúde de atendimento universal. 

A educação pública com todos os seus problemas dá conta de uma formação integral, tem bons professores, e bons alunos. Não podemos comparar escola pública com privada. A privada tem reduzido número de alunos que são selecionados a partir das classes abastadas e por meio de bolsa junto aos melhores alunos das escolas públicas; mas a verdade é que os alunos das escolas particulares não são assim tão "top" quanto propalam. 

A mídia mostra os melhores alunos classificados em vestibulares, como a dizer: são da privada, matricule seu filho se quer ele na universidade. A maior parte dos alunos da escola privada ficam chupando dedo fora das universidades e com uma formação manca pois a escola privada, me desculpem, não cuida de humanizar ninguém a não ser fortalecer ainda mais o "espírito capitalista" alienante em seus pequenos clientes. 

Os professores em reduzido número, sem estabilidade, iludidos por ganhar umas merrecas a mais, se submetem a trabalhar o dobro para dar conta das exigências de "qualidade". Sem contar a falta de respeito dos "belos" alunos junto a seus professores, tratados como "serventes da educação". No geral, quase isso mesmo, repassadores de apostilas, conteúdos reduzidos e condensados.

Saúde pública que pode tornar-se de qualidade com a ação dos cidadãos, educação idem.Tanto que os "maravilhosos" planos particulares de saúde abusam do SUS quando seus "clientes" tem doenças crônicas ou terminais. Usam hospitais públicos. Pior, não pagam. A dívida é infinita, e se o governo liquidasse hoje essas dívidas tchau planos particulares, não ficaria praticamente nenhum. Mas o "jogo" de forças exigem do Estado submissão a essa situação.

O SUS passa pelas esferas federal, estadual, mas quem administra diretamente os recursos são os prefeitos e é lá que o dinheiro geralmente vai para os ralos, portanto, se o SUS na sua cidade não vai bem é porque falta fiscalização dos recursos. Há cidades onde o SUS funciona com qualidade de "primeiro mundo". 

As pessoas também precisam saber que o "cartel" dos médicos dificultam o atendimento no sistema público uma vez que os "filhinhos de papai" só vêem diante de seus olhos cifras, reais, dólares, euros... Lula e Dilma estão mudando essa história com a possibilidade de filhos de trabalhadores fazerem medicina. Essa história vai mudar, vai demorar, mas vai mudar. 

Hoje faltam médicos para atendimentos gerais, com especialidades é uma raridade. Prouni, Sisu, Ciências Sem Fronteiras, são investimentos a longo prazo.O programa "Mais Médicos" também,e especialmente, com a contratação dos competentes cubanos. Portanto, combater a corrupção, formar médicos humanizados, distribuição de renda, fortalecimento do SUS e da educação pública, são os caminhos para construirmos uma sociedade brasileira para todos, com mais justiça e equidade, menos violenta e menos violentadora dos direitos humanos. 

Uma Lei que puna com cadeia e devolução aos cofres públicos, a corrupção que graça pelo país é uma urgência.Pois é mentira que falte dinheiro para saúde e educação. Nunca o Brasil destinou tanto dinheiro para essa áreas, o problema é quem está no fim da linha do envio desses recursos. Se for inescrupuloso já era o dinheiro, infelizmente a maior parte parece bem isso. Corruptos sem passar recibo. Então a saúde e educação padecem, e saúde e educação são pessoas. Então pessoas adoecem e morrem porque falta o essencial além da comida: saúde e conhecimento.

por Lucio LOPES - Fev.2014


Saúde terá R$ 106 bi em 2014 

O Diário Oficial da União publicou, no final de dezembro, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que estabelece os parâmetros para o Orçamento da União de 2014. O valor total destinado aos gastos do Governo Federal no ano é de R$ 2,488 trilhões. Desse montante, R$ 654,7 bilhões serão destinados ao refinanciamento da dívida pública. O restante, R$ 1,834 trilhão, está reservado para o orçamento fiscal, da seguridade social e para investimento das empresas estatais (R$ 105,6 bilhões). 

A previsão para o Ministério da Saúde é de R$ 106 bilhões. A Saúde foi a pasta com maior aumento orçamentário, devido ao maior número de emendas dos parlamentares, seguindo as regras do orçamento impositivo propostas no projeto da LDO para 2014. Em relação a 2013, a verba do ministério cresceu em R$ 5,16 bilhões, sendo R$ 4,48 bi vindos das emendas individuais. Para a educação, serão destinados R$ 82,3 bilhões, R$ 25,4 bilhões a mais que o valor previsto na Constituição para a área. 

A LDO recebeu 13 vetos da presidenta Dilma Rousseff. A maior expectativa era sobre a decisão da presidenta em relação ao orçamento impositivo, que acabou mantido após acordo com o Congresso. Esse mecanismo obriga o governo a executar as emendas parlamentares. Entre os vetos, estão o que destina recursos para a reconstrução da Estação Comandante Ferraz, no Polo Sul, além de dotações que colocariam em risco as metas fiscais. 

 Esse orçamento poderia ser maior, já que o governo brasileiro vai deixar de arrecadar R$ 323,17 bilhões este ano com desonerações tributárias e subsídios, informou o Estadão (30/12/13). De acordo com os economistas Érica Diniz e José Roberto Afonso, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o valor é maior do que a verba destinada aos ministérios da Educação e da Saúde juntos, de R$ 192,74 bilhões. Esses benefícios fiscais são considerados gastos públicos (Radis 131), que o Estado injeta na economia de forma indireta. Isso ocorre, por exemplo, quando o governo abre mão de arrecadar tributos, como fez com montadoras ou com a desoneração da folha salarial. Ou quando deixa de cobrar integralmente os juros pelos empréstimos que concede, e cobre ele mesmo a diferença entre o que recebe pelo financiamento e o que paga para captar os recursos, criando assim um subsídio. 

Entre 2011 e 2014, a desoneração cresceu 38,68% acima da inflação. Um dos problemas, apontaram os pesquisadores, é o fato de essa conta não aparecer no Orçamento federal, ao contrário do que ocorre com gastos com obras, pagamento de funcionários e de benefícios previdenciários, entre outros. Para os economistas, a decisão desses “gastos atípicos” ocorre com pouca discussão com a sociedade. “Os problemas são inúmeros. O primeiro é a opacidade. Essa despesa não aparece no Orçamento, então escapa ao processo normal de controle”, avaliou Afonso. Outras questões apontadas por ele são a ineficiência (“não impulsionam a economia”) e a iniquidade (os benefícios atendem a poucos) da desoneração.

Novo teste de HIV disponível no SUS e em farmácias 
TESTE PODERÁ SER FEITO EM CASA 
O SUS começa a oferecer, a partir de março, um teste rápido de diagnóstico do vírus HIV por meio de fluidos orais (retirados da gengiva e da mucosa da bochecha). A nova tecnologia é um autoexame, semelhante a um teste rápido de gravidez, e funciona como uma forma de triagem, precisando de confirmação posterior. O teste, oferecido na rede pública, depende de um furo no dedo, da presença de um profissional de saúde e de estrutura laboratorial. 

Inicialmente, apenas as ONGs parceiras do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde realizarão o teste, e as populações que apresentam maior vulnerabilidade ao HIV terão prioridade, informou o jornal O Globo (19/12/13). Nesse grupo estão: homens que fazem sexo com homens, gays, profissionais do sexo, travestis, transexuais, pessoas que usam drogas, pessoas em presídios e moradores de rua. No segundo semestre, o teste estará disponível para a maior parte da população nos serviços do SUS que atendem a populações vulneráveis, nas farmácias da rede pública e também em farmácias da rede privada. “O diagnóstico estará disponível para todas as pessoas que quiserem realizá-lo, inclusive como autoexame. A grande vantagem é a segurança e a confiabilidade, além de não necessitar de infraestrutura laboratorial”, explicou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. 

A bula dos testes vendidos em farmácias será detalhada para que não haja dúvidas na hora do uso e conterá orientação para que o usuário procure o serviço de saúde, em caso positivo para o vírus. “As pessoas que, eventualmente, não se sintam à vontade para ir a um centro de saúde ou laboratório poderão fazer o teste com privacidade, em sua casa, no horário e da forma que quiserem”, ressaltou o ministro.

O kit para o exame é produzido pelo laboratório Bio-Manguinhos, da Fiocruz. Para a realização do teste, a pessoa deve ficar 30 minutos sem comer, beber, fumar e escovar os dentes, além de ter que retirar a maquiagem. O fluido a ser examinado deve ser extraído da gengiva e do começo da mucosa da bochecha com o auxílio de uma haste coletora. Depois de 30 minutos, se uma linha vermelha aparecer, significa que não é reagente. Caso apareçam duas linhas vermelhas, é sinal de que há anticorpos HIV naquela amostra, sendo assim, o resultado é positivo.

DEMOROU - SEXO E SEXUALIDADE NUNCA FORAM DOENÇAS
Transexualidade fora da lista de doenças mentais da OMS 
Sexo e Sexualidade - superando os "preconceitos caducos"


Se ainda hoje a transexualidade é considerada uma espécie de distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), essa realidade está prestes a ser alterada. Como informou a Folha de S. Paulo (1º/12/13), a próxima edição da CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) – lista de doenças que orienta a saúde em todo o mundo – vai deixar de tachar como transtornos vários comportamentos relacionados à identidade de gênero.

Pela nova proposta do manual, prevista para entrar em vigor em 2015, os transexuais podem ganhar um capítulo próprio que irá reunir outras “condições relativas à sexualidade” e nada tem a ver com as demais doenças. Nessa categoria, devem entrar outras condições sexuais ainda não definidas pela OMS. Já o sadomasoquismo e o travestismo fetichista, devem ser eliminados da CID-11.

À reportagem da Folha, o diretor de saúde mental da OMS, Geoffrey Reed, disse que se trata de “despatologizar” o sexo e que “comportamentos sexuais inteiramente privados ou consensuais e que não resultem em danos às outras pessoas não devem ser considerados uma condição de saúde”.

A notícia, bem recebida por alguns, promete causar polêmica. Isso porque, ao deixarem de ser classificados como doença, esses comportamentos podem ficar fora da cobertura dos sistemas de saúde. Hoje, no Brasil, por exemplo, o Sistema Único de Saúde garante cirurgias de mudança de sexo e outras terapias aos transgêneros. A psiquiatra Denise Vieira, uma das coordenadoras brasileiras da revisão da CID na área de saúde sexual, garantiu à Folha que o impacto da mudança de diagnóstico nas leis está sendo criteriosamente analisado “para evitar qualquer eventual prejuízo ao acesso a serviços de saúde”.

TRISTE ESTATÍSTICA: 


Álcool mata 80 mil por ano nas Américas XXX O Brasil é o quinto país na relação de óbitos ligados ao consumo de bebidas alcoólicas nas Américas, indicou estudo realizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa, publicada na revista científica Addiction (14/1), investigou todos os óbitos ligados ao álcool em 16 países da América do Norte e da América Latina entre 2007 e 2009 e mostrou que, sem o consumo de álcool, aproximadamente 79.456 mortes poderiam ter sido evitadas anualmente. 

As taxas de mortalidade mais altas são as de El Salvador (média de 27,4 em 100 mil mortes por ano), seguidas pelas de Guatemala (22,3), Nicarágua (21,3), México (17,8) e Brasil (12,2). Em países como Colômbia, Argentina, Venezuela, Equador, Costa Rica e Canadá, as taxas variam de 1,8 a 5,9. 

No Brasil, no Equador e na Venezuela, as maiores taxas de mortalidade foram entre pessoas com idade entre 40 e 49 anos. Já Argentina, Canadá, Costa Rica, Cuba, Paraguai e Estados Unidos registraram mais mortes no grupo de pessoas entre 50 e 69 anos. A pesquisa revelou que 84% dos mortos eram homens. 

Para os autores do estudo, as mortes ligadas ao consumo de álcool podem ser prevenidas com políticas e intervenções que diminuem a ingestão de bebida, como por exemplo o controle no mercado e na publicidade e o aumento de preço do produto (Radis 132). 

Brasil teve 30 mil casos de hanseníase em 2013

O Brasil ainda ocupa o segundo lugar em números de casos de hanseníase, perdendo apenas para a Índia. Mas você sabe que doença é essa? Trata-se de uma doença infecciosa, contagiosa, crônica, que atinge a pele e os nervos periféricos dos braços, mãos, pernas, pés, rosto, orelhas, olhos e nariz.

Acredita-se que a transmissão aconteça através de contato íntimo e prolongado de indivíduo suscetível com paciente contaminado e sem tratamento, com a inalação dos bacilos eliminados pelas vias respiratórias, em atos como tosse e espirro. Hanseníase não é transmitida pelos abraços, apertos de mão ou qualquer outro tipo de carinho. Em casa ou no local de trabalho, não é necessário separar roupas, pratos, talheres ou copos utilizados pelos portadores desta patologia.

O tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas é longo, podendo variar de dois a cinco anos. “Ao perceber qualquer sintoma, o paciente não deve ter dúvidas nem preconceito, e procurar o quanto antes atendimento médico, na busca de um diagnóstico e tratamento precoces”.

Vale lembrar que todos os casos de hanseníase têm cura. O tratamento pode durar de 6 a 12 meses, dependendo do estágio da doença, é gratuito e feito pelo serviço público de saúde, com medicamentos distribuídos pela Organização Mundial de Saúde.

NO PASSADO, A DOENÇA FOI TRATADA COMO UM CASTIGO DE DEUS, A VÍTIMA DE LEPRA ERA ISOLADA DO CONVÍVIO SOCIAL E TINHA SEUS PERTENCES QUEIMADOS. SOFRIA PELO ISOLAMENTO, PELA DOENÇA E AINDA AUTO-PUNIA-SE PELA CULPA ESPIRITUAL [LEIA MAIS EM: LEPRA NA IDADE MÉDIA.]


Desde os primórdios da humanidade, existem relatos sobre esta doença, sendo a mesma sempre muito estigmatizada. Conhecida desde a antiguidade como lepra, ela causava grande preconceito, fazendo com que toda a sociedade, e também familiares isolassem totalmente os pacientes de qualquer convívio. Não mais utilizado, o termo lepra nada mais é do que uma derivação de lepros, que em grego quer dizer manchas na pele. 

Em 1872, quando Hansen descobriu o bacilo que causava a doença, ela passou a ser conhecida como hanseníase, uma doença como tantas outras provocadas por bactérias e que, graças ao avanço da ciência, hoje tem cura. 

O Brasil registrou entre 30 mil e 33 mil casos de hanseníase em 2013, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Em 2012, houve 33.303 casos; em 2011, 30.298; e, em 2010, 34.894. Mato Grosso, Tocantins e Maranhão foram os três estados com maior incidência da doença no país, informou o G1 (14/1). Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo tiveram os menores índices. A média nacional é de 1,5 caso para cada 10 mil habitantes; a meta é reduzir esse número a um caso para cada 10 mil habitantes.

A hanseníase é causada por um bacilo denominado Mycobacterium leprae. Além do aparecimento de manchas brancas ou avermelhadas na pele, outros sintomas devem ser observados, como o surgimento de caroços, placas, perda de sensibilidade ao calor, frio, dor e tato. Doença infectocontagiosa, é transmitida por secreções das vias respiratórias como gotículas eliminadas pelo espirro, tosse ou fala. O tempo entre o contágio e o aparecimento de sintomas é de dois a cinco anos. Se não tratada precocemente, a doença pode causar deformidades no corpo e incapacidades. 

Segundo o secretário nacional de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, a incidência da hanseníase tem “reduzido bastante” no país nos últimos anos. “O combate [à doença] precisa ser aprimorado, sem nenhuma dúvida. O que a gente vem obtendo em resultado de redução, eu acho que demonstra que a gente tem que fazer com muito mais velocidade”, afirmou.

As ações de prevenção estão concentradas nas áreas metropolitanas e nas cidades com mais de 100 mil habitantes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, além da Baixada Fluminense, regiões metropolitanas de São Paulo e Belo Horizonte e da região norte de Minas Gerais. [CLIQUE AQUI E LEIA MAIS: hanseniaselepra/sinais-e-sintomas]

PARA OUTRAS INFORMAÇÕES, DE CLIQUE AQUI NO SITE FONTE DAS INFORMAÇÕES ACIMA POSTADAS: revista-radis/137/sumula

filoparanavai 2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

HUMANIZAÇÃO E CULTURA CAPITALISTA: uma reflexão filosófica a partir da perspectiva do neo-homem da LIBERDADE sartreana

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REFLEXÃO FILOSÓFICA
O HOMEM E A HUMANIZAÇÃO



















O HOMEM DIANTE DO DILEMA DO SÉCULO: 
HUMANIZAÇÃO E CULTURA CAPITALISTA


CONTRIBUIÇÕES DO EXISTENCIALISMO SARTREANO, 
Escrito por Lucio LOPES

Palavras-Chaves: Desintegração; Autodestruição; Aquecimento Global; Efeito Estufa; Violência; Faculdades Anímicas: Sentimentos e Razão; Existencialismo; Responsabilidade, Liberdade; Autonomia; Cultura Capitalista; Lucro;Ideologia; Alienação; Mídia; Humanização; Neo-humano.

O Planeta Terra pede socorro. 
O mesmo Homem que ameaça de destruição o Planeta agora lucra também ao querer propor soluções para salvar o Planeta. O Lucro sempre o deus Lucro está em primeiro plano. 

O Homem da consciência “encantada” e “participante” de BERMAN, do qual, temos nesta página parte do texto de sua autoria; tornou-se ao longo da história da humanidade o Homem da consciência “autodestrutiva” vislumbrada nas obras do filósofo francês Jean-Paul SARTRE.

É verdade que o humanismo existencialista sartreano foca-se no indivíduo, mais nada me impede de ir desta perspectiva a uma focalização no âmbito do indivíduo inserido na dinâmica cotidiana da sociedade e porque não, planetária?


O filósofo moderno, Jean-Jacques Rousseau, também tratou em sua famosa obra “Discurso sobre a desigualdade,” do antagonismo latente na humanidade entre perfectibilidade e tirania, que são para ele as fontes de todas as glórias e ao mesmo tempo de todas as desgraças humanas, dessa auto-capacidade destrutiva. 

A Faculdade Anímica da Razão, que Aristóteles concebia em sua "Ètica a Nicômacos" como a característica principal do Homem, pode ser um instrumento para a Emancipação, mas ao mesmo tempo, também pode ser um instrumento para a sua autodestruição:


"A natureza manda em todos os animais, e a besta obedece. O homem sofre a mesma influência, mas considera-se livre para concordar ou resistir, e é sobretudo na consciência dessa liberdade que se mostra a espiritualidade de sua alma (...). Mas, (...) sobre a diferença entre o homem e o animal, haveria uma outra qualidade muito específica que as distinguiria e a respeito da qual não pode haver contestação – é a faculdade de aperfeiçoar-se, faculdade que com o auxílio das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e se encontra, entre nós, tanto na espécie quanto no indivíduo; o animal, pelo contrário, ao fim de alguns meses, é o que será por toda a vida e sua espécie, no fim de milhares de anos, o que era no primeiro desses milhares. Porque só o homem é suscetível de tornar-se imbecil? (...) Seria triste, para nós, vermo-nos forçados a convir que seja essa faculdade, distintiva e quase ilimitada, a fonte de todos os males do homem; que seja ela, que, com o tempo, o tira dessa condição original na qual passaria dias tranquilos e inocentes; que seja ela que, fazendo com que através dos séculos desabrochem suas luzes e erros, seus vícios e virtudes, o torna com o tempo o tirano de si mesmo e da natureza. (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril Cultural, 1978).


O EXISTENCIALISMO, escola filosófica da qual Sartre é um dos principais expoentes, é mais do que aquilo que parecia aos de fora: um modismo filosófico apenas e nada mais.

Hoje nos encontramos diante do dilema imposto pelas atitudes do Homem marcado por uma cultura capitalista destrutiva da Natureza e por conseqüência da Sociedade e do próprio Homem.

Da Natureza, porque esgota cada vez mais nossos recursos naturais ( para produzir matérias e energias empregadas em produção e movimentação de tecnologias inventadas pela mente humana (carros, maquinas, utensílios pessoais e domésticos...)) para satisfazer um mercado consumidor cada vez mais fixado em produtos supérfluos – provocando sérios desequilíbrios que nos levam ao problema posto na agenda cotidiana dos cientistas e ambientalistas: Aquecimento Global provocado pelo Efeito Estufa (de clique aqui e leia mais sobre AQUECIMENTO DO PLANETA ).


Não se consome pela necessidade que se tem de utilizar algo, mas geralmente pela satisfação de um desejo doentio criado pelo MITO difundido na mídia, que ao comprar algo, que ao consumir um objeto industrializado, a pessoa está comprando a "felicidade".

Da Sociedade, que por sua vez se desintegra em várias formas de violências simplesmente porque nesta Cultura Capitalista existe o quesito EXCLUSÃO, bem definido, para a maioria do conjunto populacional de uma Nação – esta exclusão se converte em VIOLÊNCIA em suas diversas formas: Alienação, Física, Moral, Social, Cultural, Corrupção, etc.

No âmbito da individualidade, a desintegração ocorre em decorrência das perspectivas limitadíssimas às quais o Homem está condenado em meio à Cultura Capitalista. O HOMEM vive imerso em uma Cultura de Violência contra si mesmo: a desintegração de seu mundo interior leva o Homem a uma crise existencial que o impede de reconhecer a si e de descobrir a riqueza de suas capacidades interiores marcadas pelas Faculdades Anímicas dos Sentimentos e Razão – dois poderes de Libertação, que permanecem anestesiados e dominados para não deflagrarem a deserção coletiva contra a Ideologia dominante e suas formas de alimentar a ALIENAÇÃO (Acesse aqui e conheça mais sobre (A RELAÇÃO ENTRE IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO) ).


Com a queda das Utopias socialistas no século XX, desaparecendo a experiência que se desenvolvia no Leste Europeu, o homem ficou subjugado a uma única ideologia, a pior de todas elas, a Capitalista. 

Imerso em uma "Cultura Mitológica" que o condena ao individualismo egocêntrico. Não passa o Homem hoje de um número no mercado consumidor que alimenta a fome de LUCRO dos capitalistas. O Homem em vez de viver em aldeia, agora vive em "ilhas", "bolhas", olhando para e satisfazendo seu próprio umbigo. Com raras exceções.


O existencialismo SARTREANO tem algo importante a oferecer neste novo Século, para o qual, o HOMEM será convidado através de "GRITOS DE SOCORRO" de sua própria existência em desintegração, OU O HOMEM USA SEUS PODERES (SENTIMENTOS E RAZÃO) DE FORMA COLETIVA PARA SALVAR-SE E POR CONSEQUÊNCIA SALVAR A SOCIEDADE E O PLANETA, OU TENDE A DESAPARECER ENQUANTO ESPÉCIE. 

Neste século o Homem tem que tomar uma decisão e, esta decisão não pode fugir de duas claras OPÇÕES que o insere em um problema/dilema – Projeto de Vida – por sua HUMANIZAÇÃO.


O dilema é justamente este: ao optar por sua Humanização terá que optar por rever a Cultura Capitalista e isso implica em rever Capital, Lucros, Consumismo... O Homem pode e o Existencialismo Filosófico nos oferece pistas interessantes para provocar, para aguçar, nossos pensamentos em busca da construção e consecução deste urgente PROJETO.

O Homem Contemporâneo perdeu a capacidade de viver apaixonadamente (encantado) por Projetos Coletivos, uma vez que vive imerso em uma Cultura Individualista e Egoísta. Perdeu a virtude que o levava a assumir a RESPONSABILIDADE por aquilo que somos, conforme SARTRE nos lembra em sua obra “O Existencialismo é um Humanismo”. 


De lutarmos por projetos individuais e ao mesmo tempo coletivos para preservar a vida e seus valores centrais: Justiça, Equilíbrio, em todos os âmbitos da vida. O Existencialismo longe de ser a Filosofia do Desespero (ao contrário, nossa existência atual é que está mergulhada no desespero) é a Filosofia da Esperança.

A Esperança SARTREANA está fundamentada na liberdade e autonomia do Homem enquanto Criador e Ser responsável diante da vida. Esta responsabilidade não é um ideal abstrato é algo concreto: somos nós tomando decisões e assumindo as consequências. Não devemos jamais nos eximir e nos vermos como vítimas de forças estranhas. 


Quem nós somos é sempre uma decisão nossa e isto exige de nós, se queremos sermos por nós mesmos, não sermos aquilo que querem que sejamos: o Homem que não usa o poder de sua RAZÃO para LIBERTAR-SE permanece em processo de autodestruição: existencialmente, é totalmente alienado e solitário. É um EXCLUÍDO da vida em todas as suas dimensões.

O Homem alienado reproduz aquilo que seus algozes desejam em nome do DEUS LUCRO. Permanece sequestrado em um SENSO COMUM de conteúdo constituído pela Ideologia dominante e, o pior disso tudo é que este mesmo Homem se convence de que é ele que “pensa” aquilo que não pensou, mais que pensaram por ele e, que o mesmo apenas reproduz. 


A MÍDIA televisiva, hoje, é o canal de comunicação mais utilizado para a transmissão deste conteúdo ideológico – sem pudor algum, a grande mídia brasileira dominada por algumas famílias apenas, detentoras dessas concessões, manipulam, a todo momento, a grande massa populacional (para uma compreensão melhor, ver abaixo os textos Crítica à Mídia Brasileira). Preocupação central da Mídia, Justiça, bem-comum? Ledo engano, apenas mais pontos no Ibope e mais Lucros, e Lucros...

O dia que nosso povo tiver acesso a uma Educação de melhor qualidade a Mídia brasileira terá que rever sua postura despudorada e programas "LIXOS" como os chamados “Realitys Shows”, coberturas jornalísticas sensacionalistas com o objetivo de manipular as mentes, programas de coberturas policiais que ferem os Direitos Humanos, opiniões que não possibilitam o contraditório de quem está sendo denegrido em sua moral pessoal e outros abusos, serão automaticamente deixados de lado. 


Não é difícil entender as forças que atuam nos “porões” para que a educação não ganhe em qualidade e para que a grande massa populacional não tenha acesso a uma Educação que não esteja à serviço do Mercado mais que antes esteja à serviço da VIDA.

E quando falo de Educação de qualidade não estou me referindo àquela exercida no âmbito da Escola Privada, porque esta é tão sem qualidade quanto a Pública. A educação privada vive centrada na “máfia” dos vestibulares – informações fragmentadas em forma de macetes para que o aluno identifique as respostas corretas segundo as tendências do vestibular A ou vestibular B, etc. 


Uma Educação de Qualidade que realmente possibilite o Homem a construir a Cultura da Humanização passa pelo forjamento concreto da Liberdade e da Autonomia – O HOMEM CIDADÃO capaz de forçar a realização da JUSTIÇA com EQUIDADE para TODOS. Professores politizados para ajudarem seus estudantes neste processo de politização. Escola politizada, é disto que estou falando; não da politização excludente, mas daquela politização que tem o coletivo como objetivo. A Boa Política... 

Para isso precisamos de professores bem remunerados, com condições materiais de trabalho, apaixonados pela educação, politizados, críticos. Caso contrário, não haverá o que oferecer de concreto para que esse objetivo de uma educação de qualidade humanizadora se realize de fato.

O que o Homem Alienado não percebe, segundo SARTRE, é que a sociedade assim como ele próprio, tem um interesse em catástrofes – (daí o interesse da Mídia em valorizar coberturas jornalísticas ou produzir ficções – novelas, filmes – que tenham elementos de pânico). Guerras, fomes, terremotos, enchentes, terrorismo, violência urbana... Atendem a interesses bem definidos. A Cultura Capitalista necessita do CAOS para se manter. 


A Sociedade fica perplexa diante da violência sexual contra nossas crianças através dos casos de pedofilia, mas não percebe que a Mídia estupra as mentes de nossas crianças desde muito cedo e isto é tão ou mais grave. É uma verdadeira “ORGIA VIRTUAL”: Depressão, pornografia camuflada, assassinatos, conflitos, badernas, corrupção... Toda essa miséria recebe atenção quase doentia da mídia que acaba por contagiar os menos “esclarecidos” – aqueles que não possuem a decisão pessoal de dizer não a este tipo de manipulação - e que, infelizmente, é a maioria.

Desde cedo a criança é inserida neste mundo virtual que vai moldando sua mente para que mais tarde corresponda aos interesses do Capital. Está em nós. Acabamos por nos deliciarmos com a Cultura da Destruição, a desgraça alheia é como um alimento para estas pobres almas. A mídia dominante forja um quadro triste, pintado a partir de tragédias humanas. 


O interesse é claro, provocar nas pessoas dois sentimentos: “ainda bem que não aconteceu comigo” – sentimento de alívio e o segundo, “não posso fazer nada além de ser um expectador passivo” – provoca o sentimento de impotência.

A função da grande mídia não é ajudar-nos a combater os males do mundo e nem nos educar para evitá-los. Ela aliás é a escola que educa justamente para que os males sejam praticados cada vez mais de forma requintada. Analise nossos programas, nossos noticiários e confira. 90% é cobertura do MAL. O BEM não vale a pena, é coisa para otário... É a sensação que fica. A mídia, no geral, nos induz a aceitar esses males e a nos acostumarmos a viver com eles.

No BRASIL a grande mídia vive sem nenhum tipo de fiscalização, ou seja, controle de suas programações – tudo em nome da LIBERDADE DE IMPRENSA. A imprensa que no passado foi CENSURADA passou para o outro extremo... É preciso buscar o equilíbrio, a sociedade pode e deve exigir um controle sim, a Liberdade de Imprensa deve ser preservada de forma inconteste, porém, a Mídia brasileira abusa de seu poder em nome desta Liberdade que não conhece limites e fere de morte os DIREITOS HUMANOS, atendendo a interesses de uma minoria que quer tirar proveitos em detrimento do interesses da maioria.

Conferir o contraditório em outros veículos de comunicações, é uma saída possível. Trocar de canal, trocar a assinatura da revista, são outras. Hoje a internet facilita esse exercício. A internet é o campo da informação democrática. Sempre diante daquilo que está diante dos olhos, auto-perguntar-se: A quem serve? Que intencionalidade está por detrás? 


Graças a Deus, o Brasil hoje já conta com alguns canais de TVs públicas de boa qualidade, assistidos por 10% da população, segundo pesquisa da qual tenho conhecimento e, ainda podemos contar com a internet com blogs e sites que mostram o outro lado da notícia, como os que estão no menu inferior deste blog - com vários links de notícias atualizadas diariamente. Também boas revistas.

Precisamos deixar de ser observadores passivos, como quer o Sistema. O voto, símbolo da cidadania, não pode ser apenas um ato simbólico da DEMOCRACIA. Tem que se converter em um instrumento para faxina geral dos poderes. A Eleição de um “torneiro mecânico” foi um golpe para as classes dominantes e ao mesmo tempo uma vitória da DEMOCRACIA e do povo brasileiro; porém, a mesma consciência transformadora não atingiu o Legislativo como um todo, pois este permaneceu habitado pelos políticos servos das classes dominantes que emperram os Projetos de Leis de benefício a todo o conjunto da sociedade brasileira. Não é por menos que o Legislativo é mal avaliado pela população, porém, se temos maus políticos é porque temos maus eleitores. Precisamos escolher melhor nossos Senadores e Deputados, não só... É necessário, durante seus mandatos, fiscalizá-los: hoje temos vários meios para isto, sendo a internet um deles.


Por que não uma ação popular para obrigar o Legislativo Federal a aprovar Lei que obrigue àqueles que desviam recursos públicos a retornarem aos cofres públicos cada centavo desviado? Sejam eles pessoas ou corporações (grandes empresas capitalistas que administram licitações vencidas).


Esta tarefa não é difícil de ser realizada. Veja só como fiscalizo (acompanho) nossos representantes nos âmbitos município, estado e federal:

(http://camaradeparanavai.com.br/2010/Index.php?paged=2)
(http://www.alep.pr.gov.br/)
(http://www.senado.gov.br/)
(http://www2.camara.gov.br/)

Que relações há entre a qualidade de nosso voto e a aplicação dos tributos públicos? 


Existe alguma relação entre o voto não crítico, não fiscalizado (acompanhado) e o sistema tributário injusto que favorece justamente a parcela da sociedade que não necessita dos serviços públicos? 


Será que as informações constatadas quanto a injusta aplicação dos recursos públicos em São Paulo, não é a mesma em Paranavaí e em outras localidades do Brasil? (http://www.impostoderenda.etc.br/justica-tributaria-pobres-pagam-mais-imposto-que-os-ricos-no-brasil.html) e (http://www.ipea.gov.br/005/00502001.jsp?ttCD_CHAVE=382). (Bairros mais ricos de SP têm até quatro vezes mais investimento que os mais pobres, revela estudo: (http://www.ecodebate.com.br/2008/04/26/bairros-mais-ricos-de-sp-tem-ate-quatro-vezes-mais-investimento-que-os-mais-pobres-revela-estudo/)).


SARTRE propõe o surgimento de um neo-humano. Não mais a individualidade sujeita ao coletivo, mas sim o coletivo construído pela individualidade consciente de suas decisões e ações transformadoras: Liberdade e Autonomia. O indivíduo alienado com uma consciência estéril, fria, nada eficiente em relação ao processo de humanização, adaptado socialmente conforme os desígnios alienantes moralizantes – que se utilizam das religiões dominantes para serem formalizados – e que se expressam em dominação, parasitismo, moralismos, preconceitos, discriminações, juízos falhos e/ou falsos.

O neo-humano seria marcado pelo paradigma da lealdade, solidariedade, da verdade, da justiça, porém, não como valores abstratos, simbólicos, oportunistas e manipulados para meias desculpas – como a atual Cultura Capitalista os utilizam hoje – mas sim, um paradigma centrado no HOMEM, em sua profunda humanização marcada pela Liberdade e Autonomia que brota da RAZÃO individual e se interage com as individualidades em um grande coletivo humanizado. O Homem deixa de ser objeto, como na perspectiva analítica marxista e se torna SUJEITO de sua própria História.

Este é o paradigma que pode salvar o Homem. De quebra, que pode salvar a Sociedade e o Planeta Terra. Esta é a grande contribuição que o Existencialismo tem a dar para cada um de nós...


Acesse aqui artigo sobre a Liberdade (CONCEPÇÃO SARTREANA PARA LIBERDADE) 

Reflexão Filosófica baseada nos textos da obra: SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. 3. Ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Da Coleção Os Pensadores).




Para Concluir, vamos ler o texto de BERMAN que aprofunda esta reflexão em torno da necessidade de um despertar urgente da Racionalidade Humana para a preservação da Vida. É possível ao homem continuar satisfazendo suas necessidades de sobrevivência sem destruir a Natureza???

Natureza em destruição
O poder da consciência participante

“A concepção da realidade que predominou no Ocidente até as vésperas da revolução científica era a de um “mundo encantado”. As rochas, as árvores, os rios e as nuvens eram tidos pelo homem como seres maravilhosos e portadores de vida. Os homens, por sua vez, sentiam-se em casa neste “mundo encantado”. O cosmo era o lar ao qual pertenciam. Cada pessoa não era um observador distante e alienado, mas um direto participante da trama da vida.O destino pessoal de cada um estava ligado ao destino do Cosmo, e esta inter-relação conferia sentido profundo à vida de todos. Este tipo de concepção da realidade – que chamarei consciência participante – envolve a fusão ou identificação do homem com o seu ambiente natural, expressando uma integração psíquica que há muito tempo deixou de existir.

Considerando-se o plano mental, a história da Idade Moderna é uma história de progressivo desencantamento. A partir do século XVI, a mentalidade científica nos tornou verdadeiros estrangeiros (seres não-integrados) em relação ao fenômeno do mundo. Inovações capazes de questionar essa visão da realidade – física quântica, ou certas pesquisas ecológicas – não foram suficientemente fortes para abalar a forma dominante do pensamento vigente. Essa forma pode ser adequadamente descrita com palavras como desencantamento, não-integração, pois ela insiste em estabelecer uma rígida separação entre o observador e o observado. 

Assim, a consciência científica tornou-se uma consciência alienada no sentido de que não promove uma fusão harmoniosa com a natureza, mas sim a separação plena dela. O sujeito conhecedor e o objeto investigado são encarados como pólos opostos, antagônicos. “Não sou minhas experiências e conclusões sobre o mundo. Portanto, não faço parte deste mundo” – raciocina o cientista. 

A consequência lógica dessa visão de mundo é um sentimento de coisificação: tudo é objeto, estranho, não-eu. E “eu”, afinal, também sou um objeto; um ser à parte, em meio a tantos outros seres. O cosmo não foi construído por mim; tampouco se importa com minha existência e eu não tenho a sensação de estar nele integrado.

Durante mais de 99% da história da humanidade, vigorou a concepção de que o mundo era encantado e o homem se sentia como parte integrante dele. Nos últimos quatro séculos, a total reversão dessa concepção destruiu, no plano psíquico e físico, o sentimento de integração do homem em relação ao cosmo. Isso foi responsável pela quase-destruição ecológica do Planeta. A única esperança, parece-me, está no re-encantamento do mundo como meio de nosso re-encontro.

É nisto que reside a questão central do dilema moderno. Não podemos voltar à alquimia ou ao animismo – pelo menos isso não parece provável. Por outro lado, não podemos permanecer com este mundo triste, de frieza científica, controlado por computadores, ameaçado por reatores nucleares. É preciso desenvolvermos algum tipo de consciência holística ou participante – e uma formação sociopolítica correspondente – se desejamos sobreviver enquanto espécie genuinamente humana.”
BERMAN, Morris. The reenchantment of de world. Adaptado e traduzido por Gilberto Cotrim (COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: ser, saber e fazer. 8 ed. São Paulo: Saraiva, 1993).

filoparanavai 2014

Uma difícil questão filosófica...




O que é a filosofia?


Esta é uma questão notoriamente difícil. Uma das formas mais fáceis de responder é dizer que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem, indicando de seguida os textos de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Russell, Wittgenstein, Sartre e de outros filósofos famosos. 

Contudo, é improvável que esta resposta possa ser realmente útil se o leitor está a começar agora o seu estudo da filosofia, uma vez que, nesse caso, não terá provavelmente lido nada desses autores. Mas mesmo que já tenha lido alguma coisa, pode mesmo assim ser difícil dizer o que têm em comum, se é que existe realmente uma característica relevante partilhada por todos. 

Outra forma de abordar a questão é indicar que a palavra “filosofia” deriva da palavra grega que significa “amor da sabedoria”. Contudo, isto é muito vago e ainda nos ajuda menos do que dizer apenas que a filosofia é aquilo que os filósofos fazem. Precisamos por isso de alguns comentários gerais sobre o que é a filosofia. 

A filosofia é uma atividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A atividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. 

A palavra “filosofia” é muitas vezes usada num sentido muito mais lato do que este, para referir uma perspectiva geral da vida ou para referir algumas formas de misticismo. Não irei usar a palavra neste sentido lato: o meu objectivo é lançar alguma luz sobre algumas das áreas centrais de discussão da tradição que começou com os gregos antigos e que tem prosperado no século XX, sobretudo na Europa e na América. 

Que tipo de coisas discutem os filósofos desta tradição? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente “o sentido da vida”: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. 

Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra “dever”? Estas são questões filosóficas. 

Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas — uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas. 

Desde o tempo de Sócrates que surgiram muitos filósofos importantes. Já referi alguns no primeiro parágrafo. Um livro de introdução à filosofia poderia abordar o tema historicamente, analisando as contribuições desses grandes filósofos por ordem cronológica. Mas não é isso que farei neste livro. Ao invés, abordarei o tema por tópicos: uma abordagem centrada em torno de questões filosóficas particulares e não na história. 

A história da filosofia é, em si mesma, um assunto fascinante e importante; muitos dos textos filosóficos clássicos são também grandes obras de literatura: os diálogos socráticos de Platão, as Meditações, de Descartes, a Investigação sobre o Entendimento Humano, de David Hume e Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche, para citar só alguns exemplos, são todas magníficos exemplos de boa prosa, sejam quais forem os padrões que usemos. 

Apesar de o estudo da história da filosofia ser muito importante, o meu objectivo neste livro é oferecer ao leitor instrumentos para pensar por si próprio sobre temas filosóficos, em vez de ser apenas capaz de explicar o que algumas grandes figuras do passado pensaram acerca desses temas. Esses temas não interessam apenas aos filósofos: emergem naturalmente das circunstâncias humanas; muitas pessoas que nunca abriram um livro de filosofia pensam espontaneamente nesses temas. 

Qualquer estudo sério da filosofia terá de envolver uma mistura de estudos históricos e temáticos, uma vez que se não conhecermos os argumentos e os erros dos filósofos anteriores não podemos ter a esperança de contribuir substancialmente para o avanço da filosofia. Sem algum conhecimento da história, os filósofos nunca progrediriam: continuariam a fazer os mesmos erros, sem saber que já tinham sido feitos. 

E muitos filósofos desenvolvem as suas próprias teorias ao verem o que está errado no trabalho dos filósofos anteriores. 

Defende-se por vezes que não vale a pena estudar filosofia uma vez que tudo o que os filósofos fazem é discutir sofisticamente o significado das palavras; nunca parecem atingir quaisquer conclusões de qualquer importância e a sua contribuição para a sociedade é virtualmente nula. Continuam a discutir acerca dos mesmos problemas que cativaram a atenção dos gregos. Parece que a filosofia não muda nada; a filosofia deixa tudo tal e qual.  

Qual é afinal a importância de estudar filosofia? Começar a questionar as bases fundamentais da nossa vida pode até ser perigoso: podemos acabar por nos sentir incapazes de fazer o que quer que seja, paralisados por fazer demasiadas perguntas. Na verdade, a caricatura do filósofo é geralmente a de alguém que é brilhante a lidar com pensamentos altamente abstratos no conforto de um sofá, numa sala de Oxford ou Cambridge, mas incapaz de lidar com as coisas práticas da vida: alguém que consegue explicar as mais complicadas passagens da filosofia de Hegel, mas que não consegue cozer um ovo. 

Uma razão importante para estudar filosofia é o fato de esta lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. 

A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que algumas ações sejam moralmente boas ou más? Poderemos alguma vez ter justificação para violar a lei? Poderá a nossa vida ser apenas um sonho? É a mente diferente do corpo, ou seremos apenas seres físicos? Como progride a ciência? O que é a arte? E assim por diante. 

Texto de Nigel Warburton 
Retirado de Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton (Lisboa: Gradiva, 2007). Fonte: http://criticanarede.com/

Filoparanavai 2014

FILOSOFIA?




O que é a filosofia?

A filosofia é uma grande aventura intelectual, ao mesmo tempo que o seu objecto de discussão é uma das coisas mais importantes que podemos fazer com as nossas vidas. 


Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflete na verdade o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta direta e clara. Muitos filósofos recorrem ao método de responder por listas, explicando que a filosofia é acerca de "questões fundamentais" como "a verdade", "o que se pode conhecer?", "qual a natureza de uma boa ação?", "qual a natureza da mente e a sua relação com o corpo?". A outra maneira de lidar com a questão é algo evasiva e envolve afirmar o menos possível, algo como: "Bom, a melhor maneira de compreender o que é a filosofia é fazê-la." É provável que ambas as respostas, embora tendo um fundo de verdade, deixem os interlocutores perplexos, e com razão, insatisfeitos e com vontade de se afastarem para ir buscar outra bebida — para grande alívio do filósofo. 

Penso que cabe aos filósofos lidar frontalmente com esta questão. Afinal, somos pagos para isso. A minha resposta imediata, que mais tarde terá de ser ligeiramente aperfeiçoada, a esta questão é a seguinte:

A filosofia é o que acontece quando se começa a pensar pela própria cabeça. 

Pode-se acrescentar um pouco mais. Assim que nos libertamos dos hábitos das crenças recebidas, as que por acaso se adquiriu mesmo acerca de questões básicas, e começamos realmente a pensar acerca daquilo em que devemos acreditar, à luz da razão (argumentos) e indícios, começamos a fazer filosofia. A "tradição" de se apoiar antes em "autoridades" e "textos sagrados" é o estado normal das coisas e não a excepção na história — para muitos é ainda a maneira natural de viver. Além disso, pensar por si próprio não é algo que se leve a cabo facilmente por mero capricho, mas antes algo que é preciso reforçar como a um músculo, através de bons hábitos mentais. A filosofia é um modo de vida, que se constrói ao longo dos anos; o pensamento filosófico é um estado de espírito que se torna parte da própria natureza de uma pessoa. 

É comum encarar-se a filosofia como um luxo sem finalidade, sem necessidade, desnecessário. Uma futilidade, lúdica na melhor das hipóteses, que se acrescenta à vida depois de se ter tratado das coisas práticas. Mas isto é um erro. 

Longe de ser desnecessária, a filosofia é inevitável a partir do momento em que as pessoas deixam de tomar por adquirido as crenças que receberam e, ao invés, começam a pensar nelas com cuidado, autonomamente. A glória da filosofia — e seguramente um dos aspectos imediatamente interessantes para os que se sentem atraídos por ela — é nada estar interdito, nem mesmo o valor da razão, ou, na verdade (embora isto possa parecer paradoxal), o próprio estatuto da filosofia. Não há restrições. Só algo como argumentação e a discussão sem limites parece constante. É uma liberdade maravilhosa. Ou somos escravos das crenças que por acaso adquirimos através das circunstâncias contingentes da maneira como fomos educados e do lugar em que o fomos, ou somos até certo ponto filósofos. A filosofia é o bastião do pensamento livre e da exploração de ideias, acima de tudo. 

A filosofia por vezes trata a questão da maneira como devemos viver. Pode-se argumentar que a própria adoção de uma atitude filosófica é exatamente o modo como se deve viver — tudo o resto é submissão crédula. Claro que se trata de uma questão de grau, mas na maioria dos casos é um bilhete de ida para a liberdade de pensamento: depois de o experimentar ninguém quer regressar à escravidão novamente. 

Seria errado pensar que a filosofia nos deixa constantemente num estado de dúvida vaga. Aceita-se as próprias crenças com base nos melhores argumentos. Mas deixa-se a porta entreaberta à discussão suplementar. Na verdade são os que adotam as suas crenças como atos de vontade e fé que se apoiam em terreno instável, onde podem ser derrubados por acaso, com as consequências dolorosas da desilusão, do vazio e da perda. O resultado pode ser catastrófico porque caem, se o fazem, de uma altura tal e de um lugar onde se julgavam absolutamente seguros. Depois disso, o quê? A filosofia não sonha tão alto. Está também preparada para viver corajosamente com isso. Apesar de mudarmos de crenças à luz de novos argumentos, podemos assegurar-nos que, da última vez que defendemos uma perspectiva, fizemos o melhor para chegar realmente ao fundo da questão. A filosofia não gera a dúvida vazia nem uma certeza inalcançável. 

Como modo de vida, a filosofia e o pensamento filosófico não prometem a felicidade, mas penso que realçam o que há de melhor nos seres humanos. A filosofia dá corpo àquilo que há de mais nobre na nossa espécie. 

A casa que os filósofos construíram 
A filosofia assemelha-se muito a uma casa que se constrói sobre estacas num rio. Nessa casa podemos fazer todo o gênero de coisas — construir coisas, movê-las de um lado para o outro — mas estamos sempre cientes de que a estrutura é suportada por pilares assentes em algo potencialmente e, amiúde, realmente inconstante. A filosofia desce repetidamente para ver como estão as coisas perto da base dos pilares e na verdade inspeciona os próprios pilares. As coisas podem precisar de mudança lá em baixo. Para os filósofos isto não é apenas a natureza da filosofia mas a condição intelectual genuína da humanidade. É a filosofia que presta uma atenção detalhada a essa condição e a leva a sério. Isto em vez de a ignorar ou resolvê-la de um modo sofístico. 

As áreas da filosofia 
O âmbito da filosofia é vasto e basicamente unificado. Contudo, para clarificar questões e desenvolver competências, divide as suas energias em áreas de especialização. Estas áreas têm duas características. Por um lado, algumas áreas têm um objecto de estudo que parece sustentar grande parte daquilo que pensamos e fazemos. Por outro, outras áreas sustentam preocupações mais particulares. As áreas alimentam-se entre si e estão inter-relacionadas. A filosofia não se constrói como outras disciplinas, verticalmente, a partir de fundamentos básicos inquestionados. Não consiste em parcelas fáceis que todos podemos pressupor, a partir das quais se faz as parcelas mais complexas. Não há, como se diz, águas pouco profundas em filosofia — quando se começa, todas as questões profundas entram de imediato em jogo. 

No que diz respeito aos capítulos deste livro, pode-se dividir a filosofia em três grupos. 

Grupo 1 Lógica; Epistemologia; Metafísica; 
Grupo 2 Ética; Filosofia da mente; Filosofia da linguagem; Filosofia da ciência; 
Grupo 3 Filosofia antiga; Filosofia medieval; Filosofia moderna: séculos XVII e XVIII; Filosofia política; Estética; Filosofia continental; Filosofia da religião; 
As áreas da filosofia 
A relação entre estas subdivisões da filosofia não se caracteriza pela dificuldade mas pela generalidade, havendo um decréscimo de generalidade à medida que nos afastamos do centro. Isto não significa que os temas das áreas exteriores são menos importantes. Ao invés, o que acontece é que os temas do Grupo 1 sustentam os problemas considerados no Grupo 2 e têm consequências para as conclusões a que se chega no Grupo 2 — este grupo encontra-se em constante referência ao Grupo 1. Os temas no Grupo 3 não levantam considerações filosóficas fundamentais novas que não sejam tratadas nos grupos 1 e 2, mas, ao invés, aplicam a áreas específicas todos os problemas que se encontra nesses grupos. Eis alguns exemplos: a metafísica pode lidar com a questão de que categorias de entidades fundamentalmente existem; a estética preocupa-se em saber como existem as obras de arte; que género de entidades são? A ética examina em que consiste afirmar que devemos fazer algo, em que consiste algo ser moral ou imoral; a filosofia política estuda a forma correta de organizar a sociedade, se é que esta deve ser organizada de todo em todo. 

Os capítulos históricos aqui listados, como a filosofia antiga e a filosofia medieval lidam evidentemente com todos os problemas centrais da filosofia, tal como são tratados num determinado período ou escola de pensamento. 

Os problemas da filosofia 
Eis uma lista de alguns dos problemas filosóficos mais básicos e mais comummente tratados. Não se preocupe demasiado com a maneira como tais questões seriam tratadas por um filósofo — basta dar-lhes uma olhada e considerar como poderia responder-lhes, de uma maneira intuitiva e imediata — quase aposto que em breve o leitor dará por si em águas mais profundas do que espera, águas realmente filosóficas. Na verdade, não se sinta pressionado para encontrar uma resposta, mas pense em diversas maneiras possíveis de responder e que razões se tem para pensar que essas respostas são correctas. As respostas, ou apenas a maneira por que se deve começar sequer a responder-lhes, são muito menos diretas do que poderíamos supor. 



Qual é a natureza da filosofia? Há problemas filosóficos? Qual é o método correto para resolver problemas filosóficos? Quando temos boas inferências? Qual é a natureza da racionalidade? O que é a verdade? O que é conhecer algo? O que percepcionamos quando afirmamos percepcionar o mundo? Podemos saber que o mundo exterior existe? O que é a realidade? Em que consiste algo existir? Que géneros de coisas existem? O que é uma causa? Em que consiste algo ser moralmente bom? O que é a vida boa? Poderá justificar-se os juízos éticos? Qual é a natureza da mente? O que é a consciência? O que é o eu? O que é isso de as expressões de uma língua terem significado? O que é compreender o significado de uma palavra? Poderá justificar-se a indução? O que é uma lei científica? Qual é a melhor maneira de organizar a sociedade? O que justifica o poder do estado? O que são os direitos humanos? O que é uma obra de arte? Poderemos justificar as avaliações que fazemos das obras de arte? O que determina o significado de uma obra de arte? Em que consiste justificar a existência de Deus? Qual é a natureza de Deus? Como devemos viver? 

Intemporalidade 
Não é controverso afirmar que os problemas filosóficos são intemporais. Para alguns parece uma desculpa para examinar problemas que de facto podem não ter resposta alguma porque à partida há algo errado em considerá-los "problemas". Contudo, o objecto de estudo da filosofia comporta-se seguramente como se os problemas filosóficos fossem intemporais. Determinados tópicos podem ser uma preocupação mais central em dada altura, mas isso é sobretudo função da moda. Os tópicos e questões centrais surgem repetidamente. Raramente se dá o caso de um assunto considerado pela filosofia ser inteiramente dispensado, ou desvalorizar-se a maneira como anteriormente foi tratado. Muito pelo contrário. Os filósofos dão consigo a regressar aos filósofos do passado, pelo menos para usar as suas ideias sobre determinados tópicos como ponto de partida, mas normalmente é mais do que isso. Um livro que considera a natureza da justiça irá naturalmente averiguar o que Platão tinha para dizer. Os problemas da indução e da causalidade envolvem normalmente uma discussão aprofundada de Hume. Descartes é muitas vezes o ponto de partida para se considerar a natureza da mente. 

Não é de todo em todo claro que se progrida em filosofia como se faz noutras áreas. Neste sentido a filosofia é muito diferente da ciência — um químico raramente acharia interessante averiguar o que outro químico afirmou acerca de algo há cem anos. 

Pode-se portanto perguntar qual é o sentido da filosofia, neste caso, dado que não resolve definitivamente os problemas. Como foi já sugerido, os problemas filosóficos surgem quando começamos a pensar profundamente acerca das nossas crenças mais fundamentais. Quando o fazemos descobrimos amiúde que nem compreendemos inteiramente o conteúdo dessas crenças, nem temos qualquer justificação clara para as defender. Para um determinado tipo de mente isto é desconcertante e os problemas não desaparecem através da aceitação de respostas palavrosas ou em resposta a um quadro mental depreciativo. Talvez não sejamos capazes de apresentar soluções finais, mas, ainda assim, podemos chegar a uma conclusão que resulte do melhor pensamento disponível sobre um dado assunto. 

Concluiria que os problemas filosóficos são intemporais em virtude da sua profundidade, generalidade e, em consequência, da incerteza que rodeia os próprios métodos pelos quais podemos abordá-los da melhor maneira. O resultado é que os problemas não morrem, nem as maneiras de tentar resolvê-los ou pelo menos lidar com eles. 

Uma coisa é bastante certa: a questão de os problemas filosóficos serem ou não intemporais é em si própria um problema filosófico. 

Além do factual 
A filosofia não se preocupa normalmente com a recolha de fatos. Pode-se deixar isso para outras disciplinas, como a ciência, a história, a psicologia ou a antropologia. Há uma razão dupla para isto. Em primeiro lugar, a filosofia lida normalmente com assuntos que têm de estar pressupostos na recolha de fatos — questões acerca da verdade e cognoscibilidade da realidade, por exemplo. 

Qualquer tentativa de resolver os problemas filosóficos por referência aos factos cairá portanto muito provavelmente em petição de princípio. Não podemos, por exemplo, referir-nos aos indícios reunidos através da percepção para resolver o problema filosófico acerca do que se pode conhecer sobre o mundo através da percepção, se é que podemos conhecer algo. Em segundo lugar, os factos são normalmente insuficientes para lidar com o problema filosófico. Isto é particularmente óbvio em ética. 

Argumenta-se em geral que nenhuma referência a como as pessoas são e o que realmente fazem pode responder à questão acerca do que elas devem fazer. Isto não significa que se ignora os factos, apenas que os factos são insuficientes para nos permitir chegar a conclusões acerca dos assuntos com que a filosofia lida. 

Os objetos de estudo da filosofia 
Esta área oferece um esboço conciso dos objetos de estudo da filosofia discutidos neste livro. O livro não trata exaustivamente de tudo na filosofia, mas pode-se afirmar com justiça que todas as áreas centrais estão aqui representadas. 

Epistemologia 
Aqui o objeto de estudo é a natureza do conhecimento e, dada essa natureza, o que se pode afirmar com verdade que podemos conhecer, por contraste a ter apenas crenças e opiniões acerca disso. Será que podemos rebater as perspectivas de céticos que afirmam que, estritamente falando, não podemos conhecer tudo aquilo que afirmamos poder conhecer, se é que podemos conhecer alguma coisa? 

Metafísica 
Que categorias de coisas em última análise existem, que conexões há entre elas e como nos surgem? Será que todas as coisas que nos aparecem são reais, ou será que derivam de algo mais fundamental? E o que dizer acerca da existência de coisas que não "existem" no sentido usual do termo mas às quais, não obstante, nos referimos, tais como unicórnios e números? 

Lógica 
Aqui trata-se da natureza e identificação das boas inferências: as circunstâncias em que se diz que uma afirmação se segue de outra. Procura-se compreender e classificar os casos em que as afirmações, se são verdadeiras, justificam em alguma medida a verdade de outras afirmações. 

Ética 
Aqui trata-se de valores (normativos, por contraste com questões de facto) no que respeita as ações humanas. Em que consiste considerar algo que fazemos como bom ou mau? Em que consiste afirmar que devemos fazer ou não fazer algo? Não basta discutir o que fazemos, temos de discutir o que devemos fazer e o que significa afirmar isto. 

Filosofia antiga 
Consiste no estudo dos filósofos do mundo grego e romano. Normalmente concentramo-nos na filosofia grega a partir de c. 624 a.C., que assinala o nascimento do pré-socrático Tales, até 322 a.C., a morte de Aristóteles. As figuras mais importantes são indubitavelmente Platão e Aristóteles. É frequente alargar-se este período para incluir o mundo romano. É impossível exagerar a importância do pensamento no mundo antigo. Aqui encontramos quase tudo, desenvolvido em graus diversos, o que caracteriza a perspectiva ocidental. Na verdade representa um ponto de viragem na história humana, onde pela primeira vez se aplica a todos os níveis na resolução dos problemas mais profundos, em vez de apelar à mera autoridade ou à longevidade de uma ideia. 

Filosofia medieval 
Esta área abrange, há que assinalar, o estudo de filósofos ao longo de um vasto período de cerca de mil anos, desde Santo Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) e Guilherme de Occam (c. 1285-1349 d.C.) e se prolonga pelo menos até à renascença. O fio condutor é a ascensão e predomínio do cristianismo, que permeia a filosofia que se faz durante este período. O outro elo mais importante ao longo deste período é a interpretação e adaptação da metafísica de Aristóteles. 

Filosofia moderna: os séculos XVII e XVIII 
Pode parecer estranho chamar "filosofia moderna" à filosofia que se faz nos séculos XVII e XVIII. Indica o período de surpreendente fecundidade no pensamento filosófico e uma nova maneira de fazer filosofia que foi uma ruptura significativa em relação ao que ocorria antes. Além disso, muitas das maneiras pelas quais contemporaneamente se faz filosofia ainda derivam do pensamento deste período. As figuras centrais são Descartes, Espinosa, Leibniz, Locke, Berkeley e Hume. 

Filosofia da mente 
A que tipo de entidade nos referimos quando falamos acerca da "mente"? Como se relaciona o discurso acerca da mente com o discurso acerca daquilo a que normalmente chamamos os nossos "corpos"? Serão a mente e o corpo um só, ou será que a mente é afísica? Como pode a apercepção consciente e o entendimento pelas quais nos referimos às coisas surgir da matéria inerte? O que significa afirmar que alguém é a mesma pessoa ao longo da sua vida e em que medida é que isso justifica a afirmação? 

Filosofia da linguagem 
Em que consiste uma expressão, oral ou escrita, ter significado e capacidade de referir coisas? O que constitui a compreensão que uma pessoa tem de uma palavra, quando sabe como deve ser usada corretamente? 

Filosofia da ciência 
O que define uma lei da natureza? Como difere de outras afirmações acerca do mundo? De que maneira as teorias científicas se justificam pelos indícios, caso se justifiquem? Como podemos saber que as nossas leis da natureza descrevem características do mundo que persistirão da próxima vez que o examinarmos? 

Filosofia política 
Como se deve organizar a sociedade? O que justifica a existência de um estado que pode legitimamente usurpar o poder às pessoas? Como se deve controlar o estado? O que justifica a propriedade privada, se é que se justifica? Como adquirem as pessoas direitos que não podem ser violados senão em circunstâncias especiais, se é que os adquirem? 

Filosofia das artes 
Pode-se definir o que é uma obra de arte? O que queremos dizer quando afirmamos que uma obra tem uma certa qualidade estética, como a beleza? O que determina o significado de uma obra de arte? O que justifica as diferenças entre avaliações de obras de arte, se algo o faz? 

Filosofia da religião 
Até que ponto os argumentos que justificam a existência de Deus são bons? Será que precisamos de argumentos a favor da existência de Deus, ou será a fé suficiente? Qual é a natureza de Deus e como se relaciona com o gênero de criaturas que somos? 

Filosofia continental 
É controverso afirmar que o grupo de filósofos que amiúde se agrupa sob esta designação se presta a tal classificação de uma maneira coerente, e este capítulo trata sobretudo dessa questão. Negativamente, a designação pode indicar uma divergência de métodos e preocupações filosóficas entre filósofos da Europa continental e filósofos de expressão inglesa no Reino Unido, América do Norte, Nova Zelândia e Austrália. Positivamente há talvez um fio condutor que parte do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) até ao presente, passando por pensadores como Jacques Derrida, e pode-se encarar isto como diversas maneiras de responder à perspectiva filosófica do idealismo transcendental. Os filósofos recentes encontram-se aqui marcados pelo questionamento mais fundamental da natureza e na verdade da existência da própria filosofia. 

O futuro da filosofia 
A filosofia continuará enquanto algumas pessoas mantiverem a perspectiva de que pensar cuidadosamente por si próprias é importante. É difícil determinar que preocupações filosóficas estarão no centro das atenções das pessoas no futuro. Mas parece que haverá sempre alguém a tentar debater-se com as questões mais profundas, indisposto a aceitar sem questionar as respostas que por acaso estejam à mão. 

Texto de John Shand John 
Shand Open University 
Tradução de Vítor Guerreiro Retirado de Fundamentals of Philosophy, org. John Shand (Londres: Routledge, 2003). Fonte: http://criticanarede.com/

Filoparanavai 2014

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