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terça-feira, 17 de setembro de 2013

DIVERSIDADE RELIGIOSA: Reflexão sobre a discriminação "cristã" contra as expressões religiosas de origens africanas

Religião é sempre um problema pela sua caracterização natural enquanto manifestação subjetiva. No geral, especialmente como prática própria das grandes religiões, dentre as quais o cristianismo, existe sempre aquele ranço das imposições de ideias como "o Deus verdadeiro é o meu"; "a religião verdadeira ou que salva é a minha" e assim por diante, sempre na perspectiva da redução das crenças dos outros que diferem para um patamar de inferioridade.[evangelicos-se-recusam-apresentar-projeto-sobre-cultura-africana-no-am.html] Do aspecto de um raciocínio filosófico podemos analisar isso da seguinte forma: Quando se trata de religião ou crenças religiosas, todas são verdadeiras e/ou todas são falsas. Não há como desenvolver uma demonstração objetiva sobre essas valorações. 

Portanto, nesse sentido é que trabalhamos no Estado Laico com a ideia de que todas as religiões devem e merecem ser respeitadas. E nesse encadeamento lógico é possível então que afirmemos ser o cristianismo tanto quanto qualquer manifestação religiosa de origem afro merecedoras do mesmo respeito. O Cristianismo não é superior a nenhuma outra religião desde o aspecto da objetividade. 

 Entre os cristãos, é de conhecimento de todos, de acordo com os números do IBGE, que o segmento que mais cresce em números de adeptos é o chamado movimento neo-pentecostal. E vamos ser justos. Quando me refiro ao neo-pentecostalismo não estou me remetendo apenas à ideia de um pentecostalismo oriundo das igrejas protestantes históricas, pois que a Igreja Católica também aderiu a esse fenômeno oficialmente na década de 80 por meio de uma organização chamada RCC - Renovação Carismática Católica, existente desde a década de 60 e portanto requentada na década de 80 e que não difere muito das práticas gerais de suas concorrentes. 


O rechaçamento de práticas religiosas de origens afros na atualidade pelos chamados neo-pentecostais nada mais é que um legado maldito deixado pela igreja Católica que além de apoiar o sequestro de negros na África quis a todo custo sequestrar a "alma religiosa" dos negros cravando-lhes a "bendita" (bendita?) cruz. 

Fazer um recorte racial nessa análise é uma condição sem a qual jamais poderemos compreender a extensão do problema. O neo-pentecostalismo faz muita alusão ao demônio para cativar seus fieis. 

Então em tudo o que eles puderem impregnar a imagem do demônio convertendo-os em símbolos do mal,o fazem: homossexuais, drogas, misérias materiais, rituais africanos ou afro-brasileiros, etc. 


O interessante é que nunca fazem essas alusões ao dinheiro. Ao contrário, dinheiro aqui é tido sempre como coisa ligada ao bem [LEIA a opinião do sociólogo Edin Sued Abumanssur, do departamento de teologia e ciências da religião da PUC-SP, para quem a relação entre fiéis e suas igrejas é hoje pautada por uma questão comercial. Na entrevista, Abumanssur explica como o dinheiro ganhou dimensão simbólica nas igrejas. treinamento/novoemfolha41/te21062006013.shtml

Esse tipo de discriminação religiosa está atrelada a matizes históricas legadas a nós pelos pactos econômicos e religiosos do passado. Só poderemos superá-los no sentido de valorizarmos a pluralidade de crenças se formos capazes de combater essa cultura homogênea patriarcal, machista, cristã, heterossexual, branca, rica. 

Essa discriminação religiosa acentuada contra os afros é estruturante e só poderemos combatê-la na construção de uma contra-cultura. Precisamos de formação para termos as respostas de fato que precisamos para essa desconstrução e promoção de uma sociedade que aprenda a viver em meio às diversidades.


Como diz o ditado popular: "Quem deseja ser respeitado, respeite". Coisa que muitos cristãos fundamentalistas não têm aprendido a exercer. 

Essa contra-cultura deve ser o grande sentido de uma educação voltada para a formação integral do Homem, que seja democrática, universal, pública, de qualidade e que nos leve, sobretudo, a um pleno convívio em meio às diversidades pautado pela justiça e equidade. Uma contra-cultura de fato poderá nos levar não apenas à desconstrução mas a um movimento dialético construtivista no sentido de uma nova cultura. Porém, essa nova cultura não pode ser apenas um ensaio romântico no sentido de uma utopia vazia, mas deve passar pela negação da exacerbação dos valores capitalistas.Logo, passa pela criação de valores contra-culturais. Acredito que aos poucos vamos avançar nesse caminho.É alentador saber que há pessoas levando isso a sério [Se puder leia:/homens-e-mulheres-que-optaram-por-uma-vida-simples.html

Nessa velha Cultura capitalista profundamente excludente, a ideologia desumanizadora que tornava o negro africano apenas um objeto-propriedade a ser utilizado ao bel prazer de seu Senhor é uma dinâmica lamentável que, porém, apenas travestida continua presente nos dias de hoje. 

Não atinge apenas os negros mas a todos os trabalhadores independente de cor, sexo, etc... É a velha ideologia de quem tem o capital. Dominar o poder de pensar que as pessoas possuem [aliená-los] é a pratica que sempre sustentou as estruturas geradoras de capital. 

Só pode ser dominado quem não pensa por si mesmo, quem foi descaracterizado profundamente em sua condição humana. Esse processo é tão danoso para a humanidade que as pessoas agem por meio de más ações e se ilude estar fazendo um bem. Isso é muito comum. Em uma sociedade sem ética, a máxima: "os outros fazem eu posso fazer" sustenta a estrutura desigual da sociedade.


Imagina se por detrás desse processo ideologia-alienação estiver um aparato religioso para sustentá-lo? Os pseudos cristãos do tempo escravocrata imaginavam estar fazendo um bem aos negros escravos: compactuados com o diabo e condenados ao inferno, teriam a oportunidade de receber um batismo, tornarem-se cristãos e de prêmio ganharem entrada no céu. A lógica era simples, negro-escravo bom, que obedece seu Senhor e lhe dá lucro, quando morrer ganha o céu, a liberdade. A contrária é: negro-escravo mal, que desobedece seu Senhor e lhe dá prejuízos, quando morrer continuará escravo, no inferno. O que você escolhe "meu escravo"? 

Essa lógica desumana transparece até mesmo no trecho seguinte: Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. [VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello & Irmão, 1951]

filoparanavaí 2013

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